27.11.12

Quem ama e corre por gosto, cozinha, espera, come uns rolinhos de açúcar e canela com um cheirinho a cardamomo, sempre alcança e não cansa.

Enquanto assistia ao cada vez melhor e sempre fantástico desempenho de um bom amigo, o medo assaltou-me: E se cresce demais? E se coze antes de a poder trabalhar novamente? Sorrateira e nervosamente, debaixo do casaco os meus dedos cegos escrevem "mãe se a massa já viver duplicado visa la do quente sff" na esperança de que a mencionada consiga decifrar a mensagem e aceder ao pedido. Valeu-me este tempo quentinho que foram necessárias, não uma nem duas, mas sim quase cinco horas para que o aquecedor surtisse o efeito desejado.

Cada vez que deixo massa a crescer instala-se um nervoso miudinho que só desaparece depois da primeira dentada, já fora do forno. Mas cada vez que deixo massa a crescer sinto um orgulho especial de quem conseguiu fazer alguma coisa entre uma experiência química e um número de magia.





































Mas algo mais me fez começar estes bolos-que-não-o-chegam-bem-a-ser às cinco e meia da tarde, uma hora depois pôr a massa a crescer em cima de um banquinho em frente ao aquecedor da sala, às sete sair, à meia-noite e meia voltar, formar os bolos e à uma voltar a pô-los a crescer em frente ao aquecedor (bendita Downtown Abbey que me manteve bem acordada) até às duas da manhã, quand decido desligá-lo e deixá-los ali, literalmente a fermentar no calor da sala, e acordar às nove do dia seguinte, congelar metade e levar a outra ao forno enquanto ponho rapida e eficientemente a mesa para um pequeno almoço-especial. É que foi o aniversário deles, do gajo de vinte e seis e da gaja de vinte e cinco anos que à vinte e três decidiram fazer uma coisa, hoje em dia aparentemente tão disparatada e desacreditada (no sentido em que a expressão utilizada é "não acredito no") que é celebrar o amor e a união entre eles e marcar o início de uma nova vida. Muitas novas vidas, aliás, começando pela minha.
E porque qualquer bom acto altruísta parte inevitavelmente de uma vontade egoísta, fi-los porque adoro o pequeno-almoço, porque é daquelas receitas que de quando em vez me assaltam a vista enquanto navego pelos sitios do costume e porque são aqueles bolos que podemos comer dois ou três de uma vez sem nos sentirmos culpados, principalmente o fazemos acabados de sair do forno, celebrando com quem amamos, numa manhã chuvosa de domingo.
Eram doze, sobraram zero.



Só mais duas ou três coisas:


Se gostam carreguem no link e e botem o polegar no ar por favor (como quem diz façam Gosto / Like / J'aime / Gefällt mir / Gilla / Me gusta / Mi piace / 讚 ! Obrigada.

Iogurte de soja natural é das piores coisas que já comi.

Hoje vou ver Black Keys, só para deixar registado.







































Rolinhos de açúcar e canela com um cheirinho a cardamomo
ligeiramente adaptado de 101 Cookbooks

Apesar de a tradição mais fiel de bun ser bolo/bolinho, eu considero estes rolinhos uma espécie de pães doces, da familia dos scones, croissants e dos brioches. Como tal, nem bolo nem pão - um rolinho.
Doces mas de sabor subtil, são super versáteis e fáceis de personalizar, transformando um saboroso pequeno-almoço num lanche ou petisco guloso. Pela net encontra-se 1001 variedades desta receita, desde esta simples com um toque a cardamomo que não minha opinião poderia ser mais evidente, até outros não menos apelativos que já tenho debaixo de olho para o Natal, com uma calda de noz, mel e laranja.

