23.2.13

from the heart

Comida simples, boa, que apetece.

Simples naco de vitela grelhado, uma bruta quantidade de feijão verde cozido al dente e um molho fantástico e cheio de sabores com azeite, mostarda, alho, un petit peu de limão, orégãos secos, sal e pimenta.




Poejos. Ideal para amainar a nostalgia da veia alentejana das meninas de cá de casa num dia de Inverno, aliando a vontade de criar com o que há no frigorífico. 
Massa com pescada, bacalhau e camarão com um molho feito da água da cozedura da massa e do peixe e com o caldo de uma cebola picada e um bom punhado de poejos picados, tudo refogado num bocadinho de azeite, triturado e emulsionado rapidamente com um ovo batido.




Almoço de hoje. Obrigada Pedro pela sugestão. Obrigada senhor do ECI por não me fazer sentir tão estranha em pedir 15g de um presunto de 175€/kg. 
Sandes de chapata com finas tiras de presunto ibérico Cinco Jotas Paleta Ibérica.
Valha-me deus, já gosto de presunto.


Tão estranho sair do trabalho e ter o Sol do fim do dia a bater-me bem forte na cara, acalmando o frio que ainda me entra pelas entranhas através pelos buracos do cachecol. Tão bom esse Sol.
Não é por nada, mas já tenho saudades da Primavera.



a ouvir: Come Together - The Beatles

17.2.13

Evocações de uma tarte


Hoje deixo-vos coisas. Falar-vos-ei do que me inspira, que é, agora me apercebo, nada mais do que o resultado das minhas escolhas. É como uma espiral ascendente. O que leio, quem procuro, onde escolho ir e ficar, a quem sorrio, com quem uso o meu tempo, quem escuto, a quem respondo, como respondo. Sinto mais clareza em tudo, dentro e fora de mim. A cabeça está mais eficiente. Sem inacções reprimidas resultantes de controlos excessivos, passo a redundância. Ou melhor, não passo ainda porque vem aí outra: sinto uma fé inesgotável que assenta, não no hipotético mas antes na certeza, numa forte convicção que resulta num "dar passos" interminável porque sei que vou chegar lá, onde quer que seja.

Inspiram-me, mais que tudo, pessoas que dão passos. Andam porque gostam e não porque tem de o fazer. Cheias de ideias e talento a transpirar por todos os poros, sem pressas para chegar a lugares intangíveis, medindo o alcance das suas acções bird by bird, celebrando todos os passos, seja a assinatura de uma casa, o primeiro trabalho publicado, a construção de uma porta e de um esgoto, a viagem de comboio impulsiva, o rompimento com uma rotina de três anos, a coragem para confiar em outro algo seu, a disponibilidade para ensinar, as horas mal dormidas trabalhando para o sonho de mais alguém... a lista continua.

Eu li um texto que, se por um lado não sinto necessidade de o aprofundar porque ao lê-lo já tem tudo dito, por outro tenho receio de o fazer, tal é o modo como sinto que me despe, ou despiria por completo há pouco tempo atrás. Fica aqui, bem guardado para mim e para quem igualmente possa "despir", para que eventualmente se possa cobrir novamente, com roupa nova, limpa e fresca.

Inspiram-me olhares. As melhores pessoas que conheço tem os olhos mais lindos do mundo. Olhos de criança e de poeta e cabeça de cientista, astronauta, construtor.
Há perguntas que para mim são muito dificeis de responder: qual é o meu estilo musical / literário preferido, o que é que mais gosto de comer, o que é que mais gosto de cozinhar, se prefiro branco ou preto, se gosto mais de ler ou escrever ou quem é o meu ídolo. Em grande parte tal acontece porque sou uma pessoa que não acredita em generalizações mas em contextualizações. Eu encaixo as coisas em mim e encaixo-me a mim no momento, no tempo e no espaço, de acordo com as circunstâncias. Não me agrada a ideia de definitivo. No entanto vou criando as minhas permissas e valores absolutos. Se há uma alma que diariamente me inspira a ser e a olhar é a Sophia. Este pequeno texto desta minha pequena bíblia exemplifica bem o porquê.

"Ás vezes, quando a casa estava adormecida à noite, ela dançava pela sala fora, tal qual como escreveu ("bailarina fui mas nunca bailei"). [...]
Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os poetas eram todos ns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e diziam coisas surpreendentes.[...] 
A segunda coisa sobre a poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para ser escutada: é oral, não cabe nos livros. [...] À mesa, entre a sopa e o prato principal, dentro de um automóvel a caminho do sul ou na missa das sete da tarde na Igreja da Graça, de repente ela começava a recitar poesia com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas triviais ou respondiam em latim ao "orate, frates!" do padre. Às vezes, naquele terror que as crianças têm que os pais pareçam estranhos em público, apetecia enfiarmo-nos pelo chão abaixo quando, à mesa de um café no Chiado, ou numa loja, em plenas compras de Natal, ou caminhando connosco pela rua de mãos dadas (por vezes distraída, perdia-nos), ela começava a recitar poesia em voz alta, como se o mundo inteiro à sua volta lhe fosse de repente absolutamente alheio. Um dia, no eléctrico a caminho de casa, ela fixou-se num letreiro, por cima de uma janela, que rezava assim: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche." E então, no meio daquele silêncio envergonhado dos passageiros, que fingem não ver e não se ouvir uns aos outros ecoou a voz dela, clara e silabada, recitando um poema: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche e que nunca mais a abra."
A mim, todavia, ensinou-me o mais importante de tudo: ensinou-me a olhar. Ensinou-me a olhar para as coisas e para as pessoas, ensinou-me a olhar para o tempo, para a noite, para as manhãs. Ensinou-me a abrir os olhos no mar, debaixo de água, para perceber a consistência das rochas, das algas, da areia, de cada gota de água. Ensinou-me a olhar longamente, eternamente, cada pedra da Piazza Navone, em Roma, sentados num café, escutando o silêncio da passagem do tempo. Fez-me mergulhador e viajante, ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro. Quem ler com atenção, verá que esta é a moral que atravessa toda a sua escrita.
A outra lição decisiva foi a da liberdade. Não só a liberdade física, não só a liberdade na luta pela justiça, "num sítio tão imperfeito como o mundo", mas ainda a liberdade na busca de um caminho próprio onde as coisas tenham uma ética e façam sentido e, acima de tudo, a liberdade da nossa própria solidão. Prémios, condecorações, homenagens, são-lhe de tal forma alheios que ninguém mais o entende. Dêem-lhe, sim, silêncio e tempo, manhãs como a "manhã da praça de Lagos" e noites com "jardins invadidos de luar". E ela dançará. Ao longo das sílabas e dos poemas, como dançava na minha infância."

