Agualva. Hoje. 7h15 da manhã.
23.11.12
21.11.12
Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta, disse eu
Passaram aproximadamente 90 semanas de almoços na faculdade e dois anos deste manifesto e nunca esta receita veio aqui parar. Não por falta de oportunidades. Aliás, sempre que a altura se proporcionava a minha linha de pensamento foi na linha do "para quê fazer agora quando o posso fazer mais tarde, noutro dia, numa outra história, noutro contexto? Contextos não faltarão com certeza...!" E não faltaram, efectivamente.
Três anos se passaram e este foi um dos almoços mais repetidos.
Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta - assim mandei escrever no meu epitáfio académico. Saber que depois de três horas por vezes longas de mais tinha algo à minha espera.
Por vezes novo, por vezes velho, mas sempre entusiasmante e acima de tudo, sempre eficaz: complementando um dia bom ou medicando um a precisar de algum incentivo.
A história deste couscous são todas as histórias que lhe pertencem e a que pertenceu. Três anos (and counting!) absolutamente recheados de histórias.
Agora a receita de sempre, ligeiramente melhorada, numa "faculdade" diferente.
Couscous de cominhos, gengibre e açafrão com vegetais assados e passas
Este simples prato dá largas à imaginação para adicionar, tirar, adaptar, juntar de 1001 maneiras possíveis. Com ou sem coentros, com ou sem frutos secos, um pedaço de limão em conserva bem picadinho, uma colherada de iogurte grego mesmo no fim, um pedaço de frango desfiado, uma maçã aos cubos adicionada aos vegetais no forno e talvez uma pitada de canela. Vão sentindo o que vos apetece e jogando com isso. Go for your heart and eat with your soul. ;)
700g de abóbora, aos pedaços de 1-2cm
2 cebolas médias, picadas
4 cenouras fatiadas com cerca de 0.5cm de espessura
2 courgettes médias, em rodelas de 1cm aproximadamente
2 c.chá de sal grosso
1 c.chá de pimente preta fresca
2 c.sopa de azeite
1 1/2 cháv. de couscous
1 cubo de caldo de vegetais
2 c.chá de cominhos
1 c.chá de gengibre em pó
3 c.chá de curcuma / açafrão-das-índias
60g de passas
1 cháv. de pinhões ou nozes tostadas, grosseiramente picadas (opcional)
1 molho de coentros e cebolinho, picados
Pré-aquecer o forno a 190ºC.
Preparar os vegetais e colocar todos num tabuleiro de forno e temperar com o sal, a pimenta e o azeite.
Levar ao forno cerca de 30 minutos, ou até os vegetais estarem cozinhados e bem assados, o que deverá depender do tamanho dos pedaços, envolvendo uma vez durante esse tempo.
Colocar o couscous e as especiarias numa tigela e ferver 1 1/2 cháv. de água com o cubo de caldo de galinha. Quando ferver, colocar sobre o couscous e tapar bem com uma tampa ou película aderente durante 5-7 minutos. Retirar a tampa e soltar bem com um garfo.
Juntar os couscous aos vegetais, adicionar as passas, as nozes ou pinhões e os coentros e cebolinho picado.
Servir de imediato ou servir frio, adicionando as ervas frescas apenas na altura de comer.
serve 4
a ouvir: The Motherlode // Mahogany Session - The Staves
Três anos se passaram e este foi um dos almoços mais repetidos.
Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta - assim mandei escrever no meu epitáfio académico. Saber que depois de três horas por vezes longas de mais tinha algo à minha espera.
Por vezes novo, por vezes velho, mas sempre entusiasmante e acima de tudo, sempre eficaz: complementando um dia bom ou medicando um a precisar de algum incentivo.
A história deste couscous são todas as histórias que lhe pertencem e a que pertenceu. Três anos (and counting!) absolutamente recheados de histórias.
Agora a receita de sempre, ligeiramente melhorada, numa "faculdade" diferente.
Couscous de cominhos, gengibre e açafrão com vegetais assados e passas
Este simples prato dá largas à imaginação para adicionar, tirar, adaptar, juntar de 1001 maneiras possíveis. Com ou sem coentros, com ou sem frutos secos, um pedaço de limão em conserva bem picadinho, uma colherada de iogurte grego mesmo no fim, um pedaço de frango desfiado, uma maçã aos cubos adicionada aos vegetais no forno e talvez uma pitada de canela. Vão sentindo o que vos apetece e jogando com isso. Go for your heart and eat with your soul. ;)
700g de abóbora, aos pedaços de 1-2cm
2 cebolas médias, picadas
4 cenouras fatiadas com cerca de 0.5cm de espessura
2 courgettes médias, em rodelas de 1cm aproximadamente
2 c.chá de sal grosso
1 c.chá de pimente preta fresca
2 c.sopa de azeite
1 1/2 cháv. de couscous
1 cubo de caldo de vegetais
2 c.chá de cominhos
1 c.chá de gengibre em pó
3 c.chá de curcuma / açafrão-das-índias
60g de passas
1 cháv. de pinhões ou nozes tostadas, grosseiramente picadas (opcional)
1 molho de coentros e cebolinho, picados
Pré-aquecer o forno a 190ºC.
Preparar os vegetais e colocar todos num tabuleiro de forno e temperar com o sal, a pimenta e o azeite.