4 c.chá de fermento de padeiro seco
1 cháv. de leite morno
100g de açúcar amarelo
1 ovo grande, batido
125g de manteiga sem sal, ligeiramente derretida
1 c.sopa de cardamomo em pó
1 c.chá de sal fino
600g de farinha

60g de açúcar amarelo
2 c.sopa de canela
65g de manteiga sem sal, amolecida

1 ovo batido com 1 c.sopa de água
açúcar grosso para polvilhar ou glacé de bourbon ou brandy (ou simplesmente um bom wisky, para os portugueses)


Polvilhar o fermento sobre o leite morno numa tigela grande. Adicionar uma pitada do açúcar e mexer para dissolver o fermento. Deixar repousar durante uns minutos até começar a formar espuma. Adicionar o restante açúcar, o ovo, a manteiga derretida e o cardamomo. Misturar até ficar tudo dissolvido e suave. Misturar o sal com a farinha e de seguida adicionar gradualmente à primeira tigela, pouco a pouco, incorporando a farinha totalmente após cada adição.
Transferir a massa para uma superfície enfarinhada e amassar 8-10 minutos, ou o que for suficiente para que  resulte numa massa lisa e elástica (eu por exemplo, amassei cerca de 5 minutos apenas por já ter de certo modo amassado enquanto incorporava a farinha, no fundo segui o meu instinto e resultou bem).
Transferir a massa para uma tigela engordurada. Virar a massa na tigela para ficar engordurada e cobrir com um pano de cozinha.
Deixar a massa crescer num local com sol ou quente até ter duplicado, cerca de 1 hora. Cortar a massa ao meio numa superfície enfarinhada e formar uma bola com cada metade. uma de cada vez, amassar cada bola num rectângulo de 30cm e 12mm de grossura.

Para o recheio, combinar o açúcar e a canela numa tigela pequena.
Pincelar metade da mantiga igualmente sobre um dos rectângulos de massa.
Polvilhar metade da mistura do açúcar sobre a manteiga, enrolar a massa de forma apertada longitudinalmente, e virá-la com a borda para baixo, pressionando ligeiramente.
Cortar o rolo em 12 pedaços iguais, uma faca de serra é o ideal para isso. Os pães podem ir ao forno com o lado cortado virado para cima, num tabuleiro forrado com papel vegetal, em formas de cupcakes, ou numa travessa ou prato de forno engordurada, como uma forma de tartes, que foi o que utilizei.
Colocar os pedaços a cerca de 1,5cm de distância entre eles se forem cozidos no tabuleiro ou no prato, para que possam crescer de forma a que fiquem aconchegados na base onde estão a ser cozidos. Repetir o processo com a massa restante e o recheio. A esta altura, as fatias que não vão ser cozidas podem ser congeladas.
Cobrir os rolos preparados com uma toalha seca e deixá-los crescer novamente num local morno até terem dobrado de volume, cerca de 1h. O tempo de crescimento aqui depende da temperatura do local, pelo que pode variar.

Aquecer o forno a 205ºC com a prateleira no 3º andar mais alto.
Pincelar os rolos com o ovo e água batidos e polvilhar com açúcar, se for desejado.
Cozer os rolos até ficarem bem dourados, cerca de 15-18min. Não cozer demaziado ou irão secar. Retirar do forno e servir quentes se possível, ou ao natural, com uma pincelada de cobertura glacé sobre cada rolo ou mesmo com o glacé servido numa tigela para cobrirem os rolos a gosto.


faz 24 pequenos rolos




a ouvir: Matilda - Alt-J

21.11.12

Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta, disse eu

Passaram aproximadamente 90 semanas de almoços na faculdade e dois anos deste manifesto e nunca esta receita veio aqui parar. Não por falta de oportunidades. Aliás, sempre que a altura se proporcionava a minha linha de pensamento foi na linha do "para quê fazer agora quando o posso fazer mais tarde, noutro dia, numa outra história, noutro contexto? Contextos não faltarão com certeza...!" E não faltaram, efectivamente.

