12.12.12

Um bolo, a oportunidade, o pretexto e o motivo.

Primeiro veio a oportunidade. Mentira, primeiro veio, há um ano atrás, um email envergonhado, que por entre as poucas palavras que continha, lia-se "Eu costumo dizer que há duas coisas na vida, as que nos cortam a respiração e as que nos deixam respirar melhor. E este teu tumblr calha direitinho na segunda". Rematado com um keep shinning e um simples sara (assim, em letra minúscula) assinado por baixo. E eu sem palavras na altura e agora quando o voltei a reler. Cinco linhas de texto que vieram na melhor hora que ela poderia imaginar. Tanto que provavelmente foi por elas, por ela, a Sara, que não parei de escrever aqui em tempos bastante conturbados.
Depois, oito meses depois, o primeiro encontro, que soube a pouco, mas de quem pouco se ralou com isso, por saber, com a maior das certezas, que o tempo é nosso. Em dois meses seguiu-se um aniversário, por mim presenteado por uns apressados pastéis de grão e coentros no forno, bons, mas não o suficiente para estarem à altura da ocasião (e da pessoa); um jantar tardio e a tarde de ontem (a verdade é que foi há três dias atrás, o texto foi escrito no dia seguinte). Sem nada para celebrar ou ocasião especial para festejar. Apenas para estar. Estarmos. E falar, ouvir, rir, descobrir (mas é que é mesmo assim!) e comer. Temos portanto a oportunidade para este bolo.


Apercebi-me já que o meu coração bate mais por aqueles bolos que fazem lembrar o Santo Graal do Indiana Jones e a Grande Cruzada: tosco por fora mas de ouro por dentro. Aquela fotografia e todas as substâncias fazer crescer água na boca ficaram-me na cabeça desde o primeiro momento que os vi e li - coisa rara, sofro de síndrome de leitura diagonal virtual (i.e. no ecrã) e de memória curta. E eu ali, desejosa de o fazer mas sem a oportunidade para. Quase todos os bolos que faço são para aproveitar/rentabilizar algum alimento que tenho em abundância ou para ocasiões e celebrações especiais e este não encaixa em nenhuma das categorias anteriores, pertencendo antes à dos bolos que são podres de bons e essa é razão suficiente para os fazer e à chamada bolo, apetece-me comer-te agora, e aqui apresento o motivo. Não fosse a minha avó comprar comida para vinte cada vez que há almoço em casa dela e não teríamos uma série de bananas impingidas lá em casa para comer  e a ficar demasiado maduras até para mim e, por conseguinte, o pretexto.

O bolo é fantástico. É daqueles bolos que sabemos que vai ser bom só de sentirmos o cheiro das coisas quando ainda o estamos a fazer.
Em termos nutricionais, em vez de ser uma bomba calórica, é sim uma bomba de coisas boas - banana, chocolate negro, azeite em vez de manteiga, farinha integral, o limão que torna (quase) sempre qualquer coisa boa ainda melhor e claro, algum açúcar integral maravilhoso à mistura. Quando sai do forno cheira a papa de bebé e quando entra na boca tem-se tudo misturado mas ao mesmo tempo cada elemento distinguido. E quer-se mais.



Uma folha de ginkgo que apanhei no jardim. As microscópicas gotas de orvalho que reflectiam uma luz preciosa do sol das 8h da manhã. Preciosos, ela e o bolo.

Bolo de banana e chocolate com glacé de açúcar integral e limão
ligeiramente adaptado de 101 Cookbooks

As pequenas alterações que fiz são rela Este é um bolo que na verdade se serve idealmente frio, pela principal razão que a cobertura quando solidifica formando uma espécie de fina carapaça, por alguma razão, fica ainda mais maravilhosa.

125g de farinha branca de trigo
140g de farinha de trigo integral
75g de açúcar integral (rapadura)
50g de açúcar amarelo
3/4 c.chá de bicarbonato de sódio
1/2 c.chá de sal grosso
115g de chocolate negro 70% cacau, picado grosseiramente
80ml de azeite
2 ovos grandes, ligeiramente batidos
340g de bananas muito maduras, esmagadas (cerca de 3 grandes)
60ml de iogurte natural (equivale a um copo regular de 125g)
1 1/2 c.chá de raspa de limão fresca
1 c.chá de extracto de baunilha

55g de açúcar integral (rapadura)
35g de açúcar em pó
4 c.chá de sumo de limão fresco

Pré-aquecer o forno a 180ºC e colocar a prateleira no centro. Engordurar e enfarinhar uma forma rectangular de pão de 23x13, ou de capacidade equivalente.
Numa tigela larga, misturar as farinhas, os açúcares, o bicarbonato e o sal.
Adicionar o chocolate e misturar (se for um tupperware, tapem com a tampa e finjam que estão a tocar maracas!)
Numa tigela média, envolver o azeite com os ovos, as bananas, o iogurte, a raspa de limão e o extracto de baunilha. Verter esta mistura na dos ingredientes secos e envolver com uma espátula apenas até ficar tudo bem combinado, sem que restem vestígios de farinha.
Passar a mistura para a forma preparada e levar ao forno 50-60 minutos, dependendo da forma utilizada (eu utilizei uma de 20x12 e precisei de 60 e tal minutos). O ideal é que o bolo adquira uma cor intensa mas que o seu interior esteja no limiar entre o mal cozido e o demasiado seco. Deve ficar com alguma humidade no centro e para garantir isso o melhor é espetar com um palito no centro e ir verificando. Assim que parecer quase quase pronto, desligar o forno e retirá-lo que ele eventualmente acabará de cozer o que falta com o próprio calor.
Transferir a forma para uma grelha para arrefecer durante 10 minutos, e retirá-lo da forma de seguida para arrefecer completamente.