Levar ao forno cerca de 30 minutos, ou até os vegetais estarem cozinhados e bem assados, o que deverá depender do tamanho dos pedaços, envolvendo uma vez durante esse tempo.
Colocar o couscous e as especiarias numa tigela e ferver 1 1/2 cháv. de água com o cubo de caldo de galinha. Quando ferver, colocar sobre o couscous e tapar bem com uma tampa ou película aderente durante 5-7 minutos. Retirar a tampa e soltar bem com um garfo.
Juntar os couscous aos vegetais, adicionar as passas, as nozes ou pinhões e os coentros e cebolinho picado.
Servir de imediato ou servir frio, adicionando as ervas frescas apenas na altura de comer.
serve 4
a ouvir: The Motherlode // Mahogany Session - The Staves
15.11.12
O contexto das bolachas
12 do 11Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho. Trabalho a sério, daqueles onde a licenciatura e o currículo efectivamente servem.
Acordei às 6h45, que não gosto de andar à pressa.
Vestia-me pensando, indecisa, se haveria de optar pela manteiga ou o mel na torrada a acompanhar uma chávena de chá de lúcia-lima com leite, casca de limão e um pingo de xarope de agave, acabei por comer metade com cada coisa. Também não me conseguia decidir se havia de apanhar o comboio das 23 ou o das 27. Pús o meu baton rosa e saí.
Nem ouvi música no caminho. Nem estava nervosa. Fechei os olhos e desliguei-me por momentos.
Tudo correu muito bem, como só podia ter corrido. E o meu caminho vai-se fazendo. Levei canja da minha avó para o almoço. Pensei que seria uma coisa estranha para o meu primeiro dia de trabalho, mas nada me saberia melhor que aquele caldo a fumegar de conforto.
Conheci alguem que bebe mais chá que eu.
Fiz uma cábula com a disposição dos lugares lá dentro para não me esquecer dos nomes.
Os meus dedos continuam feios e a doer da queimadela da semana passada mas acabo por conseguir ignorá-los durante o dia. Já as outras dores só lá vão com Trifene, uma cama quente e as bolachas que fiz para o meu lanche. Para prevenir e remediar.
Percebi que quando batem as cinco horas de trabalho os meus ombros começam a desafiar seriamente o meu bem estar.
Saí às 9h30 da noite. A minha mãe foi-me buscar a Lisboa e eu senti-me feliz.
Mais tarde lembrei-me que me esqueci de desligar o rato e o teclado.
Quando cheguei a casa vi as minhas 15 polegadas sobre a mesa e de repente pareceram-me demasiado pequenas.
14 do 11
Apercebo-me agora da importância tremenda da rotina, do tempo cheio. Em três dias, a noção de aproveitar tempo, planear, e tempos livres alterou-se substancialmente.
Não ligava o computador à dois dias. Se não fosse para escrever isto provavelmente não o faria.
Tenho mensagens a responder, pessoas a agradecer, posts aqui por fazer, uma série e um programa para actualizar, um bilhete por concluir, um catálogo por fotografar, o almoço de amanhã por fazer et caetera. Mas quando paro é só isso que me apetece fazer. Ficar parada. De olhos fechados ou abertos para ver a poeira assentar, mas parada.

Bolachas de dois açúcares, aveia e damascos secos
Os açúcares são muito mais que a sua qualidade inerente de doce. Tem sabores próprios, características únicas e insubstituíveis. A diferença entre xarope dourado e mel e mesmo entre os diversos tipos de mel que existem são dos melhores exemplos que posso dar. Estas bolachas também são sem dúvida uma prova disso.
Fora os biscoitos de azeite portugueses, o biscotti italiano nunca fiz bolachas antes, pelo que não sabia que há bastantes factores que influenciam a sua textura final. Esta receita resultou numas bolachas não tão crocantes como gostaria, mas pelo que percebi, e uma vez que quero manter os açúcares utilizados, retirar o ovo e o bicarbonato pode ser uma boa opção para as deixar mais estaladiças.
1 ovo grande, batido
70g de açúcar integral (rapadura)
140g de açúcar amarelo
120g de manteiga sem sal, à temperatura ambiente
100g de damascos secos
150g farinha de centeio
1/2 c.chá bicarbonato de sódio
1/2 c.chá sal
140g flocos de aveia
2 c.sopa leite
Pré-aqueçer o forno a 180ºC. Forrar dois ou três tabuleiros largos com papel vegetal.
Bater os açúcares com a manteiga amolecida.
Adicionar o ovo e o leite e bater até obter uma massa homogénea.
Peneirar a farinha com o sal e o bicarbonato de sódio. Adicionar à mistura do açúcar e manteiga e bater até os ingredientes estarem combinados.
Acrescentar a aveia e os alperces e envolver até ficar tudo bem misturado.
Com uma colher de sopa, colocar pequenas porções nos tabuleiros intervaladas com cerca de 2,5cm para não colarem. Levar ao forno por 15-20 minutos ou até terem escurecido bastante. Não deixem mais que os 20 minutos porque as bolachas acabam de endurecer cá fora, um pouco à semelhança do cacau.
