14.10.12

Da Terra ao Prato, at last


Confessar que esta é a terceira versão que escrevo deste texto é assumir que: um, provavelmente devem sair mais e escrever menos; dois, devia pensar menos e escrever mais.
Antes de começar a escrever qualquer texto de maior importância que uma simples entrada de diário, faço um exercício, uma espécie de lista sem tópicos implicitamente intitulada "o que quero dizer" (obrigada Anne Lammot). O problema está quando há tanto para dizer e não sei por onde começar, acabando por eventualmente misturar o que realmente interessa com outras coisas não tão importantes, sem conseguir destacar umas sobre as outras. Mas hoje, dez passos dados da porta de casa, ainda com o gosto do chá de erva-príncipe na boca, descobri como este texto iria começar.
Descobri o que foi para mim aquele Da Terra ao Prato na Quinta do Poial. Foi chá de erva-princípe. O que era para mim a infusão de uma erva sem piada e nenhum sabor de se fazer notar, transformou-se num néctar doce e paliativo para dias quentes e muita companhia. Da terra levou-se ao prato e ao copo, passando para a boca e terminando, não no estômago, porque apesar da abundância o peso não se sentiu, mas no coração.



Descrever o dia seria como descrever uma paisagem natural: por mais poética e justamente que o fizesse, apenas é compreendida quando é vivida.
Para mim basta falar-vos da fluidez que ali se sente. Tudo flui como as águas de um rio ainda perto da nascente: com uma intrínseca leveza, rápida mas sem pressa. Flui a faca do chef Tomo a cortar o peixe, os jarros frescos de chá e vinho branco da cozinha para a mesa lá fora, e o seu conteúdo flui para os copos e deles para as nossas gargantas sequiosas e poros desidratados. Flui a visita à plantação, os anfitriões de dentro para fora da casa e os convidados da mesa à panela. Fluem os pratos entre mãos e braços sobre a mesa e fluem os humores do vinho e da boa conversa. Do meu prato flui incessantemente a jicama maravilhosa de sabor suave que parece nabo mas com toda a frescura da pêra, flui o mais fantástico prato de cavala que já comi e flui o pão ensopado nos sucos irresistíveis do prato e depois os da travessa, quando no primeiro já nada restava para ensopar, flui o sangue pela minha veia alentejana que não se conseguiu controlar. Flui uma ligeira brisa pontual que alivia o calor que já não se previa e fluem-me agora as palavras que não consigo parar. Mas deixo as fotografias tentarem falar por si.

o prenúncio da cozinha




ovos escalfados na perfeição que me pareceram bolas de mozzarella


à cavala marinada tira-se a espinha




















e passa-se às mãos maquinais do mestre, que me hipnotizaram completamente


13h da tarde, eis-nos na terra, deste Da Terra ao Prato  


 manjericão roxo, Joana e os pés de feijão (sim, o que ela tem na mão é um feijão) e couves, muitas couves - a do meio é a toscana.

Couves-de-bruxelas

 salva





... e pimentos. Pimentos, chillis ou como quiserem chamar-lhes, tanta era a variedade que com o calor do Sol perdi o tino completamente. Uns são fofinhos mas queimam (literalmente), outros, que achamos potenciais assassinos, não perturbam a lingua mais sensível. 
Aqueles pequeninos laranja com bico são os petit-beck, e a pêra que vem na imagem acima não é pêra nenhuma, é mais um deles.


folhas de mostarda.


T-shirts ensopadas, caras rosadas e estômagos vazios e prontissimos para a parte da mesa.





últimos retoques: no sashimi de cantaril, na mesa e nos temperos das saladas e nas bebidas.
pequenas rodelas de beringela recheadas com pimento, requeijão da zona, azeitonas, coentros e cebolinho picado comidas de uma dentada.


desvendado o segredo dos ovos escalfados: sopa de miso com o ovo e um pedaço da abóbora onde descansavam, milho e tupinambo (aka alcachofra de jerusalém).




salada de mizuna e tomate com um levíssimo e saboroso tempura de cantaril e barriga de cherne.



aquelas fatias brancas são a jicama: toscas como nabos, viciantes como batatas fritas (segundo dizem) e frescas como pêras.

perdi-me com os sabores japoneses pelo que mal toquei na pasta de feijão. A salsa verde, idêntica à que fiz há dois meses, fez-me ingerir água para um batalhão.