Enquanto o bolo coze, preparar a cobertura numa tigela, batendo os açúcares com o sumo de limão até ficar cremoso. Cobrir o bolo quando tiver arrefecido completamente, espalhando a cobertura com uma espátula.


serve 10


a ouvir: Orelha Negra em repeat.

6.12.12

Desmame, celebrações e um crisp de noz

Ultimamente na minha cabeça vai chocolate, relatórios e gráficos em Webdesign, a ida ao cinema eternamente adiada, casacões vintage de camurça, um bilhete de lotaria, a perspectiva de não conseguir fazer metade do que pensava que ia fazer no Natal (e um certo alívio por saber que nem sequer terei os dilemas do que fazer e não fazer do costume), um bom riso desbragado que não emito há muito e que o meu corpo ressente, a resposta à Amanda que ainda não dei, os iogurtes açucarados que comprei enganada (quando diz natural, assume-se que é mesmo natural, certo?), o frio que me congela as entranhas e me magoa as mãos, as borboletas na barriga que não sinto, o passeio com a Sky que me soube tão bem, os amigos que sinto longe, os amigos que tenho perto.

Encaro tudo com optimismo, apesar de tudo. Modéstia à parte com algum estoicismo por vezes, não pela natureza boa ou ruím das coisas mas pela ligeira tendência pouco saudável que tenho ao olhar para elas.

Por isso celebro. Há sempre coisas para celebrar. De ontem, de hoje, do que está para vir, de há um mês, há 10 anos. Como por exemplo as amizades por "inconveniência" que tenho feito nos últimos tempos, amizades fáceis de fazer, manter, aprofundar e acredito com toda a força que para perdurar - celebro este blog que, entre ter-me dado razões e pretextos para celebrar tanta coisa, deu-me precisamente algumas dessas amizades. Celebro os bons momentos que pude proporcionar a queridos amigos e companheiros no grande jantar de há já um mês, oferecendo-lhes finalmente mais que um cheirinho deste manifesto.
Celebro a lúcia-lima da minha avó que tantos fins de dia, juntamente com a minha botija de água quente (que aproveito também para a celebrar!) tem acalentado o meu termóstato avariado.
Celebro a Amanda e os irmãos, celebro o meu CV e as minhas pernas que juntos tornaram possível a minha primeira experiência profissional em três tempos.
Celebro tudo o que sou e o potencial daquilo que posso ser porque, em jeito de terapia, preciso de fazer para acreditar que assim é, sou, serei.
Celebro os Black Keys por me terem dado o melhor concerto do ano.
Celebro Deepak Chopra e Agostinho da Silva.
Celebro o Eixo do Mal e a Downtown Abbey.
Celebro o blush e os meus batons que fazem magia a uma cara pálida e mal dormida.
Celebro o Senhor Tempero porque na sua curta vida mudou as nossas vidas, no matter what.
Celebro o chocolate quente, o Juno e a Amélie ao meu colo que fizeram a compilação perfeita para a minha noite de sábado.
Celebro quem me dá os bons dias e quem os retribui quando me levanto às 5h45 para às 8h estar a aprender a conduzir. Celebro a minha capacidade de abstracção de todos os rabugentos, impacientes e mal encarados que encontro por esta estrada fora nas manhas durante as manhãs das ditas aulas e durante o resto do dia.
Celebro o chá que torna qualquer trabalho suportável, o catálogo do Sebastião Rodrigues que secretamente fotografei na íntegra para ter como supra-sumo da inspiração.
Celebro a boa energia da Francisca. Celebro a Sara, a Ana, a Ana, o Ivan, o Pedro, o João, porque nunca é demais assinalar o meu carinho por vós.
Celebro a Inês e o ichat por partilhar comigo sons fantásticos que mantém a minha sanidade a salvo da Smooth FM - rádio vigente "ao serviço" da Happy Brands (my work place btw)-, bem como o meu gosto por jazz, blues e bossanova - muito agradável nos primeiros dois dias de trabalho, absolutamente desesperante nos restantes.
Celebro a Quinta do Poial, o Tomo, a Taberna da Rua das Flores e outros que mais, e a crença de que um dia certas questões de poder serão substituidas por dilemas sobre o que escolher.
Celebro comida, celebro as ervas aromáticas e celebro o meu crisp de noz: pequeno-almoço, sobremesa, lanche e tudo o que uma pessoa quiser, de tão versátil, reconfortante, saboroso e duradouro que é.

Aqui, para sobremesa, no almoço de teste para o tal jantar: com gelado de rum e passas (pode ser demasiado doce, não é algo que aconselhe especialmente) e esta receita que coloca marmelos cozidos a um outro nível. Não poupem na calda e conservem-na para pôr sobre papas de aveia ao pequeno-almoço. Ai...

... e para pequeno-almoço como a minha nova coisa preferida: com iogurte natural (Pur-Natur, naturalmente) e romã do meu tio. 

p.s: aproveito e celebro também todos os que me oferecem fruta e legumes e ovos biológicos ao longo do ano. Be happy.Um dia hei-de fazer uma lista.