Transferir para uma grelha de metal para arrefecerem.
faz cerca de 36-40 bolachas, dependendo do tamanho
a ouvir: Kettering - The Antlers
10.11.12
Mimos do Poial - o poblano negro

Já no fim de um longo encontro repleto de novidades - novas pessoas, novos caminhos, novos sabores e imensas descobertas, de mimos na mão e prestes a ir embora, infiltro-me na conversa entre alguém falar com Lorena, mexicana de yema - e com uma outra pequena a germinar na barriga - sobre o que fazer com todos aqueles poblanos, jalapeños, malaguetas, e et caeteras de pimentos oferecidos, nomeadamente aquele negro, de formato semelhante ao pimento doce italiano mas mais pequeno e de ar um tanto intimidante.
Ao contrário de alguns improvisos em que não me consigo libertar das combinações de sabores estandardizadas pelas culturas gastronómicas e pela sabedoria popular, as palavras poblano e pêssego suscitaram em mim meia-dúzia de sabores que eu soube que iriam funcionar.
Informação retida e processada a invulgar inspiração, da sugestão inicial muito pouco ficou. Os pêssegos transformaram-se em alperces secos, a carne substituí somente por couscous e pinhões tostados e todas as especiarias, ervas e pequenos acrescentos surgiram da intuição. A confecção foi ao sabor do vento e, ainda que um pouco atabalhoada, acabou por correr tudo muito bem.
No final, faltou eventualmente uma simples salada fresca a acompanhar para amenizar a quantidade insensata de malagueta que utilizei. A minha falta de tacto e experiência em certas circunstância levam-me a cometer alguns erros como o mencionado anterior e a ligeira secura que ficou à superfície do couscous. Apesar disso, a textura ligeiramente crocante do couscous não é de menosprezar, porque acaba por contrastar com o interior mais húmido do pimento. Fica um pouco à semelhança do gratinado do arroz de pato. De resto, modéstia à parte, posso dizer seguramente que foi das melhores coisas que já comi.
Pimento recheado com couscous, alperces secos e pinhões
Se não estiverem numa de usar o forno cortem o pimento às tiras e coloquem na frigideira a saltear ao mesmo tempo da chalota e dos alperces. Se estiverem numa de juntar carne, by all means. Se forem quiserem juntem queijo. The sky (ou o que tiverem na despensa) is the limit!
1 pimento jalapeño (um pimento doce regular serve perfeitamente, embora não seja picante), dividido em dois longitudinalmente, sem sementes
2 c.chá de azeite
cerca de 1/2 c.café de canela
1 c.café de cominhos
1 c.café de pimenta da jamaica
1/4 malagueta, finamente picada e sem sementes
20g de alperces secos, picados grosseiramente
3g de pinhões, ou mais ao vosso gosto
1 chalota, às rodelas finas
45g de couscous + a mesma quantidade em volume de água, ou a mesma quantidade de arroz + o dobro do volume em água
1 c.chá cheia de hortelã picada
2 c.chá de alecrim, picado
sal q.b
1/8 de limão em conserva, fatiado finamente
1/2 queijo fresco ou parmesão fresco ralado a gosto, opcional
Pré-aquecer o forno a 200ºC. Colocar as metades do pimento numa travessa de forno e reservar.
Aquecer o azeite na frigideira com as especiarias e a malagueta até começarem a libertar aroma, cerca de dois minutos a lume baixo.
Aumentar ligeiramente o lume e juntar os alperces, os pinhões e a chalota e saltear até os pinhões ganharem um tom dourado, cerca de 5 minutos.
Adicionar o couscous, as ervas e o limão em conserva, mexendo constantemente até o couscous começar a ganhar cor e o limão a caramelizar ligeiramente.
Adicionar a água, tapar e deixar o coscous cozer completamente a lume baixo, adicionando mais água se começar a secar muito cedo. Provar e rectificar com sal se for necessário.
Retirar a mistura do lume e rechear os pimentos completamente, apertando bem para que caiba tudo lá dentro - não há problema se transbordar um pouco. Nesta altura se quiserem coloquem meio queijo fresco fatiado por cima do couscous para que derreta no forno ou polvilhem com parmesão ralado.
Levar ao forno durante 30 minutos ou até o pimento estar bem tenro e começar a chamuscar e o couscous ganhar um tom dourado e tostado.
Servir quente, acompanhado com uma salada fresca simples com um vinagrete de limão e mostarda.
serve 1
a ouvir: Number 1 - Goldfrapp
31.10.12
O meu manifesto e o de uma beterraba: num bolo e numa salada
Uma amiga deu-me uma beterraba, uma grande beterraba. "Essa grande é para a Catarina", disseram-me que disse. Tão grande era a responsabilidade que ali ficou à minha espera, pacientemente, no frigorífico, mais tempo do que devia, confesso. Mas foi resistente e valeu a pena a espera. Obrigada Lina.
Passei no código. Venci as rasteiras semânticas dos pode, deve e tem de e agora é só não atropelar ninguém, não passar em vermelhos nem tirar o pé demasiado cedo na embraiagem. Easy peasy.
A condução, a edição da minha zine, um concerto absolutamente espectacular, as conversas com pessoas inspiradoras na faculdade (ex faculdade!), o livro que leio e a demanda pelo meu primeiro spot profissional - com a minha experiência de vida no punho erguido! - geram picos de entusiasmo, nervosismo, um certo donaire pouco modesto (apareceu-me como sinónimo de garbo e pareceu-me mais... garbosa) e uma ligeira impaciência que, por sua vez, geram em mim um desejo brutal de algo com chocolate, porque como já disse outras vezes, as indulgências para mim são os desejos mais exigentes. Tanto que nunca preciso de decidir o que quero, simplesmente sei-o.