Miguel Sousa Tavares




Quando me falta a coragem procuro-a por entre estas e outras palavras e assim consigo estar só quando quero e porque preciso e cuido do que é importante. Aceito o imperfeito. Vivo, traço planos, ouço música, continuo a aprender, crescem os ricos e aumenta a vontade como a velocidade crescente da água de uma nascente prestes a entrar na parte mais agreste, louca e íngreme
do caudal.



Muito quis eu escrever para acompanhar esta tarte. Queria tanto enchê-la de palavras bonitas, acabando sempre por sentir que ainda não falta algo para dizer. Mas acho que o que aqui deixo já é o suficiente. Esta tarte sou eu, hoje. É uma ode a tudo isto que me inspira. É como um trabalho de equipa, onde todos os elementos reúnem as suas maiores qualidades para resultarem numa única forma perfeita, pelo menos para a minha vontade. É apenas uma tarte, sim, mas cada vez que a fizer evocará um pequeno mundo.







it all comes down to this.







Tarte de beterraba e noz

Demorei ainda bastante tempo até decidir que esta base de tartes francesa (do género das que se utiliza para uma tarte de limão ou como base de fruta fresca e chantily) seria a ideal para acompanhar este recheio: textura de bolacha, resistente à humidade do recheio e não demasiado dura e compacta como as das tartes fundas de fruta. Não consigo explicar, mas há qualquer coisa naquela textura consistente mas quase a desfazer-se (crumbly seria o termo ideal que infelizmente não consigo encontrar semelhante na nossa língua) que a torna ideal para o seu recheio. Assim não se sobrepõe nem se abafa, complementam-se. As natas batidas estragam tudo quando são levianamente utilizadas (porquê morangos com natas???) mas podem ser a melhor coisa quando correctamente utilizadas. E o toque fresco e suave das natas batidas é como um toque leve da espuma das ondas do mar no areal. É como se fizesse uma festa com a palma da mão e abarcasse tudo em si. Poetic much? Inspired much.
É complicado dizer a relação tempo-temperatura da cozedura final da tarte, porque depende bastante da pré-cozedura da base. O importante é que essa primeira parte resulte numa massa dura mas ainda com muito pouca cor. Depois é cozer a tarte já recheada com os 180ºC como principal referência, reduzindo apenas se acharem que a base está a cozer demasiado depressa em comparação com o recheio. Nesta primeira vez fiz tudo a 160ºC durante 50 e picos minutos porque a minha base tinha já ganho mais cor do que queria na pré-cozedura, mas é simplesmente uma questão de lógica e de avaliação pontual do estado das coisas. No stress. 

Base de tartes francesa
150g farinha
90g manteiga sem sal, cortada em pedaços
1 c.sopa óleo vegetal (canola)
3 c.sopa água
1 c.sopa açúcar
1/8 c.chá sal

Recheio
1 chávena de beterraba cozida em puré
1 ovo + 1 gema, levemente batidos
125g de iogurte natural
80g de açúcar integral de cana (amarelo)
75g de nozes moídas, quase em pasta (1 cháv. de pedaços)
natas batidas, para servir (faço uma proporção de 1 volume de natas para 1/3 desse volume de açúcar)

Pré-aquecer o forno a 210ºC. Numa pequena panela, combinar a manteiga, o óleo, água, açúcar e sal.
Colocar a tigela a lume muito brando até a manteiga borbulhar e começar a acastanhar nas bordas.
Retirar do lume e verter sobre a farinha e envolver rapidamente, tendo cuidado para a manteiga não espirrar. Envolver tudo agilmente até formar uma bola que se descola das margens da tigela. Cuidado para não queimarem os dedos.
Transferir a massa para um forma para tartes de tamanho normal com base removível e espalhar um pouco com uma espátula. Pressioná-la na base com a parte da mão junto do polegar, e utilizar os dedos para pressionar os lados. Reservar uma pequena parte da massa para corrigir rachas.
Picar a massa com um garfo cerca de 10 vezes, e levar ao forno cerca de 10-12 minutos, ou até a massa ficar solidificada e ter ganho uma ligeira cor.
Remover a base do forno e, se existirem falhas na massa, corrigir com a massa reservada.
Para corrigir as rachas, pegar num pequeno pedaço de massa, rolar gentilmente entre os dedos para a amolecer e colocar sobre as falhas, suavizando gentilmente com o dedo mindinho.
Deixar a massa arrefecer antes de rechear.

Reduzir o forno para 180ºC ou 160ºC, se a base da massa tiver cozido em demasia na pré-cozedura.
Combinar a beterraba com o iogurte e o açúcar, seguido do ovo e por fim as nozes moídas, envolvendo tudo completamente antes de cada adição, para garantir que a mistura fica homogénea. Tenham especial atenção e cuidado com a adição das nozes, porque é a parte mais complicada de dissolver e de incorporar por igual na mistura.
Verter tudo para a base pré-cozida e levar ao forno cerca de 45-55 minutos, até o recheio ter solidificado e crosta ganhar um tom dourado e bem cozido. Verifiquem o estado da tarte a cerca de metade do tempo. Se a massa começar a dourar rapidamente aos 180ºC, reduzam a temperatura para os 160ºC.
Deixar arrefecer antes de servir, acompanhada de uma colherada de natas frescas batidas.


serve 8 fatias generosas



a ouvir: Boards of Canada (indiferenciado)

7.2.13

O Inverno de cinzento não tem nada.