Crisp de noz e aveia com golden syrup

O facto de este crumble ser feito separadamente da fruta torna-lo provavelmente não só na melhor sobremesa preparada em avanço. Não só porque não tem de ser preparada no seguimento de uma refeição, por ser quase impossível que perca o crocante como sua característica fundamental, porque é possível, com ele, personalizar a sobremesa, colocando na mesa elementos fazer combinações diferentes e cada um poder brincar com os elementos a seu gosto e fazer uma partilha de experiências (acabei de ter esta ideia e tenho pena de não em ter lembrado antes!), porque podemos fazer o dobro ou triplo do necessário e poder ter à mão durante bastante tempo sem que fique minimamente estragado e, por último, porque é o suprassumo da sobremesa saudável e equilibrada: uma sobremesa NUNCA pode ser totalmente saudável para ser chamada sobremesa, à excepção desta, que está doce q.b, gulosa q.b, calórica abaixo de q.b, e nutritiva q.b (check the walnuts and the oats!), pelo que um pequeno-almoço com ela é imensuravelmente mais saudável que uma tigela de cereais processados, já para não falar de um pastel de nata ou um queque - lamento, mas nunca hei-de conseguir compreender como há quem comece todos os dias assim tão mal. Não é preciso saber cozinhar para fazer isto, é preciso gostar, experimentem.

75g de manteiga sem sal
100g de farinha
25g de golden syrup
pitada de sal
50g de flocos de aveia
60g de nozes picadas em pedaços medianos

Pré-aquecer o forno a 180ºC.
Colocar tudo num grande recipiente e misturar tudo com as pontas dos dedos, de forma a garantir que fica tudo envolvido e dissolvido de forma homogénea, nomeadamente e principalmente a manteiga e o xarope dourado. Não há muito a dizer sobre este passo se não relembrar que a mistura final deverá assemelhar-se a um combinado de migalhas grossas.
Colocar num tabuleiro forrado com papel vegetal, grande o suficiente para que dê para colocar a mistura numa só camada.
Levar ao forno durante 35-40 minutos, mexendo a meio do tempo, até o crisp ficar num tom dourado profundo e bem tostado.
Servir morno, ao natural (não voltar a re-aquecer!) ou guardar num tupperware fechado durante pelo menos um mês - não sei quanto tempo mais durará, mas a última dose que comi foi um mês depois de ter sido feita e manteve-se impecável.

Para como sobremesa, sirvam com uma colherada de iogurte grego, marmelo escalfado com mel e baunilha e um pouco da calda, ou simplesmente com uma bola do vosso gelado preferido ou com uma bola de gelado de baunilha e uma colher de um doce de fruta, ou porque não com requeijão e mel?!

Para um fantástico-pequeno almoço a fórmula é simples: iogurte natural (i.e sem açúcar) + fruta + crisp por cima. Entre as minhas preferidas estão a romã (chato de arranjar mas vale totalmente o esforço), uvas, maçã reineta escalfada, pêra cozida com o caldo em que foi cozida, figos secos e claro, os marmelos cozidos.

serve 5

a ouvir: Espelho - Ovelha Negra

27.11.12

Quem ama e corre por gosto, cozinha, espera, come uns rolinhos de açúcar e canela com um cheirinho a cardamomo, sempre alcança e não cansa.

Enquanto assistia ao cada vez melhor e sempre fantástico desempenho de um bom amigo, o medo assaltou-me: E se cresce demais? E se coze antes de a poder trabalhar novamente? Sorrateira e nervosamente, debaixo do casaco os meus dedos cegos escrevem "mãe se a massa já viver duplicado visa la do quente sff" na esperança de que a mencionada consiga decifrar a mensagem e aceder ao pedido. Valeu-me este tempo quentinho que foram necessárias, não uma nem duas, mas sim quase cinco horas para que o aquecedor surtisse o efeito desejado.

Cada vez que deixo massa a crescer instala-se um nervoso miudinho que só desaparece depois da primeira dentada, já fora do forno. Mas cada vez que deixo massa a crescer sinto um orgulho especial de quem conseguiu fazer alguma coisa entre uma experiência química e um número de magia.





































Mas algo mais me fez começar estes bolos-que-não-o-chegam-bem-a-ser às cinco e meia da tarde, uma hora depois pôr a massa a crescer em cima de um banquinho em frente ao aquecedor da sala, às sete sair, à meia-noite e meia voltar, formar os bolos e à uma voltar a pô-los a crescer em frente ao aquecedor (bendita Downtown Abbey que me manteve bem acordada) até às duas da manhã, quand decido desligá-lo e deixá-los ali, literalmente a fermentar no calor da sala, e acordar às nove do dia seguinte, congelar metade e levar a outra ao forno enquanto ponho rapida e eficientemente a mesa para um pequeno almoço-especial. É que foi o aniversário deles, do gajo de vinte e seis e da gaja de vinte e cinco anos que à vinte e três decidiram fazer uma coisa, hoje em dia aparentemente tão disparatada e desacreditada (no sentido em que a expressão utilizada é "não acredito no") que é celebrar o amor e a união entre eles e marcar o início de uma nova vida. Muitas novas vidas, aliás, começando pela minha.
E porque qualquer bom acto altruísta parte inevitavelmente de uma vontade egoísta, fi-los porque adoro o pequeno-almoço, porque é daquelas receitas que de quando em vez me assaltam a vista enquanto navego pelos sitios do costume e porque são aqueles bolos que podemos comer dois ou três de uma vez sem nos sentirmos culpados, principalmente o fazemos acabados de sair do forno, celebrando com quem amamos, numa manhã chuvosa de domingo.
Eram doze, sobraram zero.