Três anos se passaram e este foi um dos almoços mais repetidos.
Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta - assim mandei escrever no meu epitáfio académico. Saber que depois de três horas por vezes longas de mais tinha algo à minha espera.
Por vezes novo, por vezes velho, mas sempre entusiasmante e acima de tudo, sempre eficaz: complementando um dia bom ou medicando um a precisar de algum incentivo.
A história deste couscous são todas as histórias que lhe pertencem e a que pertenceu. Três anos (and counting!) absolutamente recheados de histórias.
Agora a receita de sempre, ligeiramente melhorada, numa "faculdade" diferente.

























Couscous de cominhos, gengibre e açafrão com vegetais assados e passas

Este simples prato dá largas à imaginação para adicionar, tirar, adaptar, juntar de 1001 maneiras possíveis. Com ou sem coentros, com ou sem frutos secos, um pedaço de limão em conserva bem picadinho, uma colherada de iogurte grego mesmo no fim, um pedaço de frango desfiado, uma maçã aos cubos adicionada aos vegetais no forno e talvez uma pitada de canela. Vão sentindo o que vos apetece e jogando com isso. Go for your heart and eat with your soul. ;)

700g de abóbora, aos pedaços de 1-2cm
2 cebolas médias, picadas
4 cenouras fatiadas com cerca de 0.5cm de espessura
2 courgettes médias, em rodelas de 1cm aproximadamente
2 c.chá de sal grosso
1 c.chá de pimente preta fresca
2 c.sopa de azeite
1 1/2 cháv. de couscous
1 cubo de caldo de vegetais
2 c.chá de cominhos
1 c.chá de gengibre em pó
3 c.chá de curcuma / açafrão-das-índias
60g de passas
1 cháv. de pinhões ou nozes tostadas, grosseiramente picadas (opcional)
1 molho de coentros e cebolinho, picados

Pré-aquecer o forno a 190ºC.
Preparar os vegetais e colocar todos num tabuleiro de forno e temperar com o sal, a pimenta e o azeite.
Levar ao forno cerca de 30 minutos, ou até os vegetais estarem cozinhados e bem assados, o que deverá depender do tamanho dos pedaços, envolvendo uma vez durante esse tempo.
Colocar o couscous e as especiarias numa tigela e ferver 1 1/2 cháv. de água com o cubo de caldo de galinha. Quando ferver, colocar sobre o couscous e tapar bem com uma tampa ou película aderente durante 5-7 minutos. Retirar a tampa e soltar bem com um garfo.
Juntar os couscous aos vegetais, adicionar as passas, as nozes ou pinhões e os coentros e cebolinho picado.
Servir de imediato ou servir frio, adicionando as ervas frescas apenas na altura de comer.

serve 4


a ouvir: The Motherlode // Mahogany Session - The Staves

15.11.12

O contexto das bolachas

12 do 11

Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho. Trabalho a sério, daqueles onde a licenciatura e o currículo efectivamente servem.
Acordei às 6h45, que não gosto de andar à pressa.
Vestia-me pensando, indecisa, se haveria de optar pela manteiga ou o mel na torrada a acompanhar uma chávena de chá de lúcia-lima com leite, casca de limão e um pingo de xarope de agave, acabei por comer metade com cada coisa. Também não me conseguia decidir se havia de apanhar o comboio das 23 ou o das 27. Pús o meu baton rosa e saí.
Nem ouvi música no caminho. Nem estava nervosa. Fechei os olhos e desliguei-me por momentos.
Tudo correu muito bem, como só podia ter corrido. E o meu caminho vai-se fazendo. Levei canja da minha avó para o almoço. Pensei que seria uma coisa estranha para o meu primeiro dia de trabalho, mas nada me saberia melhor que aquele caldo a fumegar de conforto.
Conheci alguem que bebe mais chá que eu.
Fiz uma cábula com a disposição dos lugares lá dentro para não me esquecer dos nomes.
Os meus dedos continuam feios e a doer da queimadela da semana passada mas acabo por conseguir ignorá-los durante o dia. Já as outras dores só lá vão com Trifene, uma cama quente e as bolachas que fiz para o meu lanche. Para prevenir e remediar.
Percebi que quando batem as cinco horas de trabalho os meus ombros começam a desafiar seriamente o meu bem estar.
Saí às 9h30 da noite. A minha mãe foi-me buscar a Lisboa e eu senti-me feliz.
Mais tarde lembrei-me que me esqueci de desligar o rato e o teclado.
Quando cheguei a casa vi as minhas 15 polegadas sobre a mesa e de repente pareceram-me demasiado pequenas.