Receio que quando tiver condições para me dirigir ao Principe Real todos os sábados de manhã não vou fazer outra coisa senão cozinhar. Hoje são moderadas as vezes que lá vou e, quando o faço, chego a casa com a carteira e as costas estoiradas - ir de Lisboa para Agualva de comboio com meia-hora e picos a pé de sacos nas mãos e aos ombros não é como estoirar a carteira com sacos da Zara ou equivalentes, ainda que nunca trocasse os últimos pelos primeiros.
É tudo lindo. A fruta, os vegetais, os produtores cheio de energia, os clientes que respiram e inspiram vitalidade, as conversas que se ouvem e os concelhos que se trocam. É belo o que se sente e as mudanças que vê quem por lá passa todo o ano: as cores das bancas a mudarem conforme o que dita a estação, os tomates a darem lugar às couves, aos nabos e às pastinacas, os pêssegos às pêras, as melancias às laranjas, o manjericão à salva, os grelos de nabo que ocupam os lugares que otrora pertenciam às alfaces, as batatas pelos rábanos e rabanetes, os pimentos do Poial que se transformam em chillis nos pequenos frascos, os morangos de Inverno ainda escondidos nos vasos da Andreia, o feijão-verde pela couve-galega e pelas bancas e caixotes todos adiante.É bonito, inspirador, dá vontade de levar tudo e inventar.

Desta vez trouxe beterrabas e nabos com rama, pastinagas, belos, belos rabanetes, couve-flor e couve-galega, beringelas, salsa e hortelã para algo que ainda não posso revelar. Os grelos tinha com fartura em casa, vindos do meu avô, e já foram todos para o arroz e clássico carapau frito do fim de semana.

Não tenho tido disponibilidade para estar na cozinha como dantes e por vezes não apetece, mas há dias em que a vontade fala mais alto. E então acrescento mais uma hora às duas que reservo para mim antes de "começar o dia" - a minha mãe diz que acha um exagero - e invisto num almoço que magnifique todas estas pérolas da estação (agora que vejo, acho que há um café ao pé da estação do Cacém que se chama assim) em todo o seu esplendor.

No Inverno é raro apanharem-me a comer saladas ou qualquer coisa directamente saída do frigorífico: sou de sopas, tigelas quentes e comida fumegante. Se puder usar só uma colher, melhor. Mas não há regra sem excepção.


Preparo tudo em casa e emprato na copa do trabalho. Nenhum trabalho, apenas amor e dedicação.



É um grande, grande prato.



É um lindo, lindo prato. Uma descoberta. As folhas da beterraba e do nabo tem um sabor suavizado das raízes, na minha opinião totalmente comestíveis crús. O crocante aroma das sementes numa garfada é sempre uma agradável surpresa. O sabor do perú dá o toque salgado e fundamental, que bem podia ser fornecido por um queijo, feta ou parmesão (se fosse com este talvez não juntasse a mostarda). A mostarda no molho é simplesmente aquela acidez para mim irresístivel, totalmente diferente dos rabanetes e por isso necessária. Uma mistura de alimentos com sabores inconfundíveis, constantemente valorizando-se uns aos outros sem nunca se anularem.
Gostava apenas de saber arriscar mais nos molhos, mas tenho de aprender ainda com os melhores.


Salada de vegetais de Inverno, com maçã, perú e sementes de abóbora e de girassol

Odeio dar quantidades certas neste tipo de receitas, onde o rigor é a última coisa que conta. Tanto as doses como os cortes dos alimentos são apenas uma referência daquilo que fiz para mim, conforme o que me apeteceu e que me pareceu equilibrado.
Devo ter feito umas seis vezes o caminho da bancada para o frigorífico e voltar, indecisa entre usar feta ou parmesão para completar a salada. Confesso que fiquei ligeiramente tonta porque estão a três passos de distância. Não deve ter sido bonito de se ver, o meu pai que o diga. Acabei por trazer o feta mas deixei-o embrulhado no papel prata que trouxe e comprei umas fatias de fiambre de perú pelo caminho, porque é para mim um bff da maçã.
Para os pobres deste mundo que não tem uma panela de cozer a vapor como eu e gostam de economizar, façam o seguinte: coloquem a couve-flor em floretes no vosso escoador de metal, coloquem por cima de uma panela grande onde estão a cozer a beterraba (desde que o escoador não toque nela) e tapem com uma tampa que cubra tudo. Depois é só deixar cozer até à consistência que vos parecer ideal.

1 molho de uma mistura de folhas e talos de beterraba e de nabo, cortadas grosseiramente
1 beterraba média, cozida, cortada em pedaços de 0,5-1cm de espessura
2 maçãs Granny Smith, cortada em fatias finas
1 c.sopa de sementes de girassol, tostadas na frigideira
1 c.sopa de sementes de abóbora, tostadas na frigideira
2 talos de aipo, picados grosseiramente
1/2 couve-flor média, dividida em floretes e cozida ao vapor
1 pastinaca, cortada em rodelas o mais finas que conseguirem
10 rabanetes e respectivas folhas, cortados em fatias finas e em quartos
6 fatias de fiambre de perú

6 c.chá de azeite
3 c.chá de mostarda
2 c.chá de orégãos
2 c.chá de sumo de limão

Misturar todos os ingredientes menos os do molho numa saladeira rasa.
Numa tigela emulsionar bem o azeite, a mostarda, os orégãos e o sumo de limão.
Cobrir a salada com o molho e finalizar com as sementes e o cebolinho picado.
Servir de imediato. Um sumo de frutos vermelhos deve ir bem com isto. :)

serve 2


a ouvir: Nothing Owed - Bonobo

31.1.13

Aviso especial à Ana e o Bom-dia que lhe dedico em jeito de Obrigada

Para a Ana, a "leitora permanente" - palavras suas - que, compõe juntamente com a quantidade esmagadora de três outros seres o agregado de visitantes assíduos deste espaço:

Quando vocês me assaltam com vagas de ternura com mensagens privadas, agradecendo, apreciando, elogiando e outros grandes verbos "grandes" de mais para aquilo que alguma vez imaginei que este blog poderia inspirar, fico desarmada. A ti, hoje especialmente, obrigada, obrigada, obrigada. Não te preocupes, isto vai continuar. A cena dos vícios é que sabem bem e custam a parar. Posto isto, até que me canse. A minha ausência ou reduzida actividade deve-se apenas ao facto de neste momento sinto que a minha vida é uma daquelas caixas surpresa, às quais devo dizer que não acho grande piada e que até acho meio assustadoras, mas neste caso totalmente entusiasmantes e absolutamente recheadas de potencial prestes a tornar-se realidade a qualquer instante. É a minha vida a começar, por fim. Sou eu a chegar ao "Agora" que responde à pergunta "Quando chega a minha vez?" colocada por mim, mais vezes do que gostaria.




pão preto da Quinoa, com queijo creme e sumo de romã: é fantástico! Adoro comer romã, mas quando se lhe são retirados todas as pevides que lhe conferem acidez transforma-se num néctar dos deuses.


