19.10.12

Memória. E um (escrito de memória).

escudos, 2008


1. Um pequeno depósito de incredulidade no fundo dos teus olhos
2. Um breve estremecimento no movimento do coração (do meu coração)
3. A impressão de alguém olhando-te atrás de ti.
4. Uma voz familiar num sítio cheio de gente (que só tu ouves dentro de ti).
5. Um súbito silêncio entre as sílabas de certas palavras que fica depois a pairar perto dos lábios
6. A ignorância de alguma coisa que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando, uma palavra que basta dizer ou não dizer, abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer, dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.


Manuel António Pina





17.10.12

They keep on coming





Dão-me os bons dias e um sorriso todas as manhãs, ao acordar.


Acabei de passar os olhos pelo texto anterior e tenho de pedir desculpa as gafes e erros enormes que dei (mais que o habitual). Apesar de ser transcrito do papel, foi um trabalho de corte e costura extenso e confesso que, depois de colocar a última fotografia, não tive paciência nenhuma para o reler. My bad. Por outro lado foi confortante relê-lo acompanhado das imagens, como uma história ilustrada.


a ouvir: Kreuzberg - Bloc Party

14.10.12

Da Terra ao Prato, at last


Confessar que esta é a terceira versão que escrevo deste texto é assumir que: um, provavelmente devem sair mais e escrever menos; dois, devia pensar menos e escrever mais.
Antes de começar a escrever qualquer texto de maior importância que uma simples entrada de diário, faço um exercício, uma espécie de lista sem tópicos implicitamente intitulada "o que quero dizer" (obrigada Anne Lammot). O problema está quando há tanto para dizer e não sei por onde começar, acabando por eventualmente misturar o que realmente interessa com outras coisas não tão importantes, sem conseguir destacar umas sobre as outras. Mas hoje, dez passos dados da porta de casa, ainda com o gosto do chá de erva-príncipe na boca, descobri como este texto iria começar.
Descobri o que foi para mim aquele Da Terra ao Prato na Quinta do Poial. Foi chá de erva-princípe. O que era para mim a infusão de uma erva sem piada e nenhum sabor de se fazer notar, transformou-se num néctar doce e paliativo para dias quentes e muita companhia. Da terra levou-se ao prato e ao copo, passando para a boca e terminando, não no estômago, porque apesar da abundância o peso não se sentiu, mas no coração.



Descrever o dia seria como descrever uma paisagem natural: por mais poética e justamente que o fizesse, apenas é compreendida quando é vivida.
Para mim basta falar-vos da fluidez que ali se sente. Tudo flui como as águas de um rio ainda perto da nascente: com uma intrínseca leveza, rápida mas sem pressa. Flui a faca do chef Tomo a cortar o peixe, os jarros frescos de chá e vinho branco da cozinha para a mesa lá fora, e o seu conteúdo flui para os copos e deles para as nossas gargantas sequiosas e poros desidratados. Flui a visita à plantação, os anfitriões de dentro para fora da casa e os convidados da mesa à panela. Fluem os pratos entre mãos e braços sobre a mesa e fluem os humores do vinho e da boa conversa. Do meu prato flui incessantemente a jicama maravilhosa de sabor suave que parece nabo mas com toda a frescura da pêra, flui o mais fantástico prato de cavala que já comi e flui o pão ensopado nos sucos irresistíveis do prato e depois os da travessa, quando no primeiro já nada restava para ensopar, flui o sangue pela minha veia alentejana que não se conseguiu controlar. Flui uma ligeira brisa pontual que alivia o calor que já não se previa e fluem-me agora as palavras que não consigo parar. Mas deixo as fotografias tentarem falar por si.

o prenúncio da cozinha




ovos escalfados na perfeição que me pareceram bolas de mozzarella


à cavala marinada tira-se a espinha




















e passa-se às mãos maquinais do mestre, que me hipnotizaram completamente


13h da tarde, eis-nos na terra, deste Da Terra ao Prato  


 manjericão roxo, Joana e os pés de feijão (sim, o que ela tem na mão é um feijão) e couves, muitas couves - a do meio é a toscana.

Couves-de-bruxelas

 salva





... e pimentos. Pimentos, chillis ou como quiserem chamar-lhes, tanta era a variedade que com o calor do Sol perdi o tino completamente. Uns são fofinhos mas queimam (literalmente), outros, que achamos potenciais assassinos, não perturbam a lingua mais sensível. 
Aqueles pequeninos laranja com bico são os petit-beck, e a pêra que vem na imagem acima não é pêra nenhuma, é mais um deles.


folhas de mostarda.


T-shirts ensopadas, caras rosadas e estômagos vazios e prontissimos para a parte da mesa.





últimos retoques: no sashimi de cantaril, na mesa e nos temperos das saladas e nas bebidas.
pequenas rodelas de beringela recheadas com pimento, requeijão da zona, azeitonas, coentros e cebolinho picado comidas de uma dentada.


desvendado o segredo dos ovos escalfados: sopa de miso com o ovo e um pedaço da abóbora onde descansavam, milho e tupinambo (aka alcachofra de jerusalém).




salada de mizuna e tomate com um levíssimo e saboroso tempura de cantaril e barriga de cherne.



aquelas fatias brancas são a jicama: toscas como nabos, viciantes como batatas fritas (segundo dizem) e frescas como pêras.

perdi-me com os sabores japoneses pelo que mal toquei na pasta de feijão. A salsa verde, idêntica à que fiz há dois meses, fez-me ingerir água para um batalhão.