14 do 11

Apercebo-me agora da importância tremenda da rotina, do tempo cheio. Em três dias, a noção de aproveitar tempo, planear, e tempos livres alterou-se substancialmente.
Não ligava o computador à dois dias. Se não fosse para escrever isto provavelmente não o faria.
Tenho mensagens a responder, pessoas a agradecer, posts aqui por fazer, uma série e um programa para actualizar, um bilhete por concluir, um catálogo por fotografar, o almoço de amanhã por fazer et caetera. Mas quando paro é só isso que me apetece fazer. Ficar parada. De olhos fechados ou abertos para ver a poeira assentar, mas parada.




Bolachas de dois açúcares, aveia e damascos secos

Os açúcares são muito mais que a sua qualidade inerente de doce. Tem sabores próprios, características únicas e insubstituíveis. A diferença entre xarope dourado e mel e mesmo entre os diversos tipos de mel que existem são dos melhores exemplos que posso dar. Estas bolachas também são sem dúvida uma prova disso. 
Fora os biscoitos de azeite portugueses, o biscotti italiano nunca fiz bolachas antes, pelo que não sabia que há bastantes factores que influenciam a sua textura final. Esta receita resultou numas bolachas não tão crocantes como gostaria, mas pelo que percebi, e uma vez que quero manter os açúcares utilizados, retirar o ovo e o bicarbonato pode ser uma boa opção para as deixar mais estaladiças.

1 ovo grande, batido
70g de açúcar integral (rapadura)
140g de açúcar amarelo
120g de manteiga sem sal, à temperatura ambiente
100g de damascos secos
150g farinha de centeio
1/2 c.chá bicarbonato de sódio
1/2 c.chá sal
140g flocos de aveia
2 c.sopa leite

Pré-aqueçer o forno a 180ºC. Forrar dois ou três tabuleiros largos com papel vegetal.
Bater os açúcares com a manteiga amolecida.
Adicionar o ovo e o leite e bater até obter uma massa homogénea.
Peneirar a farinha com o sal e o bicarbonato de sódio. Adicionar à mistura do açúcar e manteiga e bater até os ingredientes estarem combinados.
Acrescentar a aveia e os alperces e envolver até ficar tudo bem misturado.
Com uma colher de sopa, colocar pequenas porções nos tabuleiros intervaladas com cerca de 2,5cm para não colarem. Levar ao forno por 15-20 minutos ou até terem escurecido bastante. Não deixem mais que os 20 minutos porque as bolachas acabam de endurecer cá fora, um pouco à semelhança do cacau.
Transferir para uma grelha de metal para arrefecerem.


faz cerca de 36-40 bolachas, dependendo do tamanho




a ouvir: Kettering - The Antlers


10.11.12

Mimos do Poial - o poblano negro




































Já no fim de um longo encontro repleto de novidades - novas pessoas, novos caminhos, novos sabores e imensas descobertas, de mimos na mão e prestes a ir embora, infiltro-me na conversa entre alguém falar com Lorena, mexicana de yema - e com uma outra pequena a germinar na barriga - sobre o que fazer com todos aqueles poblanos, jalapeños, malaguetas, e et caeteras de pimentos oferecidos, nomeadamente aquele negro, de formato semelhante ao pimento doce italiano mas mais pequeno e de ar um tanto intimidante.