É verdade, já tenho carta. Diz a sabedoria popular que algo doce antes do exame é sucesso garantido. Da primeira vez o sucesso decidiu ficar a dormir, mas decidi não agoirar e repetir a dose, com algo diferente.



Laranjas com calda de caramelo e papas de aveia + Earl Grey. 
É o Céu na Terra às 8h da manhã.



a ouvir: Radio Radar

20.1.13

Partilha, da verdadeira

"Ela devia estar lá, não devia? Devia estar ao fogão, com o seu roupão novo, pródiga de conversa simples e encorajadora. No entanto, quando abriu os olhos há minutos (já depois das 7!) - quando ainda habitava parcialmente o seu sonho, uma espécie de mecanismo trepidante, numa distância remota, um bater regular como o de um gigantesco coração mecânico, que parecia estar a aproximar-se -, e apercebeu-se da sensação abafada e húmida à sua volta, da impressão de não estar em lado algum, e soube que ia ser um dia difícil. Soube que ia ter dificuldade em acreditar em si mesma, nas divisões da sua casa, e quando olhou para este livro novo na mesa-de-cabeçeira, posto em cima do que acabara de ler a noite anterior, estendeu maquinalmente a mão para ele, como se ler fosse a única e óbvia primeira tarefa do dia, a única maneira viável de efectuar a transição do sono para o dever."





Preguiça desgraçada para voltar a enfiar-me aqui. Não sei bem por onde começar, continuar e terminar isto. Não sei bem porque o faço, mas apesar disso tenho sempre de sobra para dizer. Mas estou a fartar-me. Farto-me bastante, já o disse antes. Estou farta de formular a minha própria tese, antítese e síntese aqui, de mim para mim. E não me satisfaz mais fotografar comida, dizer o que é, como se faz e esperar um sinal, que gostem, comentem, que comam com os olhos mas não com a boca. É muitas vezes por isso que ainda o faço, porque sei que há quem me ouça. Mas isso já não chega. Não quero mais monólogos, quero também eu ouvir.

É perigoso agarrarmo-nos a um prazer com tanto empenho esperando que de alguma forma preencha os nossos vazios porque não é possível. É apenas parcial, temporário e mais tarde uma pura ilusão, porque acreditamos que ele nos preenche de tal maneira suficiente, cegando-nos, criando dependência e no fim frustração, porque não obtemos mais dele o que outrora obtivemos - precisamente como os vícios. Desde a perda da capacidade de simplificar o que tudo tem para ser simples, à exaustão e esquecimento dessas mesmas coisas simples, de ver a beleza nas pequenas pequenas descobertas prazeres que talvez merecessem vir para aqui mas não estão, como se já não fossem suficientes,como o couscous salteado com uns restos de camarão do Ano Novo, gengibre fresco, alho, azeite, malagueta e coentros. Ou como o molho de mostarda e oregãos que fiz para temperar o feijão verde e o naco fantástico de vitela que veio do restaurante. Tão bom, tão simples e auto-suficiente. É disto que o animae se devia tratar... muitas vezes já não é. Está a ficar demasiado complicado.

Mas é bom isto, de reconhecer o que está mal e perceber o que falta. Isto tem de ser fácil, simples, melhor do que quando começou. Vou baralhar e dar de novo. Primeiro porque comida é comida, trabalhos à parte. Por último porque isto sem partilha, verdadeira partilha de sentidos - de fala, toque, visão, risos, respirações, cheiros, movimentos - não vale nada. Eu preciso mais. Essa é a minha resolução do ano, ou o que quiserem chamar.


"Mesmo assim, há o sentimento de oportunidade perdida. Talvez nunca haja nada que possa igualar a recordação de terem sido jovens juntos. Talvez seja tão simples como isso. Richard foi a pessoa que Clarissa amou no seu momento mais optimista. Richard tinha estado a seu lado na beira de uma lagoa, no crepúsculo, usando jeans cortados e sandálias de borracha. Richard chamara-lhe Mrs. Dalloway e tinham-se beijado. A boca dele abrira-se na dela; a sua língua (excitante e absolutamente familiar, ela nunca esquecera) avançara cautelosamente até a dela ir ao seu encontro. Tinham-se beijado e caminhado juntos à volta da lagoa. Uma hora depois jantaram e beberam uma quantidade considerável de vinho. O exemplar de Clarissa de The Golden Notebook estava em cima da estalada mesa-de-cabeceira branca onde ela ainda dormia sozinha - onde Richard ainda não começara a passar noites alternadas.
Parecera o começo da felicidade, e às vezes, passados mais de trinta anos, ela ainda se sente chocada ao dar-se conta de que foi felicidade, de que toda a experiência se encontra num beijo e num passeio, na previsão de um jantar e de um livro. O jantar foi, entretanto esquecido; a Lessing foi há muito ofuscada por outros escritores, e até o sexo, depois de ela e Richard terem chegado a esse ponto, foi ardente, mas embaraçoso, insatisfatório, mais aprazível do que apaixonado. O que continua a viver, intacto, na memória de Clarissa, decorridas mais de três décadas, é um beijo no crepúsculo, num retalho de erva seca, e um passeio à volta de uma lagoa, enquanto zumbiam mosquitos no ar que escurecia. Ainda permanece essa perfeição singular, e é perfeição, em parte, porque pareceu, na altura, prometer tão claramente mais. Ela agora sabe: esse foi o momento, exactamente esse. Não houve nenhum outro."

As Horas, Michael Cunningham,  1998



Poderia continuar a escrever.
E ainda não sei que receita vou pôr aqui.