O último bolo que fiz antes deste foi também do mesmo autor. O que é que posso dizer? É a minha alma gémea da gula - gastronómica, porque a minha gula exige arte! Por isso é que, entre tantos bolos de chocolate e beterraba que existem, escolhi o dele. É um dos três autores que faço os possíveis para seguir os ingredientes à risca. Porque sei que vale a pena e é para mim uma garantia. Não sei se é melhor ou pior que os outros e a sua apreciação não é unânime, sendo que para alguns o sabor da beterraba é, e passo a citar "demasiado acre". Só sei que me chegou bem... duas grandes vezes.
O bolo é tal como Nigel o descreve: extremely moist. Mais que um chiffon. Da primeira vez que o comi, ainda à temperatura natural, era húmido e até mesmo meio cremoso, como se estivesse ligeiramente mal cozido no centro. E quando pensava que não poderia ficar ainda melhor, a segunda fatia, retirada do frigorífico, endureceu e adquiriu uma textura absolutamente maravilhosa e indulgente, quase como o recheio de uma tarte, e atingiu o auge do seu sabor. Não ficou de todo igual ao da foto na receita, talvez esse tenha sido feito com beterraba dourada, não sei. Mas sei que ficou bom. E não se assustem se no dia seguinte a cobertura do creme fraîche ficar cor de rosa. A receita completa aqui.
Dos três quartos de beterraba que sobraram, um quarto foi para esta salada, a never ending salad.
Tem tudo, como eu gosto. Doce, salgado, amargo e ácido. É fantástico como um sabor suporta o outro, sem o anular: o aroma anisado do funcho e o sabor salgado do feta fundem-se num só sabor, a subtileza da beterraba cozida e a doçura crocante da pêra realçam-se mutuamente, e o toque amargo da mizuna com o sabor único da quinoa, envoltos no simples vinagrete de mostarda envolvem tudo numa só sinfonia. A salsa foi a erva escolhida, só para perfumar. É como um concerto: temos pianos, contrabaixos, clarinetes, violinos, trombones, saxofones (a minha literacia nesta area não é grande, lamento) e o maestro. Se calhar não é A melhor receita para aplicar a analogia, mas também serve. E que cores!
Salada morna de quinoa com beterraba, pêra, feta, funcho e rabanete
1 chalota, cortada em rodelas finas
2 c.chá de vinagre de vinho tinto
1 c.chá de mostarda
2 c.sopa de azeite extra virgem
sal e pimenta preta acabada de moer
1 pequena beterraba vermelha (cerca de 250g), cozida e cortada aos cubos
1 pequena beterraba branca (cerca de 250g), crua, laminada às rodelas
4 rabanetes, fatiados finamente
1 pêra, cortada aos cubos
100g de feta, cortado aos cubos
1 cháv. de quinoa, escoada em água fria corrente, cozida e ainda quente
1/2 funcho, laminado
2 punhados de mizuna ou agrião
1 c.sopa de salsa, picada
Para fazer o molho: colocar a chalota numa pequena tigela ou um frasco pequeno e cobrir com o vinagre, pressionando as rodelas para garantir que o vinagre as cobre completamente. Deixar por alguns minutos, depois acrescentar a mostarda e misturar. Bater bem. Cobrir com o azeite, temperar com uma pitada de sal e pimenta (se a mostarda for Dijon provavelmente não precisam de muita) e de seguida bater novamente, ou fechar o frasco e agitar energicamente para que o molho fique emulsionado.
Para fazer a salada, pouco mais é preciso fazer que cortar os ingredientes, empilhá-los num grande prato como preferirem, temperar com o molho e voilà, munch away.
serve 2
a ouvir: Towers - Bon Iver
Passei no código. Venci as rasteiras semânticas dos pode, deve e tem de e agora é só não atropelar ninguém, não passar em vermelhos nem tirar o pé demasiado cedo na embraiagem. Easy peasy.
A condução, a edição da minha zine, um concerto absolutamente espectacular, as conversas com pessoas inspiradoras na faculdade (ex faculdade!), o livro que leio e a demanda pelo meu primeiro spot profissional - com a minha experiência de vida no punho erguido! - geram picos de entusiasmo, nervosismo, um certo donaire pouco modesto (apareceu-me como sinónimo de garbo e pareceu-me mais... garbosa) e uma ligeira impaciência que, por sua vez, geram em mim um desejo brutal de algo com chocolate, porque como já disse outras vezes, as indulgências para mim são os desejos mais exigentes. Tanto que nunca preciso de decidir o que quero, simplesmente sei-o.
O último bolo que fiz antes deste foi também do mesmo autor. O que é que posso dizer? É a minha alma gémea da gula - gastronómica, porque a minha gula exige arte! Por isso é que, entre tantos bolos de chocolate e beterraba que existem, escolhi o dele. É um dos três autores que faço os possíveis para seguir os ingredientes à risca. Porque sei que vale a pena e é para mim uma garantia. Não sei se é melhor ou pior que os outros e a sua apreciação não é unânime, sendo que para alguns o sabor da beterraba é, e passo a citar "demasiado acre". Só sei que me chegou bem... duas grandes vezes.