Ao contrário de alguns improvisos em que não me consigo libertar das combinações de sabores estandardizadas pelas culturas gastronómicas e pela sabedoria popular, as palavras poblano e pêssego suscitaram em mim meia-dúzia de sabores que eu soube que iriam funcionar.

Informação retida e processada a invulgar inspiração, da sugestão inicial muito pouco ficou. Os pêssegos transformaram-se em alperces secos, a carne substituí somente por couscous e pinhões tostados e todas as especiarias, ervas e pequenos acrescentos surgiram da intuição. A confecção foi ao sabor do vento e, ainda que um pouco atabalhoada, acabou por correr tudo muito bem.



No final, faltou eventualmente uma simples salada fresca a acompanhar para amenizar a quantidade insensata de malagueta que utilizei. A minha falta de tacto e experiência em certas circunstância levam-me a cometer alguns erros como o mencionado anterior e a ligeira secura que ficou à superfície do couscous. Apesar disso, a textura ligeiramente crocante do couscous não é de menosprezar, porque acaba por contrastar com o interior mais húmido do pimento. Fica um pouco à semelhança do gratinado do arroz de pato. De resto, modéstia à parte, posso dizer seguramente que foi das melhores coisas que já comi.




































Pimento recheado com couscous, alperces secos e pinhões
Se não estiverem numa de usar o forno cortem o pimento às tiras e coloquem na frigideira a saltear ao mesmo tempo da chalota e dos alperces. Se estiverem numa de juntar carne, by all means. Se forem quiserem juntem queijo. The sky (ou o que tiverem na despensa) is the limit!

1 pimento jalapeño (um pimento doce regular serve perfeitamente, embora não seja picante), dividido em dois longitudinalmente, sem sementes
2 c.chá de azeite
cerca de 1/2 c.café de canela
1 c.café de cominhos
1 c.café de pimenta da jamaica
1/4 malagueta, finamente picada e sem sementes
20g de alperces secos, picados grosseiramente
3g de pinhões, ou mais ao vosso gosto
1 chalota, às rodelas finas
45g de couscous + a mesma quantidade em volume de água, ou a mesma quantidade de arroz + o dobro do volume em água
1 c.chá cheia de hortelã picada
2 c.chá de alecrim, picado
sal q.b
1/8 de limão em conserva, fatiado finamente
1/2 queijo fresco ou parmesão fresco ralado a gosto, opcional

Pré-aquecer o forno a 200ºC. Colocar as metades do pimento numa travessa de forno e reservar.
Aquecer o azeite na frigideira com as especiarias e a malagueta até começarem a libertar aroma, cerca de dois minutos a lume baixo.
Aumentar ligeiramente o lume e juntar os alperces, os pinhões e a chalota e saltear até os pinhões ganharem um tom dourado, cerca de 5 minutos.
Adicionar o couscous, as ervas e o limão em conserva, mexendo constantemente até o couscous começar a ganhar cor e o limão a caramelizar ligeiramente.
Adicionar a água, tapar e deixar o coscous cozer completamente a lume baixo, adicionando mais água se começar a secar muito cedo. Provar e rectificar com sal se for necessário.
Retirar a mistura do lume e rechear os pimentos completamente, apertando bem para que caiba tudo lá dentro - não há problema se transbordar um pouco. Nesta altura se quiserem coloquem meio queijo fresco fatiado por cima do couscous para que derreta no forno ou polvilhem com parmesão ralado.
Levar ao forno durante 30 minutos ou até o pimento estar bem tenro e começar a chamuscar e o couscous ganhar um tom dourado e tostado.
Servir quente, acompanhado com uma salada fresca simples com um vinagrete de limão e mostarda.


serve 1





















a ouvir: Number 1 - Goldfrapp


31.10.12

O meu manifesto e o de uma beterraba: num bolo e numa salada

Uma amiga deu-me uma beterraba, uma grande beterraba. "Essa grande é para a Catarina", disseram-me que disse. Tão grande era a responsabilidade que ali ficou à minha espera, pacientemente, no frigorífico, mais tempo do que devia, confesso. Mas foi resistente e valeu a pena a espera. Obrigada Lina.