*update*


Porque cada coisa destas tem sempre de acabar uma receita, a verdade é que não sabia o que é que iria acompanhar todo este manifesto, toda esta ânsia para exprimir o que me vai na alma. Pensei que eventualmente seria algo que fizesse para a festa dos 50 do tigre rabugento cá de casa, ainda que sem grande entusiasmo e mais pelo sentido do dever. Coisas.

Contudo, aquilo que fiz, as circunstâncias da ocasião, não poderiam estar em maior sintonia com o propósito de todo este texto. É este o seu remate, é precisamente a isto que quero chegar, e não demorei assim tanto tempo como o Proust (desculpem, estou a ler este livro e não pude evitar de o trazer para a conversa, é fantástico). Pois aquilo que preciso é aquilo que estas receitas simbolizam: o encontro, a amizade, o amor, a partilha de sentidos e de horas felizes. Apenas assim sai validada esta "coisa" que tenho com a comida. Gratificação pessoal? Pois sim, mas esclarece tantas dúvidas. O sentimento de preenchimento e realização são espontâneos. Não obedecem nem partem da minha mente mas antes reagem simplesmente aos estímulos do que vejo, ouço e, por último, aprecio.






Vinhos, uma lacuna gastronómica por preencher: não percebo muito deles, só sei que eram bons. Tanto que me pediram para fotografar as garrafas vazias.



Porque o momento é para ser vivido e registado sem caneta, papel ou objectiva, ficam aqui os despojos deste dia. Fotografado na altura, apenas aquilo que não poderia ser adiado nem recriado. O resto ao longo da póstuma manhã.


Colaboração de mãe e filha, foram quatro as coisas que fiz: um bolo e uma sobremesa de receitas fielmente seguidas; uma entrada confeccionada ao sabor do momento, com o bom senso a ditar a forma e a função; e um prato principal, criado por moi mème que, após uma semana de algum estudo aprofundado, posso dizer que me enche de orgulho. E depois houve a sopa, creative direction by Cathe e design by Mãe, so to speak.
Minhas ou não, as quatro aqui vão.


Creme de abóbora com louro e alho refogado. Uma vez que a sopa é laranja, não há muito para ver. Já a panela é infinitamente mais interessante de fotografar e contemplar.



Entrada para agradar a gregos e troianos: bruchetta com todos (chouriço, pimento vermelho, beringela e courgette salteados em azeite com cebola picada e tomilho); sem pimento, para os de digestão sensível; e sem chouriço com um cheirinho a parmesão fresco ralado, para os menos apaixonados por carne. Simples e prático. Pão no forno até torrar, regar com um fio de azeite, esfregar loucamente com alho e cobrir com os recheio. Dar cortes individuais, prato e servir.


E agora, eis o prato principal aka orgulho de mãe: um atípico rolo de carne.


Rolo de carne com cogumelos e morcela de arroz

Passei uma semana a estudar receitas de rolo de carne, que tipo de ingredientes funcionam, as suas funções e quais os mais indicados para o efeito final que pretendia. Em refeições mais especiais tenho a tendência a adicionar um toque doce, geralmente com fruta ou frutos secos. No entanto com todos os ingredientes já definidos e de sabor marcante, nomeadamente a morcela, que escolhi para dar um sabor especial, o aipo e o tomilho-limão, as passas que considerei utilizar inicialmente não faziam mais sentido, por isso deixei-as de fora. 
Tive muito cuidado para utilizar uma quantidade equilibrada dos ingredientes, principalmente da morcela por causa do seu sabor proeminente, para que nada se perdesse ou sobrepusesse. 
É preciso ter alguma atenção ao sal. Tenho alguma dificuldade em dizer qual a quantidade que utilizei porque fiz o triplo desta receita e adicionei sal a olho. Tendo em conta que a morcela é já de si bastante salgada, creio que cerca de 1 colher de sopa cheia de sal deverá chegar para todo o rolo.
O tomilho-limão também é outra coisa que não medi. A dose indicada é apenas uma sugestão, pelo que mais vale seguirem o bom senso ou o vosso gosto.
O pão húmido confere ao rolo alguma humidade para que não fique seco e, juntamente com o ovo, ajuda a ligar tudo numa mistura consistente.
Não amassem muito a mistura para que não fique empapada. A ideia é obter um rolo bem assado, com um tom profundo tostado por fora e húmido e rosado por dentro, firme mas cujos ingredientes se identifiquem perfeitamente.

35g de pão branco velho
1 1/2 c. sopa de azeite
2 folhas de louro grandes
2 dentes de alho médios, picados
2 talos de aipo, finamente picados
1-2 cebolas doces médias, picadas
100g de cogumelos brancos, bem picados
65g de morcela de arroz, grosseiramente despedaçada com os dedos
330g de carne de vaca picada
330g de carne de porco picada
1 ovo, batido
2 c.sopa de tomilho-limão
sal (ver nota)
pimenta preta fresca, moída, a gosto

Para os cogumelos
45ml de vinho branco
azeite
sal e pimenta
tomilho-limão
300g de cogumelos portobello
3 dentes de alho, finamente picados

Colocar o pão partido grosseiramente numa tigela com leite suficiente apenas para o ensopar. Reservar.
Numa frigideira, saltear o alho, o louro e os vegetais todos no azeite, baixando o lume e tapando de seguida até suarem, ficarem totalmente moles e a maior parte do líquido libertado ter evaporado, sem escurecerem ou ganharem cor. Isto pode levar entre 5 a 10 minutos.
Passar os vegetais para um recipiente para arrefecerem um pouco. Colocar a morcela na frigideira anterior a lume médio-alto e saltear cerca de 5 minutos, até começar a libertar a sua gordura e bastante aroma.
Num recipiente bastante largo, colocar as carnes e o pão húmido, bem espremido do leite e despedaçado o mais possível. Adicionar cerca de 1/ 1,5 c.sopa de sal e pimenta a gosto e misturar bem, mas não amassar demasiado. De seguida juntar os vegetais, a morcela e o tomilho limão. Envolver bem até a mistura ficar homogénea e todos os ingredientes estarem bem misturados.