Disseram-me que a jicama em chiffonade às tiras que veem em cima foi na verdade cortada às tiras como se se descascasse um nabo até ao fim e depois cortada assim, em finos palitos.
Os molhos, acreditem, são, pelo menos para o meu modesto e inexperiente paladar (sem falsas modéstias, acreditem) um complot magistral de sabores mediterrânicos, mexicanos e japoneses. Mesmo mesmo a pedirem por pão.

uma maravilhosa tarte, que deixou a todos a desejar mais, de frangipane e amêndoa feita pela Kayo, uma nova amiga, cúmulo da amabilidade e excesso de modéstia.


o crumble não foi tão unânime mas confesso que adorei porque por baixo do crocante, se não contar com a acidez do physallis, acreditem, sabia a Cerelac de pêra.

















Para terminar em grande, leveza e beleza, um sorvete de manjericão com morangos. Com Bimbi ou não, rendi-me.
























E quando pensava que todo o mimo já tinha esgotado, eis que a Mª José nos presenteia com um pequeno conjunto de pérolas do seu "jardim". Pequenos brinquedos que tenho vindo a utilizar, inspirada pelo que aprendi, vivi e senti.












Na Quinta do Poial vive-se o mundo ao contrário. Há, aliás, uma espécie de milagre da multiplicação dos hectares, em que um pequeno quadrado de terra é um útero mágico pronto a fazer germinar, época após época, o que lhe foi destinado. Nada é desperdiçado, o potencial da terra é aproveitado até ao último nutriente e assim percebemos a filosofia da agricultura e a sinergia entre a terra e quem a trabalha. Fico deslumbrada com toda a sua perfeição e faz-me acreditar numa ciência exacta transparente e de premissas irrefutáveis no meio da instabilidade louca dos modelos económicos falhados aplicados em nós como ratos de laboratório, com os quais nos esmurram todos os dias. Um dia na quinta é ter a certeza do ar puro que respiro, da qualidade e excelência dos alimentos, da extrema dedicação, humildade e valores de quem nela vive e trabalha. É ir, voltar e acreditar mais um bocadinho. Não sei bem em quê, mas acredito mais um bocadinho.


apresento-vos a jicama.


















































9.10.12

Combinações óbvias



Tal como já mencionei ontem na única brilhante conclusão a que consegui chegar com o look roupa enrolada enfiada no armário que está a minha cabeça, o mundo está longe de ser feito apenas de causalidades, lógica e relações óbvias entre as coisas. Mas elas, as coisas óbvias, também existem e é isso que pretendo hoje celebrar. Se há coisa que tenho de inserir no "manual de intruções" da minha nave espacial é aprender a quando deixar-me ficar pelas soluções mais óbvias. Ás vezes consigo, outras nem tanto, mas na maior parte das vezes começo do óbvio, parto para o complexo e regresso ao óbvio novamente. Talvez a este óbvio possa juntar o instinto, parece-me uma relação... bem, óbvia. O que interessa é que regra geral, ambos existem porque regra geral funcionam. Mas também sei que essa capacidade de os reconhecer e aceitar reside geralmente naqueles que possuem uma auto-confiança, digamos, confortável e isso, óbvio ou não, falta-me. Mais prefiro não desenvolver.
Mas como não há regra sem excepção, há dias felizes, isto é, repletos de obviedade (sim, a palavra é feia e soa mal mas existe) pura e simples. Dias em que uma combinação de combinações resulta numa tarde encantadora e com alguém que em nada lhe fica atrás no adjectivo.
A primeira combinação dá-se entre duas meninas que gostam de fanzines, de desenhar, de design, de falar de ouvir e de comida - e isto tudo já sabiam uma da outra ainda antes de se conhecerem. Combinando o útil ao agradável, transformou-se uma recolha de informação numa tarde de amena cavaqueira, que por sua vez se combinou com um dia de Sol radioso numa Belém que com tais condições nunca desilude. Combina-se isso com relva fresca e pés descalços e o motivo do encontro com um "gostinho" do mesmo. Um gostinho com sabor e textura que combinam bem com céu azul ou cinzento, a pêra que combinam com a estação, os arandos que combinam com a pêra, que por sua vez combinam com as amêndoas.

Eis uma receita óbvia, nenhuma questão: scones de pêra, arandos secos e amêndoa com pés descalços num jardim em Belém acompanhado com uma nova amiga e temperado com de uma bela tarde de Sol.


Obrigada Amanda.


O que a Amanda, Milena, Blanca e Tiago fazem há já três anos é absolutamente de se lhe tirar o chapéu. A Mr. Spoqui encanta não só pela qualidade gráfica de cada edição, que é para mim absolutamente singular e original, mas também pela sua história, pela dedicação fenomenal que eles tem entre eles, que se reflecte num objecto íntimo porém desejoso de se mostrar a todos, como qualquer boa fanzine deve ser.
Falo dela a toda a gente, porque vale a pena e eles merecem não só recolher frutos do seu trabalho, mas que se veja o fruto do seu carinho.
Cada edição tem um tema e eles pediram-me para colaborar com eles para a próxima, pelo que podem já adivinhar qual será o tema desta. Esperem para ver, que quando for a altura podem ter a certeza que ficarão a saber.