O bolo é tal como Nigel o descreve: extremely moist. Mais que um chiffon. Da primeira vez que o comi, ainda à temperatura natural, era húmido e até mesmo meio cremoso, como se estivesse ligeiramente mal cozido no centro. E quando pensava que não poderia ficar ainda melhor, a segunda fatia, retirada do frigorífico, endureceu e adquiriu uma textura absolutamente maravilhosa e indulgente, quase como o recheio de uma tarte, e atingiu o auge do seu sabor. Não ficou de todo igual ao da foto na receita, talvez esse tenha sido feito com beterraba dourada, não sei. Mas sei que ficou bom. E não se assustem se no dia seguinte a cobertura do creme fraîche ficar cor de rosa. A receita completa aqui.Dos três quartos de beterraba que sobraram, um quarto foi para esta salada, a never ending salad.
Tem tudo, como eu gosto. Doce, salgado, amargo e ácido. É fantástico como um sabor suporta o outro, sem o anular: o aroma anisado do funcho e o sabor salgado do feta fundem-se num só sabor, a subtileza da beterraba cozida e a doçura crocante da pêra realçam-se mutuamente, e o toque amargo da mizuna com o sabor único da quinoa, envoltos no simples vinagrete de mostarda envolvem tudo numa só sinfonia. A salsa foi a erva escolhida, só para perfumar. É como um concerto: temos pianos, contrabaixos, clarinetes, violinos, trombones, saxofones (a minha literacia nesta area não é grande, lamento) e o maestro. Se calhar não é A melhor receita para aplicar a analogia, mas também serve. E que cores!
Salada morna de quinoa com beterraba, pêra, feta, funcho e rabanete
1 chalota, cortada em rodelas finas
2 c.chá de vinagre de vinho tinto
1 c.chá de mostarda
2 c.sopa de azeite extra virgem
sal e pimenta preta acabada de moer
1 pequena beterraba vermelha (cerca de 250g), cozida e cortada aos cubos
1 pequena beterraba branca (cerca de 250g), crua, laminada às rodelas
4 rabanetes, fatiados finamente
1 pêra, cortada aos cubos
100g de feta, cortado aos cubos
1 cháv. de quinoa, escoada em água fria corrente, cozida e ainda quente
1/2 funcho, laminado
2 punhados de mizuna ou agrião
1 c.sopa de salsa, picada
Para fazer o molho: colocar a chalota numa pequena tigela ou um frasco pequeno e cobrir com o vinagre, pressionando as rodelas para garantir que o vinagre as cobre completamente. Deixar por alguns minutos, depois acrescentar a mostarda e misturar. Bater bem. Cobrir com o azeite, temperar com uma pitada de sal e pimenta (se a mostarda for Dijon provavelmente não precisam de muita) e de seguida bater novamente, ou fechar o frasco e agitar energicamente para que o molho fique emulsionado.
Para fazer a salada, pouco mais é preciso fazer que cortar os ingredientes, empilhá-los num grande prato como preferirem, temperar com o molho e voilà, munch away.
serve 2
a ouvir: Towers - Bon Iver
30.10.12
(Descobri) os diospiros
Não fosse eu curiosa e de mente aberta, pronta a quebrar preconceitos de infância e não teria descoberto a beleza por detrás daquele fruto que cobria o chão de uma camada peganhenta e inundava o ar com um odor a podre num certo recanto do jardim do meu colégio e que tanta repugnância me causou durante cinco anos.
Comido simples é talvez demasiado enjoativo, mas acompanhado é um mimo. Nunca vi um fruto que fosse compota ao mesmo tempo.
Comido simples é talvez demasiado enjoativo, mas acompanhado é um mimo. Nunca vi um fruto que fosse compota ao mesmo tempo.
viscoso mas gostoso.
com iogurte para levar.
com papas de aveia ao pequeno-almoço.
23.10.12
Mimos do Poial - o feijão
O cabaz que recebi da terra do Poial é uma pequena grande aglomeração de potencial. Fiz um inventário na hora, claro. As ervas foram para um muito improvisada, muito feia e muito saborosa salada morna de batata doce, um dos minis pimentos e requeijão.
Com as malaguetas tem sido mais complicado decidir o que delas fazer. Por muito atractiva que seja a ideia de fazer um chutney que encontrei no Culinário de 2008 ou um dos molhos de algum dos meus autores de referência, a verdade é que picante lá em casa, só com bastante moderação, ou pelo menos nada que se compare ao valente palato dos mexicanos ou dos tailandeses. Com elas fiz este molho até agora. É super versátil, tendo já servido uma colherada generosa sobre um peito de frango, refogado num arroz de pimento e dando um twist refrescante a uma posta de pescada cozida.
Depois há (havia!) o feijão longo e aquele poblano negro, de destino marcado desde que lhes pus os olhos em cima.
Por hoje fiquemo-nos pelo feijão. Lembrei-me logo do momento em que a Joana nos mostrou aqueles longos fios em que não dá para perceber onde acaba o ramo e onde começa o fruto, dizendo que, por serem tão tenros e finos, não é necessário cozê-los previamente antes de fritar nem retirar os fios. Inspirada pela tempura do Tomo, enchi-me de coragem e enfrentei os meus demónios da fritura. Fiz peixinhos da horta. Na verdade, foi mais tempura que os nossos conhecidos petiscos, porque a massa é feita apenas com cerveja e farinha.
Foi este o nosso jantar, com uma singela posta de bacalhau e um molho de tomate que com um ingrediente especial passa de modesto a magistral, dando gosto e sabor a estes tempos que não perdoam, cujas amarguras por vezes não conseguimos evitar de levar para a mesa.