Entretanto pré-aquecer o forno a 200ºC. De volta à carne, formar a mistura num rolo com cerca de 4cm de altura e 10 cm de largura e passa-lo cuidadosamente para uma travessa de forno.
Pegar nos cogumelos portobello, já lavados, cortá-los em metade ou em quartos ou mesmo deixá-los inteiros, dependendo do tamanho, e colocá-los numa tigela com os restantes ingredientes. 
Colocar tudo à volta do rolo, finalizar com um fio de azeite e um bocadinho do vinho sobre o rolo e levar a assar cerca de 1h-1h15min, até ficar totalmente cozinhado e ter ganho uma cor intensa na superfície. (Um truque para ver se a carne está cozida é inserir uma faca dentro do rolo durante 5 segundos e verificar se está bem quente após retirar.)
Servir de imediato, acompanhado com um simples puré de batata.

serve 10-12



As laranjas, totalmente usurpadas do Nigel Slater. Foram um raio vibrante cheio de luz e energia para o palato. Creio que, apesar de tudo, foi para todos a grande surpresa da noite, e não há melhor prova que isto de que com apenas dois ingredientes, sendo um deles fruta, pode-se fazer a melhor das sobremesas. Quem diria que laranja fatiada e açúcar queimado tem tal potência? Garanto que é para mim mil vezes melhor maneira de terminar uma refeição que o melhor dos trifles, cremes variados ou pudins. Ei-las:


Laranjas com caramelo (e não laranjas caramelizadas!)

É verdade que tem apenas dois ingredientes e água, mas o segredo está na confecção. É preciso ter vontade para fazer tudo como deve de ser senão a experiência fica apenas a metade. Mas garanto que vale a pena. É preciso apenas paciência para arranjar as laranjas, concentração e muito cuidado a fazer o caramelo, porque pode espirrar e queimar. É também completamente adaptável ao número de pessoas a servir, se esquecermos a seca que é ter de arranjar 16 laranjas e esperar meia hora até ter 800g de açúcar pronto para caramelizar, como foi o meu caso.

4 laranjas
200g de açúcar

Retirar a casca e remover o máximo possível de parte branca das laranjas para não deixar qualquer travo ácido. Eu usei uma faca larga bem afiada e passei-a de rente em volta de toda a laranja já descascada, cortando a películo exterior o mais finamente possivel. Sei, acaba por ser um desperdício mas vale a pena. Reservar cerca de metade da casca de uma das laranjas.
De seguida, cortar cada laranja em 6 ou 7 rodelas finas, dependendo do tamanho da laranja. A ideia é que cada rodela fique com cerca de 0,5cm de espessura. Coloquem-as em pratos individuais com uma ligeira concavidade ou numa travessa ou um prato grande semelhante (ou algo como utilizei, vejam as fotos).
Pegar na casca reservada e novamente com a faca afiada, passar rente à casca da parte de dentro para retirar a parte branca. De seguida cortar a casca em tiras o mais finas possíveis e reservar.
Colocar o açúcar e 125ml de água fria numa panela média, levantar fervura e deixar a borbulhar lentamente até que adquira um tom de âmbar intenso. Entretanto por mais 125ml de água a ferver. Logo a seguir ao açúcar na canela ficar com o tom pretendido, colocar a panela num lava-loiça cuidadosamente, cobrir a mão com um pano ou luva de pega para a proteger e deitar lentamente os outros 125ml de água a ferver. Tenham muito cuidado com o xarope a fervilhar para não espirrar a água para a vossa pele e tentem verter a água com a cara o mais afastada possível. Mexer de imediato para dissolver qualquer pedaço sólido que se forme, colocando brevemente a panela ao lume novamente, se for preciso.
Misturar os "cabelos" da casca de laranja reservados, deixar o xarope arrefecer totalmente e verter sobre as laranjas fatiadas.

serve 4



E o bolo. Há receitas que vejo, chamam a atenção, mas perdem-se no meio de todas as outras. Há outras que vejo, chamam a atenção, mas ficam. Ainda que demore anos até pegar nelas, eu sei que vão valer a pena. Esta é uma delas.
É um bolo que me dá vontade de dizer instantâneamente que foi o melhor que já comi. As duas fatias comidas de seguida sem vergonha são a prova disso.



Bolo de Azeite e Pistáchios com Compota de Figo
receita retirada de Design Sponge - In The Kitchen With: Ming Thompson's Layer Cake

Se querem um bolo barato, esta não é definitivamente a receita a seguir. Os pistáchios custam os olhos da cara (já para não falar da hora inteira que se demora a descascá-los e a prepará-los) e a minha sorte, e provavelmente a única razão para ter feito este bolo, foi ter figos secos maravilhosos e biológicos oferecido pelo tio João. Obrigada tio, as 25 pessoas agradeceram.
Acho estranho fazer esta receita num tabuleiro de 20x20 porque eu dupliquei-a, dividi a massa por duas formas iguais dessa dimensão, e mesmo assim ficaram bolos super baixos, pelo que não sei como é possível serrar horizontalmente apenas um desses bolos para colocar o recheio, tal como a receita indica. A minha sugestão é: ou reduzem a forma do bolo para metade do tamanho (cerca e 10x20 ou semelhante) ou façam como eu e dupliquem a receita. O trabalho é duplicado e acabam com um bolo enorme, mas garanto que vale todas as migalhas e inclusive converte o mais céptico hater (procuro palavra em português) de figos. True story.
Como eu sou mesmo amiga e querida, converti as quantidades para medidas europeias para que não haja confusões. Caso queiram usar as medidas americanas (i.e chávenas e afins) é só seguir o link.

Compota de figos - recheio
30 figos secos inteiros
360ml de água
80ml de sumo de laranja
pitada de sal
1-2 c.sopa de mel, dependendo do açúcar contido nos vossos figos (os meus já tinham bastante)


Bolo
110g de pistáchios
135g. de farinha
1 ½ c.chá de fermento em pó
¼ c.chá de sal
160g de açúcar
120ml azeite virgem extra
120ml de leite
2 ovos
2 c.chá / 10ml de sumo de limão


Cobertura
55g de manteiga, à temperatura ambiente
110g de queijo-crème
425g de açúcar em pó



Compota: cortar os figos em pequenos pedaços, do tamanho de amendoíns. Cozinhar numa panela com os restantes ingredientes menos o mel até ficarem moles e a água ter evaporado, cerca de 20 minutos. Adicionar o mel e cozinhar mais um minuto. Deixar arrefecer.