Só mais duas ou três coisas:


Se gostam carreguem no link e e botem o polegar no ar por favor (como quem diz façam Gosto / Like / J'aime / Gefällt mir / Gilla / Me gusta / Mi piace / 讚 ! Obrigada.

Iogurte de soja natural é das piores coisas que já comi.

Hoje vou ver Black Keys, só para deixar registado.







































Rolinhos de açúcar e canela com um cheirinho a cardamomo
ligeiramente adaptado de 101 Cookbooks

Apesar de a tradição mais fiel de bun ser bolo/bolinho, eu considero estes rolinhos uma espécie de pães doces, da familia dos scones, croissants e dos brioches. Como tal, nem bolo nem pão - um rolinho.
Doces mas de sabor subtil, são super versáteis e fáceis de personalizar, transformando um saboroso pequeno-almoço num lanche ou petisco guloso. Pela net encontra-se 1001 variedades desta receita, desde esta simples com um toque a cardamomo que não minha opinião poderia ser mais evidente, até outros não menos apelativos que já tenho debaixo de olho para o Natal, com uma calda de noz, mel e laranja.

4 c.chá de fermento de padeiro seco
1 cháv. de leite morno
100g de açúcar amarelo
1 ovo grande, batido
125g de manteiga sem sal, ligeiramente derretida
1 c.sopa de cardamomo em pó
1 c.chá de sal fino
600g de farinha

60g de açúcar amarelo
2 c.sopa de canela
65g de manteiga sem sal, amolecida

1 ovo batido com 1 c.sopa de água
açúcar grosso para polvilhar ou glacé de bourbon ou brandy (ou simplesmente um bom wisky, para os portugueses)


Polvilhar o fermento sobre o leite morno numa tigela grande. Adicionar uma pitada do açúcar e mexer para dissolver o fermento. Deixar repousar durante uns minutos até começar a formar espuma. Adicionar o restante açúcar, o ovo, a manteiga derretida e o cardamomo. Misturar até ficar tudo dissolvido e suave. Misturar o sal com a farinha e de seguida adicionar gradualmente à primeira tigela, pouco a pouco, incorporando a farinha totalmente após cada adição.
Transferir a massa para uma superfície enfarinhada e amassar 8-10 minutos, ou o que for suficiente para que  resulte numa massa lisa e elástica (eu por exemplo, amassei cerca de 5 minutos apenas por já ter de certo modo amassado enquanto incorporava a farinha, no fundo segui o meu instinto e resultou bem).
Transferir a massa para uma tigela engordurada. Virar a massa na tigela para ficar engordurada e cobrir com um pano de cozinha.
Deixar a massa crescer num local com sol ou quente até ter duplicado, cerca de 1 hora. Cortar a massa ao meio numa superfície enfarinhada e formar uma bola com cada metade. uma de cada vez, amassar cada bola num rectângulo de 30cm e 12mm de grossura.

Para o recheio, combinar o açúcar e a canela numa tigela pequena.
Pincelar metade da mantiga igualmente sobre um dos rectângulos de massa.
Polvilhar metade da mistura do açúcar sobre a manteiga, enrolar a massa de forma apertada longitudinalmente, e virá-la com a borda para baixo, pressionando ligeiramente.
Cortar o rolo em 12 pedaços iguais, uma faca de serra é o ideal para isso. Os pães podem ir ao forno com o lado cortado virado para cima, num tabuleiro forrado com papel vegetal, em formas de cupcakes, ou numa travessa ou prato de forno engordurada, como uma forma de tartes, que foi o que utilizei.
Colocar os pedaços a cerca de 1,5cm de distância entre eles se forem cozidos no tabuleiro ou no prato, para que possam crescer de forma a que fiquem aconchegados na base onde estão a ser cozidos. Repetir o processo com a massa restante e o recheio. A esta altura, as fatias que não vão ser cozidas podem ser congeladas.
Cobrir os rolos preparados com uma toalha seca e deixá-los crescer novamente num local morno até terem dobrado de volume, cerca de 1h. O tempo de crescimento aqui depende da temperatura do local, pelo que pode variar.

Aquecer o forno a 205ºC com a prateleira no 3º andar mais alto.
Pincelar os rolos com o ovo e água batidos e polvilhar com açúcar, se for desejado.
Cozer os rolos até ficarem bem dourados, cerca de 15-18min. Não cozer demaziado ou irão secar. Retirar do forno e servir quentes se possível, ou ao natural, com uma pincelada de cobertura glacé sobre cada rolo ou mesmo com o glacé servido numa tigela para cobrirem os rolos a gosto.


faz 24 pequenos rolos




a ouvir: Matilda - Alt-J

21.11.12

Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta, disse eu

Passaram aproximadamente 90 semanas de almoços na faculdade e dois anos deste manifesto e nunca esta receita veio aqui parar. Não por falta de oportunidades. Aliás, sempre que a altura se proporcionava a minha linha de pensamento foi na linha do "para quê fazer agora quando o posso fazer mais tarde, noutro dia, numa outra história, noutro contexto? Contextos não faltarão com certeza...!" E não faltaram, efectivamente.

Três anos se passaram e este foi um dos almoços mais repetidos.
Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta - assim mandei escrever no meu epitáfio académico. Saber que depois de três horas por vezes longas de mais tinha algo à minha espera.
Por vezes novo, por vezes velho, mas sempre entusiasmante e acima de tudo, sempre eficaz: complementando um dia bom ou medicando um a precisar de algum incentivo.
A história deste couscous são todas as histórias que lhe pertencem e a que pertenceu. Três anos (and counting!) absolutamente recheados de histórias.
Agora a receita de sempre, ligeiramente melhorada, numa "faculdade" diferente.

