Disseram-me que a jicama em chiffonade às tiras que veem em cima foi na verdade cortada às tiras como se se descascasse um nabo até ao fim e depois cortada assim, em finos palitos.
Os molhos, acreditem, são, pelo menos para o meu modesto e inexperiente paladar (sem falsas modéstias, acreditem) um complot magistral de sabores mediterrânicos, mexicanos e japoneses. Mesmo mesmo a pedirem por pão.

uma maravilhosa tarte, que deixou a todos a desejar mais, de frangipane e amêndoa feita pela Kayo, uma nova amiga, cúmulo da amabilidade e excesso de modéstia.


o crumble não foi tão unânime mas confesso que adorei porque por baixo do crocante, se não contar com a acidez do physallis, acreditem, sabia a Cerelac de pêra.

















Para terminar em grande, leveza e beleza, um sorvete de manjericão com morangos. Com Bimbi ou não, rendi-me.
























E quando pensava que todo o mimo já tinha esgotado, eis que a Mª José nos presenteia com um pequeno conjunto de pérolas do seu "jardim". Pequenos brinquedos que tenho vindo a utilizar, inspirada pelo que aprendi, vivi e senti.












Na Quinta do Poial vive-se o mundo ao contrário. Há, aliás, uma espécie de milagre da multiplicação dos hectares, em que um pequeno quadrado de terra é um útero mágico pronto a fazer germinar, época após época, o que lhe foi destinado. Nada é desperdiçado, o potencial da terra é aproveitado até ao último nutriente e assim percebemos a filosofia da agricultura e a sinergia entre a terra e quem a trabalha. Fico deslumbrada com toda a sua perfeição e faz-me acreditar numa ciência exacta transparente e de premissas irrefutáveis no meio da instabilidade louca dos modelos económicos falhados aplicados em nós como ratos de laboratório, com os quais nos esmurram todos os dias. Um dia na quinta é ter a certeza do ar puro que respiro, da qualidade e excelência dos alimentos, da extrema dedicação, humildade e valores de quem nela vive e trabalha. É ir, voltar e acreditar mais um bocadinho. Não sei bem em quê, mas acredito mais um bocadinho.


apresento-vos a jicama.


















































9.10.12

Combinações óbvias



Tal como já mencionei ontem na única brilhante conclusão a que consegui chegar com o look roupa enrolada enfiada no armário que está a minha cabeça, o mundo está longe de ser feito apenas de causalidades, lógica e relações óbvias entre as coisas. Mas elas, as coisas óbvias, também existem e é isso que pretendo hoje celebrar. Se há coisa que tenho de inserir no "manual de intruções" da minha nave espacial é aprender a quando deixar-me ficar pelas soluções mais óbvias. Ás vezes consigo, outras nem tanto, mas na maior parte das vezes começo do óbvio, parto para o complexo e regresso ao óbvio novamente. Talvez a este óbvio possa juntar o instinto, parece-me uma relação... bem, óbvia. O que interessa é que regra geral, ambos existem porque regra geral funcionam. Mas também sei que essa capacidade de os reconhecer e aceitar reside geralmente naqueles que possuem uma auto-confiança, digamos, confortável e isso, óbvio ou não, falta-me. Mais prefiro não desenvolver.
Mas como não há regra sem excepção, há dias felizes, isto é, repletos de obviedade (sim, a palavra é feia e soa mal mas existe) pura e simples. Dias em que uma combinação de combinações resulta numa tarde encantadora e com alguém que em nada lhe fica atrás no adjectivo.
A primeira combinação dá-se entre duas meninas que gostam de fanzines, de desenhar, de design, de falar de ouvir e de comida - e isto tudo já sabiam uma da outra ainda antes de se conhecerem. Combinando o útil ao agradável, transformou-se uma recolha de informação numa tarde de amena cavaqueira, que por sua vez se combinou com um dia de Sol radioso numa Belém que com tais condições nunca desilude. Combina-se isso com relva fresca e pés descalços e o motivo do encontro com um "gostinho" do mesmo. Um gostinho com sabor e textura que combinam bem com céu azul ou cinzento, a pêra que combinam com a estação, os arandos que combinam com a pêra, que por sua vez combinam com as amêndoas.

Eis uma receita óbvia, nenhuma questão: scones de pêra, arandos secos e amêndoa com pés descalços num jardim em Belém acompanhado com uma nova amiga e temperado com de uma bela tarde de Sol.


Obrigada Amanda.