Cobertura: esmagar os ingredientes todos e bater a velocidade máxima até ficar bem combinado e cremoso.

Bolo: pré-aquecer o forno a 180ºC e engordurar uma forma de 20x20 com azeite.
Triturar os pistáchios num processador até obter uma mistura de pequenas gravilhas. Remover cerca de metade e triturar o resto até se assemelhar a areia grossa.
Numa tigela, combinar os pistáchios finamente triturados com os restantes ingredientes secos. Misturar tudo e adicionar o azeite e o leite. Bater bem até ficar misturado. Adicionar os ovos e o sumo de limão e bater atécombinar. Adicionar a outra metade dos pistáchios. Verter a massa no tabuleiro e levar ao forno durante 35 minutos, ou até as bordas estrem ligeiramente acastanhadas, e o teste do palito sair limpo. Deixar arrefecer.
Cortar o bolo horizontalmente com uma faca de serra. Barrar a camada de baixo com a compota, cobrir com a outra camada e espalhar a cobertura de queijo por cima. Finalizar com figos e pistáchios adicionais.

serve 10-12





a ouvir: Tessellate - Alt-J

7.1.13

Duas semanas e picos e um bolo de gengibre


Passei. Pequeno-almoço de pré-encartada. Comei um grande doce e passai.
Estes poderiam ser hipotéticos título e legendas para esta fotografia. Mas não são. A sua legenda na verdade vai algo assim: "Como começar o dia da melhor maneira para o continuar num íngreme e acelerado declive" ou "Pequeno-almoço da quase condutora que não o é porque depois de uma prova quase excelente decidiu meter-se numa via em contra-mão". Algo assim.
Já passou. Excepto que o que me fez cometer o erro é o que mais me assusta. Quando no meio de alguma sincera e profunda concentração algum canal do meu cérebro entope e por momentos os sentidos desligam-se da percepção, algo entre a cegueira mental e uma amnésia micro-temporal que elimina a capacidade de raciocínio da minha mente, sendo preciso um trabalho de esforço brutal para que isso não aconteça. Não me lembro desde quando o tenho, mas já há tempo suficiente para o recear desde o primeiro dia que pus as mãos no voltante. Inconscientemente, porque nunca o racionalizei, mas sempre o senti.
Mas já passou. Para todos os males, gozar comigo mesma ajuda sempre, é o que me vale. E dormir também. E neste caso específico, ter uma mãe que passou à 2ª e um pai que só passou à terceira também torna o processo menos difícil. Obrigada...(?)

Festas e coisas.
O 12? Uma das pista, da caça ao tesouro que "ofereci" à familia, enfiada na lombada descozida da velha e resistente enciclopédia portuguesa de lá de casa. Caça essa que nos salvou do mal da enganosamente bem afamada noite, que de especial não tem muito para ninguém, sendo que manifestações de desagrado só pela calada. 20 pistas passando por códigos de números de telefone, manifestos nas "boas concelheiras",  fazer o que o Jorge Palma pede, pedir ajuda ao Gandhi e carregar no play, terminando num pedido com jeitinho e um beijinho. Salvei-nos e foi muito divertido.



Depois recebi mimos. E comecei a fazer um cachecol verde.



Fiz 80 azevias. O Senhor Tempero fechou e ainda me dá um aperto no coração de pensar nisso.
Mas vai passar.
Uma passagem de ano prevista a ser passada em casa a bocejar à espera da meia-noite transformou-se na melhor até à data. Venham mais. Não as passagens, a diversão e boa companhia.




E este bolo é ou se gosta mesmo muito, ou não se gosta mesmo nada. Em tudo é intenso, em nada contido. Textura intensa, sabor intenso, cheiro intenso, cor intensa. Dá vontade de usar linguagem de descrição de perfumes para o descrever: "uma fragrância tal, voluptuosa e irresistível, com umas notas de cabeça frescas, passando para umas notas de coração de um crescendo picante e aromático chegando a umas notas de fundo quentes, escuras, prometendo uma cumplicidade íntima total entre si os demais presentes à volta da mesa."

Quem não gosta de gengibre, come bolo-rei.



Bolo de gengibre e cerveja preta
adaptado de Gourmets Amadores

Para quem não é fã de sabores muito intensos este bolo não é sem dúvida uma boa opção. A mistura de especiarias grita Natal e perderia metade da piada se não fosse assim. Também seria interessante ver o efeito de um pouco de raspa ou sumo de laranja misturado na massa, são sabores que ligam naturalmente bem com as especiarias e por isso deve valer a pena experimentar. A textura é húmida mas bem consistente, a lembrar remotamente a textura de uma tigelada, talvez pela pouca quantidade de farinha e da utilização da cerveja e de tantos ingredientes líquidos. Hei-de pesquisar.
A receita original diz o bolo pode ser feito com uma semana de antecedência e guardado numa caixa, coberto com papel vegetal e película aderente. Eu guardei duas e também ficou muito bom. Mas bem guardadinho.

200ml cerveja preta
125g manteiga
225g golden syrup
165g açúcar integral (rapadura)
1 1/2 c.chá de gengibre em pó
1 1/2 c.chá de canela
1/4 c.chá de cravinho, moído
1/4 c.chá de anis estrelado, moído
225g farinha
1 e 1/2 c.chá de bicarbonato de sódio
200ml de natas magras
2 ovos

Pré-aquecer o forno a 170ºC. Forrar o fundo de um tabuleiro de 20x30cm ou de área semelhante com papel vegetal e pincelar com manteiga.
Colocar o açúcar, a cerveja, o golden syrup, a manteiga e as especiarias num tacho em lume brando até todos os ingredientes estarem derretidos.
Numa tigela grande, peneirar a farinha e o bicarbonato de sódio.
Retirar a mistura de açúcar do lume e mexendo com uma vara de arames, verter sobre a farinha.
Bater bem até obter uma mistura homogénea e lisa.
Misture as natas com os ovos, bater ligeiramente e adicionar à mistura anterior. Envolver totalmente e verter a massa no tabuleiro.
Levar ao forno 45 minutos ou até estar cozido. Deixar arrefecer completamente antes de cortar em quadrados. Servir com uma bola de gelado de baunilha, polvilhado com açúcar em pó só mesmo para ficar quase tão bonito quanto sabe.

faz 10 generosas fatias, 12 bem-comportadas.


a ouvir: Skin - Grimes

28.12.12

Eu já explico o "12" mistério.