Couscous de cominhos, gengibre e açafrão com vegetais assados e passas

Este simples prato dá largas à imaginação para adicionar, tirar, adaptar, juntar de 1001 maneiras possíveis. Com ou sem coentros, com ou sem frutos secos, um pedaço de limão em conserva bem picadinho, uma colherada de iogurte grego mesmo no fim, um pedaço de frango desfiado, uma maçã aos cubos adicionada aos vegetais no forno e talvez uma pitada de canela. Vão sentindo o que vos apetece e jogando com isso. Go for your heart and eat with your soul. ;)

700g de abóbora, aos pedaços de 1-2cm
2 cebolas médias, picadas
4 cenouras fatiadas com cerca de 0.5cm de espessura
2 courgettes médias, em rodelas de 1cm aproximadamente
2 c.chá de sal grosso
1 c.chá de pimente preta fresca
2 c.sopa de azeite
1 1/2 cháv. de couscous
1 cubo de caldo de vegetais
2 c.chá de cominhos
1 c.chá de gengibre em pó
3 c.chá de curcuma / açafrão-das-índias
60g de passas
1 cháv. de pinhões ou nozes tostadas, grosseiramente picadas (opcional)
1 molho de coentros e cebolinho, picados

Pré-aquecer o forno a 190ºC.
Preparar os vegetais e colocar todos num tabuleiro de forno e temperar com o sal, a pimenta e o azeite.
Levar ao forno cerca de 30 minutos, ou até os vegetais estarem cozinhados e bem assados, o que deverá depender do tamanho dos pedaços, envolvendo uma vez durante esse tempo.
Colocar o couscous e as especiarias numa tigela e ferver 1 1/2 cháv. de água com o cubo de caldo de galinha. Quando ferver, colocar sobre o couscous e tapar bem com uma tampa ou película aderente durante 5-7 minutos. Retirar a tampa e soltar bem com um garfo.
Juntar os couscous aos vegetais, adicionar as passas, as nozes ou pinhões e os coentros e cebolinho picado.
Servir de imediato ou servir frio, adicionando as ervas frescas apenas na altura de comer.

serve 4


a ouvir: The Motherlode // Mahogany Session - The Staves

15.11.12

O contexto das bolachas

12 do 11

Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho. Trabalho a sério, daqueles onde a licenciatura e o currículo efectivamente servem.
Acordei às 6h45, que não gosto de andar à pressa.
Vestia-me pensando, indecisa, se haveria de optar pela manteiga ou o mel na torrada a acompanhar uma chávena de chá de lúcia-lima com leite, casca de limão e um pingo de xarope de agave, acabei por comer metade com cada coisa. Também não me conseguia decidir se havia de apanhar o comboio das 23 ou o das 27. Pús o meu baton rosa e saí.
Nem ouvi música no caminho. Nem estava nervosa. Fechei os olhos e desliguei-me por momentos.
Tudo correu muito bem, como só podia ter corrido. E o meu caminho vai-se fazendo. Levei canja da minha avó para o almoço. Pensei que seria uma coisa estranha para o meu primeiro dia de trabalho, mas nada me saberia melhor que aquele caldo a fumegar de conforto.
Conheci alguem que bebe mais chá que eu.
Fiz uma cábula com a disposição dos lugares lá dentro para não me esquecer dos nomes.
Os meus dedos continuam feios e a doer da queimadela da semana passada mas acabo por conseguir ignorá-los durante o dia. Já as outras dores só lá vão com Trifene, uma cama quente e as bolachas que fiz para o meu lanche. Para prevenir e remediar.
Percebi que quando batem as cinco horas de trabalho os meus ombros começam a desafiar seriamente o meu bem estar.
Saí às 9h30 da noite. A minha mãe foi-me buscar a Lisboa e eu senti-me feliz.
Mais tarde lembrei-me que me esqueci de desligar o rato e o teclado.
Quando cheguei a casa vi as minhas 15 polegadas sobre a mesa e de repente pareceram-me demasiado pequenas.



14 do 11

Apercebo-me agora da importância tremenda da rotina, do tempo cheio. Em três dias, a noção de aproveitar tempo, planear, e tempos livres alterou-se substancialmente.
Não ligava o computador à dois dias. Se não fosse para escrever isto provavelmente não o faria.
Tenho mensagens a responder, pessoas a agradecer, posts aqui por fazer, uma série e um programa para actualizar, um bilhete por concluir, um catálogo por fotografar, o almoço de amanhã por fazer et caetera. Mas quando paro é só isso que me apetece fazer. Ficar parada. De olhos fechados ou abertos para ver a poeira assentar, mas parada.




Bolachas de dois açúcares, aveia e damascos secos

Os açúcares são muito mais que a sua qualidade inerente de doce. Tem sabores próprios, características únicas e insubstituíveis. A diferença entre xarope dourado e mel e mesmo entre os diversos tipos de mel que existem são dos melhores exemplos que posso dar. Estas bolachas também são sem dúvida uma prova disso. 
Fora os biscoitos de azeite portugueses, o biscotti italiano nunca fiz bolachas antes, pelo que não sabia que há bastantes factores que influenciam a sua textura final. Esta receita resultou numas bolachas não tão crocantes como gostaria, mas pelo que percebi, e uma vez que quero manter os açúcares utilizados, retirar o ovo e o bicarbonato pode ser uma boa opção para as deixar mais estaladiças.