Fiquem de boca aberta a saber mais sobre eles na Keep up the good work + Crap = good + We Celebrate + Twitter.


Scones de pêra, arandos secos e amêndoa

225g de farinha
1 c.chá cheia de fermento em pó
1 pitada de sal
1-2 c.chá de raspa de laranja
30g de manteiga sem sal, partida em pequenos cubos
3-5 colheres de sopa de leite, mais para pincelar
1 ovo grande, batido
30g de açúcar amarelo
140g de pêra (1 grande), descascada e cortada aos cubos com cerca de 1cm
25g de arandos secos, grosseiramente picados
25g de amêndoa palitada ou lâminada
açúcar de cana integral, para polvilhar

Pré-aquecer o forno a 220ºC. Engordurar ligeiramente um tabuleiro de 20x 20 no mínimo e forrar com papel vegetal ou polvilhar com farinha.
Juntar a farinha, fermento e sal numa tigela e misturar. Esfregar o açúcar com a raspa de laranja numa pequena tigela até humedecer o açúcar e libertar aroma. Juntar à farinha e misturar.
Misturar os pedaços da manteiga para cobri-los de farinha e esfregar com as pontas dos dedos até que comecem a parecer pedaços de areia, sem amassar, caso contrário a massa desenvolve demasiado gluten e endurece.
Adicionar o ovo e um pouco de leite, envolvendo ligeiramente com a mão ou com um garfo, novamente sem amassar. Ir adicionando leite apenas até que forme uma massa consistente, que se mantenha unida apenas ao limite, sem ficar peganhenta.
Juntar a pêra, arandos e amêndoas e envolvê-los completamente sem amassar.
Passar a massa para a bancada polvilhada com um pouco de farinha, formar um circulo com cerca de 2 cm de espessura e cortar em seis fatias uniformes.
Transferir as fatias para o tabuleiro, separadas com dois dedos de distância, pincelar com leite e polvilhar com um pouco de açúcar integral (amarelo ou mascavado também dão perfeitamente).
Levar ao forno durante 15-20 minutos até estarem crescidos, bem dourados e com as amêndoas visíveis bem tostadas. Podem testar se estão prontos batendo com os nós dos dedos na superfície - se fizerem um som oco estão no ponto.
Transferi-los para uma grelha para arrefecerem um pouco e deixá-los destapados para desenvolverem uma crosta bem crocante (para mim é a única maneira de comer um scone) ou podem tapá-los com um pano para amolecerem com a própria humidade.
Comer um (ou dois, ou três porque são pequeninos) ainda mornos com chá, leite, café ou o que quiserem. Tem é de ser com companhia.

faz 4-6 scones




































a ouvir: Let Her Go - The Passenger

8.10.12

Falham-me as palavras, tanto que não consigo arranjar um título decente para este texto

pêras cozidas com papas de aveia. Não exagero quando digo que esta é para mim uma das maneiras mais reconfortantes de começar o dia. As pêras quanto mais maduras melhor, e o micro-ondas é o melhor amigo para as cozer, transformando-as em tenros e doces pedaços de aconchego.


Ultimamente falham-me as palavras. Parece a combinação do exercício vocabular que tenho feito nos últimos dias para dar um novo início à minha vida com a falta de propósito que sinto, ainda que me recuse a parar, provocou um curto circuito na minha cabeça, uma certa dislexia. As ideias estão cá más não as consigo identificar ou conjugar num simples texto ou frase concisos. Estou "desarrumada" e as minhas ideias parecem a roupa enrolada que tenho enfiada no armário, para disfarçar a confusão.  Combinando isso com o meu over-thinking constante é uma mistura explosiva. Começo a procurar padrões e respostas para imensas questões cujas quaisquer conclusões a que chegue refuto no momento seguinte, e chego à conclusão que há mais aleatoriedade nas coisas do que posso imaginar. Nem tudo funciona na lógica de causa-efeito. Quando não consigo escrever em casa muito provavelmente a razão para isso é nada, ou se há efectivamente uma razão para esse dia provavelmente é tão forte como outra razão para não conseguir escrever em casa noutro dia qualquer. Como quando às vezes um almoço rápido de improviso que seria aparentemente infalível desilude completamente e ponho-me a pensar o porquê quando devia esquecer e andar para a frente.
Há uma semana que ando a tentar escrever um texto que está ainda longe de fazer justiça ao seu conteúdo. Mas a esforço vou chegar lá, aguardem. Por agora fico-me com coisas que não exijam mais que uma panela, colher de pau e um botão do micro-ondas.