Mas entretanto tenho 20 azevias muito especiais para aviar. Não, não são as que já coloquei aqui há algum tempo, são as minhas azevias. Acreditem, são mesmo especiais, palavra de todos os que já as comeram, não minhas. Bem... minhas também. Vá lá, ajudem a pobre designer / aspirante a qualquer-coisa-no-mundo-da-cozinha que vive de subsídios de alimentação e de direitos de projénie a ganhar uns trocos fofinhos e a ser um bocadinho mais feliz.

Encomendem já, vocês sabem que querem.




Biscoitos de gengibre cristalizado para o repertório das encomendas. Nunca tinha provado nada assim. Ricos, completos, absolutamente deliciosos.



a ouvir: Lost - Frank Ocean

20.12.12

É de manhã que se começa o dia e que se anuncia.



pão alemão com mel de urze, laranja e iogurte natural. Café.



Este blog tem um apêndice que ao contrário daquele nasce conosco e que não serve para nada, espero que sirva para muita coisa boa, para mim e para vocês. 
Eu tenho um sonho (tenho bastantes até, mas fiquemo-nos por este) e uma paixão. 
Se me ajudarem, a minha paixão tornar-se-á em parte vossa e assim, recheando a pouco e pouco a minha carteira, garanto-vos que da mesma maneira rechearei da maneira mais doce os vossos momentos mais especiais. 


O meu acanhamento leva-me a escrever isto por meias palavras, mas dito de uma maneira mais bruta, para o caso de não ter ficado claro, significa que preciso de ajuda. Vou para fora mas não o posso fazer de bolsos vazios. Por isso estou a fazer doces para por encomenda: bolos, tartes, pastelaria, bolachas, barras biscoitos, doces de colher e outros pedidos e sugestões que me queiram propor. Se me quiserem ajudar, façam os vossos pedidos e eu garanto-vos algo fantástico e totalmente diferente.
Obrigada.


a ouvir: Give Out - Sharon Van Etten

18.12.12

Do melhor.



Não sabia bem que título dar a este texto. A coisa é rápida, simples.
Ponto de situação: uma abóbora-menina enorme a decorar a sala e sem fim em vista. Castanhas numa cesta. Um fim de dia de trabalho, a necessidade de um almoço para o dia seguinte e a pouca disponibilidade (e vontade) de cozinhar.

Duas panelas ao lume e uma travessa no forno. Algum trabalho de faca, outro de dedos, forno e voilá: magia. Maravilha de cheiros a perfumar a cozinha e a pedir para serem comidos na hora, qual canto das sereias, e não no almoço do dia seguinte. Mal sabia eu que aquele intenso aroma, de bater aos pontos qualquer vela de cheiro do Ikea, era apenas o prenúncio de uma experiência muito feliz. O prato salgado mais doce e perfumado que já comi. Do melhor, repito.

Oxalá eu fosse dotada do génio da escrita e do malabarismo das palavras para conseguir dar-vos uma ideia justa do que é esta combinação de sabores. Muitos já a conhecerão, bem sei. Salva e abóbora não é novidade, pois não. Abóbora com castanhas tão pouco. Mas mais dos que já tudo isso sabem, são aqueles que o desconhecem, e é a eles - vocês - que dedico isto.



Abóbora assada com salva, castanhas e arroz integral

Optei por cortar a abóbora bastante fina porque demoraria muito mais tempo a ficar assada no ponto e a caramelizar da maneira que queria e também porque achei que só fazia sentido tê-la em pedaços proporcionais às castanhas. A salva seca na minha opinião funciona tão bem como a fresca e um bocadinho rende bastante. A que utilizei é da marca Sonnentor e comprei no Brio. É a erva da abóbora por excelência, mas se não sabem em que mais utilizá-la, experimentem esfregá-la num lombinho de porco com sal, pimenta e se quiserem um bocadinho de alecrim, estufá-lo em manteiga ou azeite, ou assá-lo no forno, fica uma maravilha. Também vai bem com aves, maçã em pratos salgados ou compotas, ou frita em manteiga e a guarnecer uma pasta ou risotto. É uma erva forte que deve ser cozinhada antes de ser comida, por isso não arrisquem utilizá-la crua como a salsa, coentros, manjericão ou qualquer outra do género.  
O arroz integral tem um sabor inteiramente do arroz branco, por isso não aconselho trocar por arroz normal, além do que sabe melhor e faz mais bem à saúde :)

1kg de abóbora menina
2 dentes de alho grandes, finamente fatiados
2 c.chá de sal
1/2 c.chá de pimenta preta moída fresca
2 c.sopa de azeite
1 c.sopa de vinagre balsâmico
1 c.sopa de salva seca, picada
470g de castanhas com casca ou 400g sem casca
1 1/2 - 2 chávs. (280/370g) de arroz integral
sal q.b

Pré-aquecer o forno a 200ºC com a prateleira em baixo.
Descascar a abóbora e cortá-la em pequenos pedaços com cerca de 3cm e 0.5cm de espessura.
Colocar a abóbora numa travessa de forno larga, de preferência que dê para colocá-la numa só camada. Adicionar o alho, sal, pimenta, azeite, vinagre balsâmico, salva e envolver tudo por igual.
Levar ao forno cerca de 60 minutos, mexendo a meio do tempo, ou até a abóbora estar bem assada, a caramelizar nas bordas e na base da travessa.
Entretanto cozer as castanhas e o arroz. Dar um corte fundo na casca, caso tenham, e cozer em água salgada durante 30 minutos (se forem congeladas provavelmente demoram menos tempo). Aguardar até que arrefecam um pouco e descascá-las. Partam-as ao meio ou deixem inteiras, se preferirem e reservem tapadas.
Colocar o arroz numa panela com o dobro da água a ferver com sal durante 25-30 minutos (o arroz integral demora mais tempo que o branco).
Colocar tudo numa grande travessa de servir, que eventualmente até poderá ser a mesma onde se assou a abóbora, envolver tudo e servir quente.

serve 3 doses generosas


a ouvir: Storm - Django Django