1 ovo grande, batido
70g de açúcar integral (rapadura)
140g de açúcar amarelo
120g de manteiga sem sal, à temperatura ambiente
100g de damascos secos
150g farinha de centeio
1/2 c.chá bicarbonato de sódio
1/2 c.chá sal
140g flocos de aveia
2 c.sopa leite

Pré-aqueçer o forno a 180ºC. Forrar dois ou três tabuleiros largos com papel vegetal.
Bater os açúcares com a manteiga amolecida.
Adicionar o ovo e o leite e bater até obter uma massa homogénea.
Peneirar a farinha com o sal e o bicarbonato de sódio. Adicionar à mistura do açúcar e manteiga e bater até os ingredientes estarem combinados.
Acrescentar a aveia e os alperces e envolver até ficar tudo bem misturado.
Com uma colher de sopa, colocar pequenas porções nos tabuleiros intervaladas com cerca de 2,5cm para não colarem. Levar ao forno por 15-20 minutos ou até terem escurecido bastante. Não deixem mais que os 20 minutos porque as bolachas acabam de endurecer cá fora, um pouco à semelhança do cacau.
Transferir para uma grelha de metal para arrefecerem.


faz cerca de 36-40 bolachas, dependendo do tamanho




a ouvir: Kettering - The Antlers


10.11.12

Mimos do Poial - o poblano negro




































Já no fim de um longo encontro repleto de novidades - novas pessoas, novos caminhos, novos sabores e imensas descobertas, de mimos na mão e prestes a ir embora, infiltro-me na conversa entre alguém falar com Lorena, mexicana de yema - e com uma outra pequena a germinar na barriga - sobre o que fazer com todos aqueles poblanos, jalapeños, malaguetas, e et caeteras de pimentos oferecidos, nomeadamente aquele negro, de formato semelhante ao pimento doce italiano mas mais pequeno e de ar um tanto intimidante.

Ao contrário de alguns improvisos em que não me consigo libertar das combinações de sabores estandardizadas pelas culturas gastronómicas e pela sabedoria popular, as palavras poblano e pêssego suscitaram em mim meia-dúzia de sabores que eu soube que iriam funcionar.

Informação retida e processada a invulgar inspiração, da sugestão inicial muito pouco ficou. Os pêssegos transformaram-se em alperces secos, a carne substituí somente por couscous e pinhões tostados e todas as especiarias, ervas e pequenos acrescentos surgiram da intuição. A confecção foi ao sabor do vento e, ainda que um pouco atabalhoada, acabou por correr tudo muito bem.



No final, faltou eventualmente uma simples salada fresca a acompanhar para amenizar a quantidade insensata de malagueta que utilizei. A minha falta de tacto e experiência em certas circunstância levam-me a cometer alguns erros como o mencionado anterior e a ligeira secura que ficou à superfície do couscous. Apesar disso, a textura ligeiramente crocante do couscous não é de menosprezar, porque acaba por contrastar com o interior mais húmido do pimento. Fica um pouco à semelhança do gratinado do arroz de pato. De resto, modéstia à parte, posso dizer seguramente que foi das melhores coisas que já comi.




































Pimento recheado com couscous, alperces secos e pinhões
Se não estiverem numa de usar o forno cortem o pimento às tiras e coloquem na frigideira a saltear ao mesmo tempo da chalota e dos alperces. Se estiverem numa de juntar carne, by all means. Se forem quiserem juntem queijo. The sky (ou o que tiverem na despensa) is the limit!

1 pimento jalapeño (um pimento doce regular serve perfeitamente, embora não seja picante), dividido em dois longitudinalmente, sem sementes
2 c.chá de azeite
cerca de 1/2 c.café de canela
1 c.café de cominhos
1 c.café de pimenta da jamaica
1/4 malagueta, finamente picada e sem sementes
20g de alperces secos, picados grosseiramente
3g de pinhões, ou mais ao vosso gosto
1 chalota, às rodelas finas
45g de couscous + a mesma quantidade em volume de água, ou a mesma quantidade de arroz + o dobro do volume em água
1 c.chá cheia de hortelã picada
2 c.chá de alecrim, picado
sal q.b
1/8 de limão em conserva, fatiado finamente
1/2 queijo fresco ou parmesão fresco ralado a gosto, opcional

Pré-aquecer o forno a 200ºC. Colocar as metades do pimento numa travessa de forno e reservar.
Aquecer o azeite na frigideira com as especiarias e a malagueta até começarem a libertar aroma, cerca de dois minutos a lume baixo.
Aumentar ligeiramente o lume e juntar os alperces, os pinhões e a chalota e saltear até os pinhões ganharem um tom dourado, cerca de 5 minutos.
Adicionar o couscous, as ervas e o limão em conserva, mexendo constantemente até o couscous começar a ganhar cor e o limão a caramelizar ligeiramente.
Adicionar a água, tapar e deixar o coscous cozer completamente a lume baixo, adicionando mais água se começar a secar muito cedo. Provar e rectificar com sal se for necessário.
Retirar a mistura do lume e rechear os pimentos completamente, apertando bem para que caiba tudo lá dentro - não há problema se transbordar um pouco. Nesta altura se quiserem coloquem meio queijo fresco fatiado por cima do couscous para que derreta no forno ou polvilhem com parmesão ralado.
Levar ao forno durante 30 minutos ou até o pimento estar bem tenro e começar a chamuscar e o couscous ganhar um tom dourado e tostado.
Servir quente, acompanhado com uma salada fresca simples com um vinagrete de limão e mostarda.


serve 1





















a ouvir: Number 1 - Goldfrapp


31.10.12

O meu manifesto e o de uma beterraba: num bolo e numa salada

Uma amiga deu-me uma beterraba, uma grande beterraba. "Essa grande é para a Catarina", disseram-me que disse. Tão grande era a responsabilidade que ali ficou à minha espera, pacientemente, no frigorífico, mais tempo do que devia, confesso. Mas foi resistente e valeu a pena a espera. Obrigada Lina.