O que a Amanda, Milena, Blanca e Tiago fazem há já três anos é absolutamente de se lhe tirar o chapéu. A Mr. Spoqui encanta não só pela qualidade gráfica de cada edição, que é para mim absolutamente singular e original, mas também pela sua história, pela dedicação fenomenal que eles tem entre eles, que se reflecte num objecto íntimo porém desejoso de se mostrar a todos, como qualquer boa fanzine deve ser.
Falo dela a toda a gente, porque vale a pena e eles merecem não só recolher frutos do seu trabalho, mas que se veja o fruto do seu carinho.
Cada edição tem um tema e eles pediram-me para colaborar com eles para a próxima, pelo que podem já adivinhar qual será o tema desta. Esperem para ver, que quando for a altura podem ter a certeza que ficarão a saber.


Fiquem de boca aberta a saber mais sobre eles na Keep up the good work + Crap = good + We Celebrate + Twitter.


Scones de pêra, arandos secos e amêndoa

225g de farinha
1 c.chá cheia de fermento em pó
1 pitada de sal
1-2 c.chá de raspa de laranja
30g de manteiga sem sal, partida em pequenos cubos
3-5 colheres de sopa de leite, mais para pincelar
1 ovo grande, batido
30g de açúcar amarelo
140g de pêra (1 grande), descascada e cortada aos cubos com cerca de 1cm
25g de arandos secos, grosseiramente picados
25g de amêndoa palitada ou lâminada
açúcar de cana integral, para polvilhar

Pré-aquecer o forno a 220ºC. Engordurar ligeiramente um tabuleiro de 20x 20 no mínimo e forrar com papel vegetal ou polvilhar com farinha.
Juntar a farinha, fermento e sal numa tigela e misturar. Esfregar o açúcar com a raspa de laranja numa pequena tigela até humedecer o açúcar e libertar aroma. Juntar à farinha e misturar.
Misturar os pedaços da manteiga para cobri-los de farinha e esfregar com as pontas dos dedos até que comecem a parecer pedaços de areia, sem amassar, caso contrário a massa desenvolve demasiado gluten e endurece.
Adicionar o ovo e um pouco de leite, envolvendo ligeiramente com a mão ou com um garfo, novamente sem amassar. Ir adicionando leite apenas até que forme uma massa consistente, que se mantenha unida apenas ao limite, sem ficar peganhenta.
Juntar a pêra, arandos e amêndoas e envolvê-los completamente sem amassar.
Passar a massa para a bancada polvilhada com um pouco de farinha, formar um circulo com cerca de 2 cm de espessura e cortar em seis fatias uniformes.
Transferir as fatias para o tabuleiro, separadas com dois dedos de distância, pincelar com leite e polvilhar com um pouco de açúcar integral (amarelo ou mascavado também dão perfeitamente).
Levar ao forno durante 15-20 minutos até estarem crescidos, bem dourados e com as amêndoas visíveis bem tostadas. Podem testar se estão prontos batendo com os nós dos dedos na superfície - se fizerem um som oco estão no ponto.
Transferi-los para uma grelha para arrefecerem um pouco e deixá-los destapados para desenvolverem uma crosta bem crocante (para mim é a única maneira de comer um scone) ou podem tapá-los com um pano para amolecerem com a própria humidade.
Comer um (ou dois, ou três porque são pequeninos) ainda mornos com chá, leite, café ou o que quiserem. Tem é de ser com companhia.

faz 4-6 scones




































a ouvir: Let Her Go - The Passenger

8.10.12

Falham-me as palavras, tanto que não consigo arranjar um título decente para este texto

pêras cozidas com papas de aveia. Não exagero quando digo que esta é para mim uma das maneiras mais reconfortantes de começar o dia. As pêras quanto mais maduras melhor, e o micro-ondas é o melhor amigo para as cozer, transformando-as em tenros e doces pedaços de aconchego.


Ultimamente falham-me as palavras. Parece a combinação do exercício vocabular que tenho feito nos últimos dias para dar um novo início à minha vida com a falta de propósito que sinto, ainda que me recuse a parar, provocou um curto circuito na minha cabeça, uma certa dislexia. As ideias estão cá más não as consigo identificar ou conjugar num simples texto ou frase concisos. Estou "desarrumada" e as minhas ideias parecem a roupa enrolada que tenho enfiada no armário, para disfarçar a confusão.  Combinando isso com o meu over-thinking constante é uma mistura explosiva. Começo a procurar padrões e respostas para imensas questões cujas quaisquer conclusões a que chegue refuto no momento seguinte, e chego à conclusão que há mais aleatoriedade nas coisas do que posso imaginar. Nem tudo funciona na lógica de causa-efeito. Quando não consigo escrever em casa muito provavelmente a razão para isso é nada, ou se há efectivamente uma razão para esse dia provavelmente é tão forte como outra razão para não conseguir escrever em casa noutro dia qualquer. Como quando às vezes um almoço rápido de improviso que seria aparentemente infalível desilude completamente e ponho-me a pensar o porquê quando devia esquecer e andar para a frente.
Há uma semana que ando a tentar escrever um texto que está ainda longe de fazer justiça ao seu conteúdo. Mas a esforço vou chegar lá, aguardem. Por agora fico-me com coisas que não exijam mais que uma panela, colher de pau e um botão do micro-ondas.


Fui apanhar nozes à minha avó.


a ouvir: Broken Brights - Angus Stone