Passei no código. Venci as rasteiras semânticas dos pode, deve e tem de e agora é só não atropelar ninguém, não passar em vermelhos nem tirar o pé demasiado cedo na embraiagem. Easy peasy.
A condução, a edição da minha zine, um concerto absolutamente espectacular, as conversas com pessoas inspiradoras na faculdade (ex faculdade!), o livro que leio e a demanda pelo meu primeiro spot profissional - com a minha experiência de vida no punho erguido! - geram picos de entusiasmo, nervosismo, um certo donaire pouco modesto (apareceu-me como sinónimo de garbo e pareceu-me mais... garbosa) e uma ligeira impaciência que, por sua vez, geram em mim um desejo brutal de algo com chocolate, porque como já disse outras vezes, as indulgências para mim são os desejos mais exigentes. Tanto que nunca preciso de decidir o que quero, simplesmente sei-o.



O último bolo que fiz antes deste foi também do mesmo autor. O que é que posso dizer? É a minha alma gémea da gula - gastronómica, porque a minha gula exige arte! Por isso é que, entre tantos bolos de chocolate e beterraba que existem, escolhi o dele. É um dos três autores que faço os possíveis para seguir os ingredientes à risca. Porque sei que vale a pena e é para mim uma garantia. Não sei se é melhor ou pior que os outros e a sua apreciação não é unânime, sendo que para alguns o sabor da beterraba é, e passo a citar "demasiado acre". Só sei que me chegou bem... duas grandes vezes.

O bolo é tal como Nigel o descreve: extremely moist. Mais que um chiffon. Da primeira vez que o comi, ainda à temperatura natural, era húmido e até mesmo meio cremoso, como se estivesse ligeiramente mal cozido no centro. E quando pensava que não poderia ficar ainda melhor, a segunda fatia, retirada do frigorífico, endureceu e adquiriu uma textura absolutamente maravilhosa e indulgente, quase como o recheio de uma tarte, e atingiu o auge do seu sabor. Não ficou de todo igual ao da foto na receita, talvez esse tenha sido feito com beterraba dourada, não sei. Mas sei que ficou bom. E não se assustem se no dia seguinte a cobertura do creme fraîche ficar cor de rosa. A receita completa aqui.



Dos três quartos de beterraba que sobraram, um quarto foi para esta salada, a never ending salad.
Tem tudo, como eu gosto. Doce, salgado, amargo e ácido. É fantástico como um sabor suporta o outro, sem o anular: o aroma anisado do funcho e o sabor salgado do feta fundem-se num só sabor, a subtileza da beterraba cozida e a doçura crocante da pêra realçam-se mutuamente, e o toque amargo da mizuna  com o sabor único da quinoa, envoltos no simples vinagrete de mostarda envolvem tudo numa só sinfonia. A salsa foi a erva escolhida, só para perfumar. É como um concerto: temos pianos, contrabaixos, clarinetes, violinos, trombones, saxofones (a minha literacia nesta area não é grande, lamento) e o maestro. Se calhar não é A melhor receita para aplicar a analogia, mas também serve. E que cores!




































Salada morna de quinoa com beterraba, pêra, feta, funcho e rabanete

1 chalota, cortada em rodelas finas
2 c.chá de vinagre de vinho tinto
1 c.chá de mostarda
2 c.sopa de azeite extra virgem
sal e pimenta preta acabada de moer

1 pequena beterraba vermelha (cerca de 250g), cozida e cortada aos cubos
1 pequena beterraba branca (cerca de 250g), crua, laminada às rodelas
4 rabanetes, fatiados finamente
1 pêra, cortada aos cubos
100g de feta, cortado aos cubos
1 cháv. de quinoa, escoada em água fria corrente, cozida e ainda quente
1/2 funcho, laminado
2 punhados de mizuna ou agrião
1 c.sopa de salsa, picada