Passei no código. Venci as rasteiras semânticas dos pode, deve e tem de e agora é só não atropelar ninguém, não passar em vermelhos nem tirar o pé demasiado cedo na embraiagem. Easy peasy.
A condução, a edição da minha zine, um concerto absolutamente espectacular, as conversas com pessoas inspiradoras na faculdade (ex faculdade!), o livro que leio e a demanda pelo meu primeiro spot profissional - com a minha experiência de vida no punho erguido! - geram picos de entusiasmo, nervosismo, um certo donaire pouco modesto (apareceu-me como sinónimo de garbo e pareceu-me mais... garbosa) e uma ligeira impaciência que, por sua vez, geram em mim um desejo brutal de algo com chocolate, porque como já disse outras vezes, as indulgências para mim são os desejos mais exigentes. Tanto que nunca preciso de decidir o que quero, simplesmente sei-o.



O último bolo que fiz antes deste foi também do mesmo autor. O que é que posso dizer? É a minha alma gémea da gula - gastronómica, porque a minha gula exige arte! Por isso é que, entre tantos bolos de chocolate e beterraba que existem, escolhi o dele. É um dos três autores que faço os possíveis para seguir os ingredientes à risca. Porque sei que vale a pena e é para mim uma garantia. Não sei se é melhor ou pior que os outros e a sua apreciação não é unânime, sendo que para alguns o sabor da beterraba é, e passo a citar "demasiado acre". Só sei que me chegou bem... duas grandes vezes.

O bolo é tal como Nigel o descreve: extremely moist. Mais que um chiffon. Da primeira vez que o comi, ainda à temperatura natural, era húmido e até mesmo meio cremoso, como se estivesse ligeiramente mal cozido no centro. E quando pensava que não poderia ficar ainda melhor, a segunda fatia, retirada do frigorífico, endureceu e adquiriu uma textura absolutamente maravilhosa e indulgente, quase como o recheio de uma tarte, e atingiu o auge do seu sabor. Não ficou de todo igual ao da foto na receita, talvez esse tenha sido feito com beterraba dourada, não sei. Mas sei que ficou bom. E não se assustem se no dia seguinte a cobertura do creme fraîche ficar cor de rosa. A receita completa aqui.



Dos três quartos de beterraba que sobraram, um quarto foi para esta salada, a never ending salad.
Tem tudo, como eu gosto. Doce, salgado, amargo e ácido. É fantástico como um sabor suporta o outro, sem o anular: o aroma anisado do funcho e o sabor salgado do feta fundem-se num só sabor, a subtileza da beterraba cozida e a doçura crocante da pêra realçam-se mutuamente, e o toque amargo da mizuna  com o sabor único da quinoa, envoltos no simples vinagrete de mostarda envolvem tudo numa só sinfonia. A salsa foi a erva escolhida, só para perfumar. É como um concerto: temos pianos, contrabaixos, clarinetes, violinos, trombones, saxofones (a minha literacia nesta area não é grande, lamento) e o maestro. Se calhar não é A melhor receita para aplicar a analogia, mas também serve. E que cores!




































Salada morna de quinoa com beterraba, pêra, feta, funcho e rabanete

1 chalota, cortada em rodelas finas
2 c.chá de vinagre de vinho tinto
1 c.chá de mostarda
2 c.sopa de azeite extra virgem
sal e pimenta preta acabada de moer

1 pequena beterraba vermelha (cerca de 250g), cozida e cortada aos cubos
1 pequena beterraba branca (cerca de 250g), crua, laminada às rodelas
4 rabanetes, fatiados finamente
1 pêra, cortada aos cubos
100g de feta, cortado aos cubos
1 cháv. de quinoa, escoada em água fria corrente, cozida e ainda quente
1/2 funcho, laminado
2 punhados de mizuna ou agrião
1 c.sopa de salsa, picada

Para fazer o molho: colocar a chalota numa pequena tigela ou um frasco pequeno e cobrir com o vinagre, pressionando as rodelas para garantir que o vinagre as cobre completamente. Deixar por alguns minutos, depois acrescentar a mostarda e misturar. Bater bem. Cobrir com o azeite, temperar com uma pitada de sal e pimenta (se a mostarda for Dijon provavelmente não precisam de muita) e de seguida bater novamente, ou fechar o frasco e agitar energicamente para que o molho fique emulsionado.
Para fazer a salada, pouco mais é preciso fazer que cortar os ingredientes, empilhá-los num grande prato como preferirem, temperar com o molho e voilà, munch away.

serve 2


a ouvir: Towers - Bon Iver

30.10.12

(Descobri) os diospiros

Não fosse eu curiosa e de mente aberta, pronta a quebrar preconceitos de infância e não teria descoberto a beleza por detrás daquele fruto que cobria o chão de uma camada peganhenta e inundava o ar com um odor a podre num certo recanto do jardim do meu colégio e que tanta repugnância me causou durante cinco anos.