Fui apanhar nozes à minha avó.


a ouvir: Broken Brights - Angus Stone

4.10.12

Hello friends,

Lord Henry sorriu.
- Todos gostam de dar aquilo de que mais necessitam. É o que eu chamo o cúmulo da generosidade.
-Oh, o Basil é o melhor dos homens, mas parece-me um bocadinho filistino. Descobri isso desde que o conheci a si, Henry.
- O Basil, meu caro, põe na obra tudo o que nele há de encantador. A consequência é que nada lhe resta para a vida, a não serem os seus preconceitos, os seus princípios e o seu senso comum. Os únicos artistas que tenho conhecido, se são pessoalmente deliciosos, são maus artistas. Os bons artistas existem simplesmente no que fazem, e, por conseguinte, no que são nenhum interesse despertam. Um grande poeta, um poeta realmente grande, é a menos poética de todas as criaturas. Mas os poetas inferiores são absolutamente encantadores. Quanto piores são as suas rimas, mais pitorescos eles parecem. Só o facto de haver publicado um livro de sonetos de segunda classe torna um homem deveras irresistível. Vive a poesia que não pode escrever. Os outros escrevem a poesia que não ousam realizar.

O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Adoro absolutamente estas personagens e Henry é a mais perfeita do género. Teorias imensas, sabedoria questionável mas de lábia admirável. Podemos nunca sequer ter pensado nisso até ao momento em que as lemos, podemos não concordar com elas ou podemos até ter sido de opinião completamente contrária até à altura, mas não lhes ficamos indiferentes e não temos coragem de as refutar. E Oscar Wilde é mel de se ler.





Alguns dias são difíceis, mesmo que sejam lindos como este. Dias em que até a minha própria presença me incomoda. Nestes dias só o chocolate - do tipo certo - funciona. Não gelado, não bolo, não tarte. Chocolate. Depois adiciono ao cenário uma chávena de lúcia-lima, pasmo-me a olhar para as ervas aromáticas na minha varanda, como se os novos rebentos fossem despontar da terra a qualquer momento, ouço isto, leio até que me canse e, por fim, trabalho.



Depois sopa, pão com manteiga e home cinema no seu melhor.
Dormir, passar para outra, acordar e refrescar, ou como quem diz, correr. Depois ir para a nossa inauguração e celebrar.

P.S. Apesar de tudo, consigo ouvir sem qualquer efeito nocivo músicas carregadas de memórias de tempos que ainda agora estavam a ser, prontinhas para despertar em mim o instinto depressivo que tem estado adormecido com muito empenho meu. Bom sinal Catarina, bom sinal. Afinal, é a isso que se chama cura.

a ouvir: Breathe Me - Sia


UPDATE: Meu Deus, o micro-ondas avariou-se.

1.10.12

A Catarina e o queijo - cabra, chèvre, goat, como quiserem chamar-lhe.

Tinha planeado para hoje uma coisa completamente diferente, sobre uma experiência maravilhosa que tive ontem, também ela, completamente diferente. Mas antes que passe mais um mês e este texto fique completamente descontextualizado, aqui o escrevo.

O queijo de cabra é o meu preferido, tenho dito. Eleger qual das suas variedades é a minha preferida já é pedir muito. Mas há qualquer coisa naquele sabor único do leite de cabra que trespassa todas as variedades deste queijo que me fascina. É difícil encontrar algo com que fique mal, seja doce, salgado, picante, quente, frio, carne e fruta. Não ponho as mãos no fogo pela sua combinação com peixe, mas quiçá? Eu não ("çá", ou sei). Só sei que fui muito feliz com ele este Verão, no meio das longas horas de trabalho masoquista. Com ele as ultrapassei e inclusive finalizei o quanto baste (comming soon). E por ele vou tomar a liberdade de fazer algo diferente, para mim e por mim - a verdade é que tudo o que consta neste manifestum não é mais que um registo para me relembrar sempre que necessário, com ou sem as memórias impreterivelmente associadas à altura em que foram escritas- mas também para vocês, porque há coisas, sabores e prazeres que não faz sentido serem desconhecidos a qualquer um que possa ter acesso a eles. Não é preciso dar voltas ao mundo nem esvaziar a carteira por eles. Anda-se 100 metros, gasta-se uma mão cheia de trocos, mexe-se um dedo (ou arranja-se uma boa amiga como eu para mexer o dedo por vocês) e já está.