Para fazer o molho: colocar a chalota numa pequena tigela ou um frasco pequeno e cobrir com o vinagre, pressionando as rodelas para garantir que o vinagre as cobre completamente. Deixar por alguns minutos, depois acrescentar a mostarda e misturar. Bater bem. Cobrir com o azeite, temperar com uma pitada de sal e pimenta (se a mostarda for Dijon provavelmente não precisam de muita) e de seguida bater novamente, ou fechar o frasco e agitar energicamente para que o molho fique emulsionado.
Para fazer a salada, pouco mais é preciso fazer que cortar os ingredientes, empilhá-los num grande prato como preferirem, temperar com o molho e voilà, munch away.

serve 2


a ouvir: Towers - Bon Iver

30.10.12

(Descobri) os diospiros

Não fosse eu curiosa e de mente aberta, pronta a quebrar preconceitos de infância e não teria descoberto a beleza por detrás daquele fruto que cobria o chão de uma camada peganhenta e inundava o ar com um odor a podre num certo recanto do jardim do meu colégio e que tanta repugnância me causou durante cinco anos.

Comido simples é talvez demasiado enjoativo, mas acompanhado é um mimo. Nunca vi um fruto que fosse compota ao mesmo tempo.



viscoso mas gostoso.


com iogurte para levar.


com papas de aveia ao pequeno-almoço.

23.10.12

Mimos do Poial - o feijão

O cabaz que recebi da terra do Poial é uma pequena grande aglomeração de potencial. Fiz um inventário na hora, claro. As ervas foram para um muito improvisada, muito feia e muito saborosa salada morna de batata doce, um dos minis pimentos e requeijão.

Um raminho de: alecrim, funcho, tomilho, manjerona e cebolinho, tudo bem picadinho e envolvido no requeijão. Depois o calor que emana da batata doce grelhada e o azeite fazem o resto, intensificando e misturando os sabores numa só garfada.





O topinambo, que não era mais que uma amostra, valeu-me para uma sopa pseudo-tailandesa de udon noodles, juntamente com uns pimentos.



Com as malaguetas tem sido mais complicado decidir o que delas fazer. Por muito atractiva que seja a ideia de fazer um chutney que encontrei no Culinário de 2008 ou um dos molhos de algum dos meus autores de referência, a verdade é que picante lá em casa, só com bastante moderação, ou pelo menos nada que se compare ao valente palato dos mexicanos ou dos tailandeses. Com elas fiz este molho até agora. É super versátil, tendo já servido uma colherada generosa sobre um peito de frango, refogado num arroz de pimento e dando um twist refrescante a uma posta de pescada cozida.


Depois há (havia!) o feijão longo e aquele poblano negro, de destino marcado desde que lhes pus os olhos em cima.

Por hoje fiquemo-nos pelo feijão. Lembrei-me logo do momento em que a Joana nos mostrou aqueles longos fios em que não dá para perceber onde acaba o ramo e onde começa o fruto, dizendo que, por serem tão tenros e finos, não é necessário cozê-los previamente antes de fritar nem retirar os fios. Inspirada pela tempura do Tomo, enchi-me de coragem e enfrentei os meus demónios da fritura. Fiz peixinhos da horta. Na verdade, foi mais tempura que os nossos conhecidos petiscos, porque a massa é feita apenas com cerveja e farinha.
Foi este o nosso jantar, com uma singela posta de bacalhau e um molho de tomate que com um ingrediente especial passa de modesto a magistral, dando gosto e sabor a estes tempos que não perdoam, cujas amarguras por vezes não conseguimos evitar de levar para a mesa.