Comido simples é talvez demasiado enjoativo, mas acompanhado é um mimo. Nunca vi um fruto que fosse compota ao mesmo tempo.



viscoso mas gostoso.


com iogurte para levar.


com papas de aveia ao pequeno-almoço.

23.10.12

Mimos do Poial - o feijão

O cabaz que recebi da terra do Poial é uma pequena grande aglomeração de potencial. Fiz um inventário na hora, claro. As ervas foram para um muito improvisada, muito feia e muito saborosa salada morna de batata doce, um dos minis pimentos e requeijão.

Um raminho de: alecrim, funcho, tomilho, manjerona e cebolinho, tudo bem picadinho e envolvido no requeijão. Depois o calor que emana da batata doce grelhada e o azeite fazem o resto, intensificando e misturando os sabores numa só garfada.





O topinambo, que não era mais que uma amostra, valeu-me para uma sopa pseudo-tailandesa de udon noodles, juntamente com uns pimentos.



Com as malaguetas tem sido mais complicado decidir o que delas fazer. Por muito atractiva que seja a ideia de fazer um chutney que encontrei no Culinário de 2008 ou um dos molhos de algum dos meus autores de referência, a verdade é que picante lá em casa, só com bastante moderação, ou pelo menos nada que se compare ao valente palato dos mexicanos ou dos tailandeses. Com elas fiz este molho até agora. É super versátil, tendo já servido uma colherada generosa sobre um peito de frango, refogado num arroz de pimento e dando um twist refrescante a uma posta de pescada cozida.


Depois há (havia!) o feijão longo e aquele poblano negro, de destino marcado desde que lhes pus os olhos em cima.

Por hoje fiquemo-nos pelo feijão. Lembrei-me logo do momento em que a Joana nos mostrou aqueles longos fios em que não dá para perceber onde acaba o ramo e onde começa o fruto, dizendo que, por serem tão tenros e finos, não é necessário cozê-los previamente antes de fritar nem retirar os fios. Inspirada pela tempura do Tomo, enchi-me de coragem e enfrentei os meus demónios da fritura. Fiz peixinhos da horta. Na verdade, foi mais tempura que os nossos conhecidos petiscos, porque a massa é feita apenas com cerveja e farinha.
Foi este o nosso jantar, com uma singela posta de bacalhau e um molho de tomate que com um ingrediente especial passa de modesto a magistral, dando gosto e sabor a estes tempos que não perdoam, cujas amarguras por vezes não conseguimos evitar de levar para a mesa.




Tempura de feijão longo e feijão-verde com molho de tomate e bacalhau

Esta tempura é apenas uma das mil variantes existentes, pelo que não é, de todo, a que mais aconselho a fazerem - até porque para isso teria de ter feito mais do que uma maneira para compreender bem as diferenças. Façam como acharem melhor para vocês.
A avaliar pela fotografia, escusado será dizer que ficou longe de perfeita, mas apesar de tudo sentia-se o crocante do polme e do próprio feijão, que não quis cozer completamente e sentia-se aquele sabor típico a frito mas com a leveza da tempura. O mais importante é que mais que os três elementos como um todo funcionam mesmo muito bem e esta é de facto a razão mais importante que me levou a colocar aqui esta receita.
O molho de tomate é incrivelmente versátil, de maneira que não se preocupem se sobrar porque certamente encontrarão outras oportunidades para o utilizar: sobre um torricado, juntar grão para fazer uma sopa com um ovo escalfado ou envolvido com atum desfeito e massa, o hidrato de carbono todo-poderoso que salva qualquer crise de inspiração. Eu passei-o no final para ficar homogéneo e para envolver melhor o bacalhau e o feijão, mas podem sempre deixá-lo inteiro.

 350g de feijão verde, feijão longo ou uma mistura
900ml de óleo (que faça 5cm de profundidade numa frigideira de 3 litros)
1 cháv. de farinha
1 cháv. (240 ml) de cerveja

2 1/2 c.sopa de azeite
1 1/2 c.chá de cominhos
1/2 c.chá de pimentão doce
2 c.chá de canela
1 cebola média, picada
125ml de vinho branco
400g de tomate em lata
1 malagueta sem sementes, finamente picada
1 dente de alho, esmagado
sal e pimenta q.b
salsa, picada

4 postas de bacalhau


Escaldar apenas o feijão verde durante 4-5 minutos, ou totalmente cozidos, conforme preferirem.
Aquecer o óleo na frigideira.
Bater a farinha e a cerveja numa tigela. e mergulhar cerca de 10 feijões de cada vez na massa.
Testar o óleo pingando um pouco da massa na frigideira. Se começar a fritar instantaneamente e a borbulhar é porque está pronto para fritar. Nessa altura, adicionar os 10 feijões de cada vez e fritar cerca de 1,5-2 minutos, até a massa estar bem frita e estaladiça.
Retirar o feijão da frigideira, colocar sobre papel absorvente e polvilhar com sal.

Para fazer o molho, aquecer o azeite numa frigideira larga.
Adicionar as especiarias e a cebola e cozinhar por 8-10 minutos a lume brando, até a cebola ficar completamente mole.
Adicionar o vinho e levantar fervura durante 3 minutos. Juntar os tomates esmagados, a malagueta e o alho. Cozinhar 15 minutos a lume brando até engrossar bastante.
Ajustar o tempero e passar tudo até que fique um molho uniforme mas não totalmente liquido. Reservar tapado. Na altura de servir, polvilhar com salsa.

serve 4


a ouvir: Warsaw - Sharon Van Etten