Tempura de feijão longo e feijão-verde com molho de tomate e bacalhau
Esta tempura é apenas uma das mil variantes existentes, pelo que não é, de todo, a que mais aconselho a fazerem - até porque para isso teria de ter feito mais do que uma maneira para compreender bem as diferenças. Façam como acharem melhor para vocês.
A avaliar pela fotografia, escusado será dizer que ficou longe de perfeita, mas apesar de tudo sentia-se o crocante do polme e do próprio feijão, que não quis cozer completamente e sentia-se aquele sabor típico a frito mas com a leveza da tempura. O mais importante é que mais que os três elementos como um todo funcionam mesmo muito bem e esta é de facto a razão mais importante que me levou a colocar aqui esta receita.
O molho de tomate é incrivelmente versátil, de maneira que não se preocupem se sobrar porque certamente encontrarão outras oportunidades para o utilizar: sobre um torricado, juntar grão para fazer uma sopa com um ovo escalfado ou envolvido com atum desfeito e massa, o hidrato de carbono todo-poderoso que salva qualquer crise de inspiração. Eu passei-o no final para ficar homogéneo e para envolver melhor o bacalhau e o feijão, mas podem sempre deixá-lo inteiro.
350g de feijão verde, feijão longo ou uma mistura
900ml de óleo (que faça 5cm de profundidade numa frigideira de 3 litros)
1 cháv. de farinha
1 cháv. (240 ml) de cerveja
2 1/2 c.sopa de azeite
1 1/2 c.chá de cominhos
1/2 c.chá de pimentão doce
2 c.chá de canela
1 cebola média, picada
125ml de vinho branco
400g de tomate em lata
1 malagueta sem sementes, finamente picada
1 dente de alho, esmagado
sal e pimenta q.b
salsa, picada
4 postas de bacalhau
Escaldar apenas o feijão verde durante 4-5 minutos, ou totalmente cozidos, conforme preferirem.
Aquecer o óleo na frigideira.
Bater a farinha e a cerveja numa tigela. e mergulhar cerca de 10 feijões de cada vez na massa.
Testar o óleo pingando um pouco da massa na frigideira. Se começar a fritar instantaneamente e a borbulhar é porque está pronto para fritar. Nessa altura, adicionar os 10 feijões de cada vez e fritar cerca de 1,5-2 minutos, até a massa estar bem frita e estaladiça.
Retirar o feijão da frigideira, colocar sobre papel absorvente e polvilhar com sal.
Para fazer o molho, aquecer o azeite numa frigideira larga.
Adicionar as especiarias e a cebola e cozinhar por 8-10 minutos a lume brando, até a cebola ficar completamente mole.
Adicionar o vinho e levantar fervura durante 3 minutos. Juntar os tomates esmagados, a malagueta e o alho. Cozinhar 15 minutos a lume brando até engrossar bastante.
Ajustar o tempero e passar tudo até que fique um molho uniforme mas não totalmente liquido. Reservar tapado. Na altura de servir, polvilhar com salsa.
serve 4
a ouvir: Warsaw - Sharon Van Etten
Um raminho de: alecrim, funcho, tomilho, manjerona e cebolinho, tudo bem picadinho e envolvido no requeijão. Depois o calor que emana da batata doce grelhada e o azeite fazem o resto, intensificando e misturando os sabores numa só garfada.
O topinambo, que não era mais que uma amostra, valeu-me para uma sopa pseudo-tailandesa de udon noodles, juntamente com uns pimentos.
Com as malaguetas tem sido mais complicado decidir o que delas fazer. Por muito atractiva que seja a ideia de fazer um chutney que encontrei no Culinário de 2008 ou um dos molhos de algum dos meus autores de referência, a verdade é que picante lá em casa, só com bastante moderação, ou pelo menos nada que se compare ao valente palato dos mexicanos ou dos tailandeses. Com elas fiz este molho até agora. É super versátil, tendo já servido uma colherada generosa sobre um peito de frango, refogado num arroz de pimento e dando um twist refrescante a uma posta de pescada cozida.
Depois há (havia!) o feijão longo e aquele poblano negro, de destino marcado desde que lhes pus os olhos em cima.
Por hoje fiquemo-nos pelo feijão. Lembrei-me logo do momento em que a Joana nos mostrou aqueles longos fios em que não dá para perceber onde acaba o ramo e onde começa o fruto, dizendo que, por serem tão tenros e finos, não é necessário cozê-los previamente antes de fritar nem retirar os fios. Inspirada pela tempura do Tomo, enchi-me de coragem e enfrentei os meus demónios da fritura. Fiz peixinhos da horta. Na verdade, foi mais tempura que os nossos conhecidos petiscos, porque a massa é feita apenas com cerveja e farinha.
Foi este o nosso jantar, com uma singela posta de bacalhau e um molho de tomate que com um ingrediente especial passa de modesto a magistral, dando gosto e sabor a estes tempos que não perdoam, cujas amarguras por vezes não conseguimos evitar de levar para a mesa.
Tempura de feijão longo e feijão-verde com molho de tomate e bacalhau
Esta tempura é apenas uma das mil variantes existentes, pelo que não é, de todo, a que mais aconselho a fazerem - até porque para isso teria de ter feito mais do que uma maneira para compreender bem as diferenças. Façam como acharem melhor para vocês.