Tomei como humilde missão enumerar aqui a minha história com o queijo, na expectativa de vir a ser, parte dela, a vossa história com ele. Hoje de cabra, amanhã (como quem diz), outra variedade qualquer.

Por isto tudo mas também porque adoro as fotografias e porque me divirto à brava a fazer isto, eis o início das histórias d'A Catarina e o queijo.



pequeno-almoço depois de correr: torrada de pão de kamut com queijo de cabra curado e melancia. 
Confesso que na altura achava que seria menos salgado que o fresco, ignorando totalmente o "curado", mas essa característica até veio a fazer da sua combinação com a melancia.

~



Não me canso de repetir a experiência que é provar algo da primeira vez, fruto de um rápido improviso, e ser absolutamente maravilhoso. 
Registar: pão alentejano torrado 
+
uma fatia de tomate on one side
pasta de azeitona: uma dúzia de azeitonas muito picadas, um dente de alho picado, pimenta, folhas de dois ramos pequenos de tomilho-limão. Tudo envolto numa pasta, juntando só azeite e sal no fim se for necessário. Leva 5 minutos se tanto. É simples mas os sabores estão lá todos e combinam na perfeição. Pode haver quem não goste do sabor a perfume (palavras do meu irmão) do tomilho-limão. Substituir por orégãos pode ser uma boa opção.
Esta dose só dá para uma vez (digo eu). Para duplicar, triplicar, multiplicar à vontade.

~



Omelete-que-não-é-bem-uma-omelete (mas que sabe igualmente bem, ou melhor até, para quem não gosta do excesso de óleo das ditas): Aquecer um fio de azeite na frigideira. Juntar o talo bem fatiado de um alho-francês pequeno (não se assustem com a quantidade porque diminui num instante). 
Deixar alourar bem e adicionar meia courgette grosseiramente ralada. Temperar com sal e pimenta. Nem quis adicionar nenhuma erva para deixar sobressair ao máximo o sabor do queijo e dos vegetais. 
Tapar e deixar estufar rapidamente até os vegetais estarem cozidos mas ainda com algum crocante. 
Adicionar um ovo batido, espalhando-o sobre os vegetais e terminar com um queijo cabra fresco despedaçado por cima. 
Finalizar com mais uma pitada de pimenta (usei uma mistura em moinho), reduzir o lume ao mínimo, tapar e deixar o ovo assentar e o queijo amolecer e inflar. 
Comer logo!

~



Doce, ácido, amargo e salgado numa salada de Verão:
esparguete integral com figos (não se incomodem em tirar a casca a não ser que esteja em mau estado), chèvre despedaçado, nozes tostadas, rúcula e um vinagrete de balsâmico e hortelã. 

~



Não fica bem uma senhora dizer qual o fenómeno que se ia dando no seu corpo ao dar a primeira dentada nesta sandes, depois de 7 horas sem comer e uma licenciatura acabada de concluir.
Pão de sementes com espinafre, queijo de cabra fresco e cogumelos brancos salteados em azeite, alho, vinho tinto (o rasca serve) e tomilho limão.



a ouvir: A walk - Tycho

27.9.12

Summer "falls", um trocadilho que só funciona em inglês.


Cada vez gosto mais do Outono, cada vez gosto mais da mudança das estações e das suas diferenças, ainda que essas sejam cada vez menos evidentes. Mas há mudanças que não mudam, passo a redundância, e para esta refeição queria fazer era algo como estes dias: com resquícios de um Verão acabado de passar e indícios de um Outono que apetece.

São as águas de Março em Setembro. Promessas de vida, esperanças latentes, cheiros a terra molhada das primeiras chuvas imprevistas. O mundo é feito para os que não se governam com estados permanentes, como eu. É feito de ciclos que prometem o equilíbrio saudável da Espécie. Agora corre-se para aproveitar os restos até à próxima vez: absorvemos com urgência os últimos raios de Sol quente, dá-se os últimos longos passeios sem cachecol pela cidade, aproveita-se as últimas refeições frescas ao ar livre, os últimos eventos a céu aberto disseminados por todo o lado. E eu, enquanto apanho nas costas e no rabo o quente do Sol das primeiras horas da manhã a contrastar com o frio que já se faz sentir, deito a mão às últimas framboesas da época para me vingar das tartes que não fiz e às boas laranjas que começam a aparecer, combinando-as com aromas que evocam tempos frios em casa quente.
E assim foi. Um pequeno festim que por curtas horas apaziguou, ou simplesmente mascarou, pequenos conflitos e acalmou corações revisitando fotografias antigas, memórias de um passado agressivamente presente, de tempos diferentes, para nunca mais repetir, e nós sem saber
o que pensar. Pelo que mais vale assim: comemos, rimos, choramos e voltamos a viver.