Tempura de feijão longo e feijão-verde com molho de tomate e bacalhau

Esta tempura é apenas uma das mil variantes existentes, pelo que não é, de todo, a que mais aconselho a fazerem - até porque para isso teria de ter feito mais do que uma maneira para compreender bem as diferenças. Façam como acharem melhor para vocês.
A avaliar pela fotografia, escusado será dizer que ficou longe de perfeita, mas apesar de tudo sentia-se o crocante do polme e do próprio feijão, que não quis cozer completamente e sentia-se aquele sabor típico a frito mas com a leveza da tempura. O mais importante é que mais que os três elementos como um todo funcionam mesmo muito bem e esta é de facto a razão mais importante que me levou a colocar aqui esta receita.
O molho de tomate é incrivelmente versátil, de maneira que não se preocupem se sobrar porque certamente encontrarão outras oportunidades para o utilizar: sobre um torricado, juntar grão para fazer uma sopa com um ovo escalfado ou envolvido com atum desfeito e massa, o hidrato de carbono todo-poderoso que salva qualquer crise de inspiração. Eu passei-o no final para ficar homogéneo e para envolver melhor o bacalhau e o feijão, mas podem sempre deixá-lo inteiro.

 350g de feijão verde, feijão longo ou uma mistura
900ml de óleo (que faça 5cm de profundidade numa frigideira de 3 litros)
1 cháv. de farinha
1 cháv. (240 ml) de cerveja

2 1/2 c.sopa de azeite
1 1/2 c.chá de cominhos
1/2 c.chá de pimentão doce
2 c.chá de canela
1 cebola média, picada
125ml de vinho branco
400g de tomate em lata
1 malagueta sem sementes, finamente picada
1 dente de alho, esmagado
sal e pimenta q.b
salsa, picada

4 postas de bacalhau


Escaldar apenas o feijão verde durante 4-5 minutos, ou totalmente cozidos, conforme preferirem.
Aquecer o óleo na frigideira.
Bater a farinha e a cerveja numa tigela. e mergulhar cerca de 10 feijões de cada vez na massa.
Testar o óleo pingando um pouco da massa na frigideira. Se começar a fritar instantaneamente e a borbulhar é porque está pronto para fritar. Nessa altura, adicionar os 10 feijões de cada vez e fritar cerca de 1,5-2 minutos, até a massa estar bem frita e estaladiça.
Retirar o feijão da frigideira, colocar sobre papel absorvente e polvilhar com sal.

Para fazer o molho, aquecer o azeite numa frigideira larga.
Adicionar as especiarias e a cebola e cozinhar por 8-10 minutos a lume brando, até a cebola ficar completamente mole.
Adicionar o vinho e levantar fervura durante 3 minutos. Juntar os tomates esmagados, a malagueta e o alho. Cozinhar 15 minutos a lume brando até engrossar bastante.
Ajustar o tempero e passar tudo até que fique um molho uniforme mas não totalmente liquido. Reservar tapado. Na altura de servir, polvilhar com salsa.

serve 4


a ouvir: Warsaw - Sharon Van Etten

19.10.12

Memória. E um (escrito de memória).

escudos, 2008


1. Um pequeno depósito de incredulidade no fundo dos teus olhos
2. Um breve estremecimento no movimento do coração (do meu coração)
3. A impressão de alguém olhando-te atrás de ti.
4. Uma voz familiar num sítio cheio de gente (que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as sílabas de certas palavras que fica depois a pairar perto dos lábios
6. A ignorância de alguma coisa que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando, uma palavra que basta dizer ou não dizer, abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer, dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.


Manuel António Pina





17.10.12

They keep on coming





Dão-me os bons dias e um sorriso todas as manhãs, ao acordar.


Acabei de passar os olhos pelo texto anterior e tenho de pedir desculpa as gafes e erros enormes que dei (mais que o habitual). Apesar de ser transcrito do papel, foi um trabalho de corte e costura extenso e confesso que, depois de colocar a última fotografia, não tive paciência nenhuma para o reler. My bad. Por outro lado foi confortante relê-lo acompanhado das imagens, como uma história ilustrada.


a ouvir: Kreuzberg - Bloc Party