A avaliar pela fotografia, escusado será dizer que ficou longe de perfeita, mas apesar de tudo sentia-se o crocante do polme e do próprio feijão, que não quis cozer completamente e sentia-se aquele sabor típico a frito mas com a leveza da tempura. O mais importante é que mais que os três elementos como um todo funcionam mesmo muito bem e esta é de facto a razão mais importante que me levou a colocar aqui esta receita.
O molho de tomate é incrivelmente versátil, de maneira que não se preocupem se sobrar porque certamente encontrarão outras oportunidades para o utilizar: sobre um torricado, juntar grão para fazer uma sopa com um ovo escalfado ou envolvido com atum desfeito e massa, o hidrato de carbono todo-poderoso que salva qualquer crise de inspiração. Eu passei-o no final para ficar homogéneo e para envolver melhor o bacalhau e o feijão, mas podem sempre deixá-lo inteiro.
350g de feijão verde, feijão longo ou uma mistura
900ml de óleo (que faça 5cm de profundidade numa frigideira de 3 litros)
1 cháv. de farinha
1 cháv. (240 ml) de cerveja
2 1/2 c.sopa de azeite
1 1/2 c.chá de cominhos
1/2 c.chá de pimentão doce
2 c.chá de canela
1 cebola média, picada
125ml de vinho branco
400g de tomate em lata
1 malagueta sem sementes, finamente picada
1 dente de alho, esmagado
sal e pimenta q.b
salsa, picada
4 postas de bacalhau
Escaldar apenas o feijão verde durante 4-5 minutos, ou totalmente cozidos, conforme preferirem.
Aquecer o óleo na frigideira.
Bater a farinha e a cerveja numa tigela. e mergulhar cerca de 10 feijões de cada vez na massa.
Testar o óleo pingando um pouco da massa na frigideira. Se começar a fritar instantaneamente e a borbulhar é porque está pronto para fritar. Nessa altura, adicionar os 10 feijões de cada vez e fritar cerca de 1,5-2 minutos, até a massa estar bem frita e estaladiça.
Retirar o feijão da frigideira, colocar sobre papel absorvente e polvilhar com sal.
Para fazer o molho, aquecer o azeite numa frigideira larga.
Adicionar as especiarias e a cebola e cozinhar por 8-10 minutos a lume brando, até a cebola ficar completamente mole.
Adicionar o vinho e levantar fervura durante 3 minutos. Juntar os tomates esmagados, a malagueta e o alho. Cozinhar 15 minutos a lume brando até engrossar bastante.
Ajustar o tempero e passar tudo até que fique um molho uniforme mas não totalmente liquido. Reservar tapado. Na altura de servir, polvilhar com salsa.
serve 4
a ouvir: Warsaw - Sharon Van Etten
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19.10.12
Memória. E um (escrito de memória).
escudos, 2008
1. Um pequeno depósito de incredulidade no fundo dos teus olhos
2. Um breve estremecimento no movimento do coração (do meu coração)
3. A impressão de alguém olhando-te atrás de ti.
4. Uma voz familiar num sítio cheio de gente (que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as sílabas de certas palavras que fica depois a pairar perto dos lábios
6. A ignorância de alguma coisa que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando, uma palavra que basta dizer ou não dizer, abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer, dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Manuel António Pina
1. Um pequeno depósito de incredulidade no fundo dos teus olhos
2. Um breve estremecimento no movimento do coração (do meu coração)
3. A impressão de alguém olhando-te atrás de ti.
4. Uma voz familiar num sítio cheio de gente (que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as sílabas de certas palavras que fica depois a pairar perto dos lábios
6. A ignorância de alguma coisa que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando, uma palavra que basta dizer ou não dizer, abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer, dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Manuel António Pina
17.10.12
They keep on coming

Dão-me os bons dias e um sorriso todas as manhãs, ao acordar.
Acabei de passar os olhos pelo texto anterior e tenho de pedir desculpa as gafes e erros enormes que dei (mais que o habitual). Apesar de ser transcrito do papel, foi um trabalho de corte e costura extenso e confesso que, depois de colocar a última fotografia, não tive paciência nenhuma para o reler. My bad. Por outro lado foi confortante relê-lo acompanhado das imagens, como uma história ilustrada.
a ouvir: Kreuzberg - Bloc Party
14.10.12
Da Terra ao Prato, at last
Confessar que esta é a terceira versão que escrevo deste texto é assumir que: um, provavelmente devem sair mais e escrever menos; dois, devia pensar menos e escrever mais.
Antes de começar a escrever qualquer texto de maior importância que uma simples entrada de diário, faço um exercício, uma espécie de lista sem tópicos implicitamente intitulada "o que quero dizer" (obrigada Anne Lammot). O problema está quando há tanto para dizer e não sei por onde começar, acabando por eventualmente misturar o que realmente interessa com outras coisas não tão importantes, sem conseguir destacar umas sobre as outras. Mas hoje, dez passos dados da porta de casa, ainda com o gosto do chá de erva-príncipe na boca, descobri como este texto iria começar.
Descobri o que foi para mim aquele Da Terra ao Prato na Quinta do Poial. Foi chá de erva-princípe. O que era para mim a infusão de uma erva sem piada e nenhum sabor de se fazer notar, transformou-se num néctar doce e paliativo para dias quentes e muita companhia. Da terra levou-se ao prato e ao copo, passando para a boca e terminando, não no estômago, porque apesar da abundância o peso não se sentiu, mas no coração.