Chamem-lhe restos: pão integral com sementes, a perna de pato que sobrou, os agriões que sobraram, os coentros que sobraram e rebentos de soja (que sobraram, mas de outro almoço)
Este pertence À lista.

Aqui deixo um pato, dois acompanhamentos e um remate. Não sei se prefiro a sofisticação do pato com a batata num almoço de familia ou a simplicidade de uma bruta e maravilhosa sandes de pão de cereais, agrião, rebentos de soja e a carne desfiada da perna que sobrou a servir de aconchego numa pausa do trabalho. Para dizer a verdade até sei, mas nao quero influenciar ninguém.
Procurei, procurei e não encontrei qualquer tarte funda com framboesas e chocolate. Ainda assim arrisquei e o resultado está aqui.



Pernas de pato na frigideira com citrinos e especiarias

Devido à complexidade de sabores no pato, a batata doce não leva mais nada a não ser isso mesmo: batata e uma pequena pitada de sal. Na altura de servir basta regar as batatas com uma colher do molho do pato e polvilhar com uma dose de coentros bem picados. O travo amargo agrião faz na minha opinião um balanço perfeito com a doçura da batata e das especiarias, da gordura e intensidade do pato e da subtil acidez do limão. Cuidado com o sal no fim porque o limão em conserva também já acrescenta bastante ao molho.

6 pernas de pato
1 c.sopa cheia de canela
1/2 c.sopa de noz-moscada
sumo de 1 laranja
1 c.sopa de sal, mais a gosto
pimenta preta, q.b

3 batatas doces grandes
3 batatas médias
1 molho de coentros
1 grande molho de agrião

Para preparar a batata, cozê-las todas inteiras e com pele até ficarem totalmente moles, dando quase para retirar a pele posteriormente só com as mãos.
Depois da pele retirada, devolver à panela partida aos pedaços, temperar com um pouco de sal e esmagar grosseiramente com um garfo, para que mantenha ainda alguma textura ao ser mastigada.

Fazer incisões cruzadas (assim: #) na pele do pato e esfregá-la por todo com a canela, noz-moscada e sal. Colocar num saco ou recipiente fundo com metade do sumo da laranja, cerca de 4 colheres de sopa, mais 3 de água e deixar a marinar durante pelo menos 2 horas.
Colocar as pernas do pato com a pele virada para baixo numa frigideira anti-aderente bastante larga já quente, deixar ganhar uma crosta doirada, virar e cozinhar do outro lado, selando a carne na gordura que se vai soltando. Retirar o excesso da gordura para fora, deixando na frigideira um pouco para fazer o molho.
Juntar o resto dos sucos da marinada à panela com o restante sumo da laranja e a polpa do limão em conserva e ajustar o tempero com a pimenta. Misturar e ajustar o lume para que ferva gentilmente durante 20 minutos, ou até o molho obter um aroma forte e consistente e a carne estar bem cozida, mas ainda húmida por dentro de forma a que não fique demasiado seca.
No fim, provar os temperos e servir de imediato com a batata esmagada regada com o molho da frigideira acompanhada de uma mão cheia de agrião.


serve 6




Tarte de framboesas e chocolate negro

A tarte, e isto tenho que assumir, bateu um bocadinho ao lado, pecado de quem não quer abusar no açúcar e ainda assim comete o erro de achar que o chocolate negro compensaria o doce-nada-doce das framboesas. E para cúmulo achar que o ricotta iria igualmente cortar essa doçura e contrabalançar o quente da tarte com uma frescura. Só acertei na frescura. Failed big time. Para a próxima aqui fica: o dobro do açúcar, o dobro do açúcar e nenhum chocolate ou um chocolate mais doce. De qualquer maneira deixo aqui a receita com as doses de açúcar que utilizarei da próxima vez.


250g de farinha de trigo, mais para polvilhar
20g de açúcar em pó
pitada de sal grosso
125g manteiga sem sal, fria e cortada em cubos
1 ovo grande
1 pequeno gole de leite

100-150g de açúcar
375g de framboesas
60g de chocolate negro, partido aos pedaços
18g de farinha