Descrever o dia seria como descrever uma paisagem natural: por mais poética e justamente que o fizesse, apenas é compreendida quando é vivida.
Para mim basta falar-vos da fluidez que ali se sente. Tudo flui como as águas de um rio ainda perto da nascente: com uma intrínseca leveza, rápida mas sem pressa. Flui a faca do chef Tomo a cortar o peixe, os jarros frescos de chá e vinho branco da cozinha para a mesa lá fora, e o seu conteúdo flui para os copos e deles para as nossas gargantas sequiosas e poros desidratados. Flui a visita à plantação, os anfitriões de dentro para fora da casa e os convidados da mesa à panela. Fluem os pratos entre mãos e braços sobre a mesa e fluem os humores do vinho e da boa conversa. Do meu prato flui incessantemente a jicama maravilhosa de sabor suave que parece nabo mas com toda a frescura da pêra, flui o mais fantástico prato de cavala que já comi e flui o pão ensopado nos sucos irresistíveis do prato e depois os da travessa, quando no primeiro já nada restava para ensopar, flui o sangue pela minha veia alentejana que não se conseguiu controlar. Flui uma ligeira brisa pontual que alivia o calor que já não se previa e fluem-me agora as palavras que não consigo parar. Mas deixo as fotografias tentarem falar por si.
o prenúncio da cozinha

ovos escalfados na perfeição que me pareceram bolas de mozzarella
à cavala marinada tira-se a espinha
e passa-se às mãos maquinais do mestre, que me hipnotizaram completamente
13h da tarde, eis-nos na terra, deste Da Terra ao Prato
manjericão roxo, Joana e os pés de feijão (sim, o que ela tem na mão é um feijão) e couves, muitas couves - a do meio é a toscana.
Couves-de-bruxelas
salva
... e pimentos. Pimentos, chillis ou como quiserem chamar-lhes, tanta era a variedade que com o calor do Sol perdi o tino completamente. Uns são fofinhos mas queimam (literalmente), outros, que achamos potenciais assassinos, não perturbam a lingua mais sensível.
Aqueles pequeninos laranja com bico são os petit-beck, e a pêra que vem na imagem acima não é pêra nenhuma, é mais um deles.
folhas de mostarda.
T-shirts ensopadas, caras rosadas e estômagos vazios e prontissimos para a parte da mesa.

pequenas rodelas de beringela recheadas com pimento, requeijão da zona, azeitonas, coentros e cebolinho picado comidas de uma dentada.

desvendado o segredo dos ovos escalfados: sopa de miso com o ovo e um pedaço da abóbora onde descansavam, milho e tupinambo (aka alcachofra de jerusalém).
salada de mizuna e tomate com um levíssimo e saboroso tempura de cantaril e barriga de cherne.

aquelas fatias brancas são a jicama: toscas como nabos, viciantes como batatas fritas (segundo dizem) e frescas como pêras.
perdi-me com os sabores japoneses pelo que mal toquei na pasta de feijão. A salsa verde, idêntica à que fiz há dois meses, fez-me ingerir água para um batalhão.
Disseram-me que a jicama em chiffonade às tiras que veem em cima foi na verdade cortada às tiras como se se descascasse um nabo até ao fim e depois cortada assim, em finos palitos.
Os molhos, acreditem, são, pelo menos para o meu modesto e inexperiente paladar (sem falsas modéstias, acreditem) um complot magistral de sabores mediterrânicos, mexicanos e japoneses. Mesmo mesmo a pedirem por pão.
uma maravilhosa tarte, que deixou a todos a desejar mais, de frangipane e amêndoa feita pela Kayo, uma nova amiga, cúmulo da amabilidade e excesso de modéstia.
o crumble não foi tão unânime mas confesso que adorei porque por baixo do crocante, se não contar com a acidez do physallis, acreditem, sabia a Cerelac de pêra.

Para terminar em grande, leveza e beleza, um sorvete de manjericão com morangos. Com Bimbi ou não, rendi-me.
E quando pensava que todo o mimo já tinha esgotado, eis que a Mª José nos presenteia com um pequeno conjunto de pérolas do seu "jardim". Pequenos brinquedos que tenho vindo a utilizar, inspirada pelo que aprendi, vivi e senti.
Na Quinta do Poial vive-se o mundo ao contrário. Há, aliás, uma espécie de milagre da multiplicação dos hectares, em que um pequeno quadrado de terra é um útero mágico pronto a fazer germinar, época após época, o que lhe foi destinado. Nada é desperdiçado, o potencial da terra é aproveitado até ao último nutriente e assim percebemos a filosofia da agricultura e a sinergia entre a terra e quem a trabalha. Fico deslumbrada com toda a sua perfeição e faz-me acreditar numa ciência exacta transparente e de premissas irrefutáveis no meio da instabilidade louca dos modelos económicos falhados aplicados em nós como ratos de laboratório, com os quais nos esmurram todos os dias. Um dia na quinta é ter a certeza do ar puro que respiro, da qualidade e excelência dos alimentos, da extrema dedicação, humildade e valores de quem nela vive e trabalha. É ir, voltar e acreditar mais um bocadinho. Não sei bem em quê, mas acredito mais um bocadinho.



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