200g de ricotta
2 c.sopa de mel de laranjeira

Para fazer a massa, peneirar a farinha, o açúcar e o sal numa grande tigela. Com a ponta dos dedos, envolver gentilmente os pedaços de manteiga na farinha e açúcar até a mistura ganhar uma textura de migalhas de pão. Adicionar os ovos e o leite à mistura principal e gentilmente envolver tudo, até obter uma bola homogénea. Não trabalhar muito a massa nesta fase – quere-se desfeita e pequena. Polvilhar a massa com um pouco de farinha e embrulhar em película aderente. Reservar no frigorífico durante 1h.
Entretanto envolver num recipiente médio a as framboesas, o açúcar e a farinha.
Envolver por completo o ricotta com o mel, acrecentando mais a gosto, e reservar no frio.
Pré-aquecer o forno a 180ºC. Retirar a massa do frio e Polvilhar a bancada com farinha, cortar a massa ao meio e, com um rolo de massa enfarinhado, espalmar uma das metades até obter 1cm de grossura. Engordurar com manteiga uma base pequena para tartes (metade das normais) e cobrir com a massa. Aparar os excessos com uma faca afiada.
Adicionar a fruta e espalhar por cima os pedaços de chocolate. Cobrir com a segunda metade da massa espalmada, ou em tiras cruzadas ou por completo, fazendo reentrâncias
com uma faca no topo.
Levar a tarte ao forno durante 45-50 minutos ou até obter uma crosta bem dourada e o recheio estar a borbulhar.
Deixar arrefecer uma meia-hora antes de servir, acompanhada com uma colherada da mistura de ricotta com mel.


serve 5


a ouvir: Águas de Março - Elis Regina

23.9.12

sinfonia de uma ode gastronómica




Com isto que vos deixo canta-se com a boca mas ouve-se com o paladar. As minúncias melódicas percorrem a vista inolvidável de uma velha quinta inocentemente trespassada, passando pela luz e temperatura de restos de um Verão ameno que a pele sente, pelos aromas de pinheiro e terra e ar que me assaltam os sentidos e que se conciliam em pleno com os sabores terrenos da noz, do mel, da maçã e claro, do pão, quase como um elixir de componentes escrupulosamente medidos para alcançar a mais perfeita compleição. Isso tudo, e a voz e presença de quem esperou (esperámos!) pacientemente pelo tempo de tudo isto simplesmente ser, acontecer. E não podia ser de outra maneira. Somos melómanos.
Desculpem-me a poesia excessiva, mas tudo isto é poesia.



Focaccia de maçã e noz
adaptada de Nigel Slater

Simples assim, sem mais. Quente ou fria, ao pequeno-almoço, almoço ou quando o corpo precisar. Pouco há de melhor o miolo do pão húmido, embebido no mel, fundido com a textura crocante da noz e da suavidade menina da maçã. Não consigo evitar os rodriguinhos, é simples e boa demais.

450g de farinha
7g de fermento seco para pão
1 c.chá de sal grosso
1 c.sopa de azeite
1 c.sopa de açúcar branco
350ml de água morna

3 maçãs médias Royal Gala
150g de miolo de noz, partidas
75ml de mel
40ml de xarope de agave
2 c.sopa de água

Colocar a farinha e o fermento numa grande tigela, adicionar o sal e misturar.
Juntar o azeite, o açúcar e a água. Envolver completamente e passar a massa para uma base bem enfarinhada. Amassar levemente cerca de 5 minutos. Não vale a pena de todo amassar demasiado e com muita energia.
Assim que a massa ficar elástica e suave colocá-la numa grande taça enfarinhada, cobrir com um pano de cozinha e colocar num lugar morno para que cresça. Quando tiver duplicado de tamanho - cerca de uma hora - pressionar gentilmente com o punho, removendo algum do ar.
Cortar e descaroçar as maçãs (eu não as descasco) em pedaços com cerca de 1-2cm de largura (não é preciso ser metódico!) e amassá-las juntamente com as nozes na massa, deixando algumas para colocar no topo. Colocar a massa dentro de uma forma funda de 28cm para que manter a forma.
Pré-aquecer o forno a 220ºC. Cobrir a massa mais uma vez e colocá-la novamente num lugar morno para crescer quase o dobro, novamente.
Quando estiver crescida, regar com um pequeno fio de azeite e levar ao forno cerca de 35-40minutos até ter crescido bem, e estar num tom dourado intenso no topo. Deverá estar ligeiramente elástica quando pressionada, mas de crosta dura.
Retirar do forno, regar com a mistura do mel e do xarope de agave e deixar que absorva. Deixar arrefecer um pouco antes de refirar da forma e partir grandes pedaços com as mãos.


serve umas 6 a 8 boas doses


a ouvir: Gnossiene no.1 - Erik Satie

11.9.12

Três feijões, nenhuma receita, o tempo, a leveza e a tontice da previdência.

Ultimamente tenho-me confrontado bastante com exemplos que exploram a natureza do homem em querer planear as coisas, ser previdente e tomar todo o tipo de precauções que o levam a crer ter o futuro mais assegurado. É curiosa esta atitude quase estúpida (louca, diria o Einstein) de continuarmos a ter os mesmos comportamentos para que nos tragam algo quando a História já por muitas muitas vezes demonstrou que não é isso que acontece. É uma tontice. É um paradoxo em que, se por um lado somos seres empíricos, acreditando que a experiência leva ao conhecimento e geralmente considerando os mais sábios como os mais experientes e os tomamos como referência, por outro lado seguimos-la - a experiência - cegamente para o bem e para o mal, e ignoramos precisamente aquelas que não podemos ou queremos passar do particular para o geral. Fazemos isso porque o que não planeamos, o que é fruto do acaso ou aquilo que não apreendemos sequer enquanto experiência, acaba por ocupar uma esmagadora parte da nossa vida e temos demasiado medo de nos deixarmos à confiança do inesperado. Tal como Jacques (o de Diderot) diz, a prudência não nos dá garantias de nada a não ser o consolo de que não fomos imprudentes e desculpa-nos dos maus resultados.

Sinto leveza e sensação de missão cumprida, livre para poder dedicar a minha mente ao que lhe apetece, num equilíbrio perfeito entre o que puxa à emoção e o que puxa à razão, entre o necessário e o supérfluo, sem pensar que devia estar a fazer outra coisa. Isso, e o ter tempo são as premissas fundamentais para saborear a vida, porque no fundo é dela que se trata, quer esteja a passar roupa a ferro ou a dar uma caminhada entre a terra e o céu, em Sintra. E maior é o alívio quando compreendo que essa falta de disponibilidade para saborear muitas coisas, de clareza de ideias e de leveza geral, que tanta ansiedade e frustração me causa, deve-se na verdade a essa coisa tão simples e tão matreira que é o tempo. Te-lo nas mãos e não saber o que fazer com ele. Ando, andamos e sempre vamos andar, uns com mais sucesso que outros, com o tempo nas mãos como uma massa de moldar. E é assim, não me apetece prolongar mais a metáfora.

umdoistrêsquatro
um_ Quando eu pensava que sofria de um mal sem nome, afinal ele existe e já escreveram sobre ele.
dois_ É esta uma das minhas ambições, tantas vezes lida e descrita por escritores que me são tão queridos 1 - 23, que é ter a disponibilidade imensa para ver os outros, ser empática, ter um vislumbre de beleza em tudo que encontre.
três_ Não ver mais filmes com o Ryan Gosling antes de dormir.
quatro_ Directo, Completo, Reflectido. Com muito prazer e um muito obrigada.


Cada vez mais tenho sentido a vontade de simplesmente postar aqui umas fotos bonitas e uma breve descrição da coisa. A receita ocupa tempo e paciência e o que eu posso mostrar aqui é o prazer gastronómico que tenho a comer estas coisas. Quantidades e modos de confecção deixo para outros que fazem melhor essa tarefa.

Ultimamente tem sido feijão, pão e queijo.
Para hoje será o feijão. Brevemente o queijo. O pão é sempre.




Grelhei meia beringela pequena até ficar completamente mole e bem marcada e depois esmaguei-a com um garfo juntamente com um dente de alho, uma mão cheia de feijão branco cozido, umas folhas de manjericão frescas, sal, pimenta e um fio de azeite, claro.




Salada de feijão vermelho com aipo - talo e folhas aproveitadas, um bom ramo de salsa picada, nozes tostadas e um molho rápido de parmesão fresco ralado, azeite e limão, inspirado aqui.




Branqueei um molho de feijão verde lindo (na primeira foto dá para ver que não eram bem verdes, mas mudam de cor com o calor) e depois salteei num pouco de óleo com seitan cortado aos pedaços e por fim envolvi num molho rápido de leite de coco, cebola, malagueta, limão e coentros, inspirada uma vez mais neste molho da Heidi Swanson.



a ouvir: Where did all the love go? - Kasabian

6.9.12

you know I don't usually do this.


Não sou fã de cheesecake, mas este é o melhor do mundo (o B e H manhoso stands for Block House,  e só não fotografei o belo bife e a batata assada com sour cream porque a vontade de atacar foi mais forte. Deal with it.)




E outra coisa.




Se calhar é melhor salvaguardar que também não sou fã. De todo. De nenhum deles. A sério. Foi só mesmo pela brincadeira. 

Se calhar é melhor contextualizar: Licenciatura em Design de Comunicação - done.

a ouvir: Esta vida de marinheiro (está a dar cabo de mim, raparaparaparaparaparapari!) - Sitiados (M80 às 21h)