27.9.12

Summer "falls", um trocadilho que só funciona em inglês.


Cada vez gosto mais do Outono, cada vez gosto mais da mudança das estações e das suas diferenças, ainda que essas sejam cada vez menos evidentes. Mas há mudanças que não mudam, passo a redundância, e para esta refeição queria fazer era algo como estes dias: com resquícios de um Verão acabado de passar e indícios de um Outono que apetece.

São as águas de Março em Setembro. Promessas de vida, esperanças latentes, cheiros a terra molhada das primeiras chuvas imprevistas. O mundo é feito para os que não se governam com estados permanentes, como eu. É feito de ciclos que prometem o equilíbrio saudável da Espécie. Agora corre-se para aproveitar os restos até à próxima vez: absorvemos com urgência os últimos raios de Sol quente, dá-se os últimos longos passeios sem cachecol pela cidade, aproveita-se as últimas refeições frescas ao ar livre, os últimos eventos a céu aberto disseminados por todo o lado. E eu, enquanto apanho nas costas e no rabo o quente do Sol das primeiras horas da manhã a contrastar com o frio que já se faz sentir, deito a mão às últimas framboesas da época para me vingar das tartes que não fiz e às boas laranjas que começam a aparecer, combinando-as com aromas que evocam tempos frios em casa quente.
E assim foi. Um pequeno festim que por curtas horas apaziguou, ou simplesmente mascarou, pequenos conflitos e acalmou corações revisitando fotografias antigas, memórias de um passado agressivamente presente, de tempos diferentes, para nunca mais repetir, e nós sem saber
o que pensar. Pelo que mais vale assim: comemos, rimos, choramos e voltamos a viver.




Chamem-lhe restos: pão integral com sementes, a perna de pato que sobrou, os agriões que sobraram, os coentros que sobraram e rebentos de soja (que sobraram, mas de outro almoço)
Este pertence À lista.

Aqui deixo um pato, dois acompanhamentos e um remate. Não sei se prefiro a sofisticação do pato com a batata num almoço de familia ou a simplicidade de uma bruta e maravilhosa sandes de pão de cereais, agrião, rebentos de soja e a carne desfiada da perna que sobrou a servir de aconchego numa pausa do trabalho. Para dizer a verdade até sei, mas nao quero influenciar ninguém.
Procurei, procurei e não encontrei qualquer tarte funda com framboesas e chocolate. Ainda assim arrisquei e o resultado está aqui.



Pernas de pato na frigideira com citrinos e especiarias

Devido à complexidade de sabores no pato, a batata doce não leva mais nada a não ser isso mesmo: batata e uma pequena pitada de sal. Na altura de servir basta regar as batatas com uma colher do molho do pato e polvilhar com uma dose de coentros bem picados. O travo amargo agrião faz na minha opinião um balanço perfeito com a doçura da batata e das especiarias, da gordura e intensidade do pato e da subtil acidez do limão. Cuidado com o sal no fim porque o limão em conserva também já acrescenta bastante ao molho.

6 pernas de pato
1 c.sopa cheia de canela
1/2 c.sopa de noz-moscada
sumo de 1 laranja
1 c.sopa de sal, mais a gosto
pimenta preta, q.b

3 batatas doces grandes
3 batatas médias
1 molho de coentros
1 grande molho de agrião

Para preparar a batata, cozê-las todas inteiras e com pele até ficarem totalmente moles, dando quase para retirar a pele posteriormente só com as mãos.
Depois da pele retirada, devolver à panela partida aos pedaços, temperar com um pouco de sal e esmagar grosseiramente com um garfo, para que mantenha ainda alguma textura ao ser mastigada.

Fazer incisões cruzadas (assim: #) na pele do pato e esfregá-la por todo com a canela, noz-moscada e sal. Colocar num saco ou recipiente fundo com metade do sumo da laranja, cerca de 4 colheres de sopa, mais 3 de água e deixar a marinar durante pelo menos 2 horas.
Colocar as pernas do pato com a pele virada para baixo numa frigideira anti-aderente bastante larga já quente, deixar ganhar uma crosta doirada, virar e cozinhar do outro lado, selando a carne na gordura que se vai soltando. Retirar o excesso da gordura para fora, deixando na frigideira um pouco para fazer o molho.
Juntar o resto dos sucos da marinada à panela com o restante sumo da laranja e a polpa do limão em conserva e ajustar o tempero com a pimenta. Misturar e ajustar o lume para que ferva gentilmente durante 20 minutos, ou até o molho obter um aroma forte e consistente e a carne estar bem cozida, mas ainda húmida por dentro de forma a que não fique demasiado seca.
No fim, provar os temperos e servir de imediato com a batata esmagada regada com o molho da frigideira acompanhada de uma mão cheia de agrião.


serve 6




Tarte de framboesas e chocolate negro

A tarte, e isto tenho que assumir, bateu um bocadinho ao lado, pecado de quem não quer abusar no açúcar e ainda assim comete o erro de achar que o chocolate negro compensaria o doce-nada-doce das framboesas. E para cúmulo achar que o ricotta iria igualmente cortar essa doçura e contrabalançar o quente da tarte com uma frescura. Só acertei na frescura. Failed big time. Para a próxima aqui fica: o dobro do açúcar, o dobro do açúcar e nenhum chocolate ou um chocolate mais doce. De qualquer maneira deixo aqui a receita com as doses de açúcar que utilizarei da próxima vez.


250g de farinha de trigo, mais para polvilhar
20g de açúcar em pó
pitada de sal grosso
125g manteiga sem sal, fria e cortada em cubos
1 ovo grande
1 pequeno gole de leite

100-150g de açúcar
375g de framboesas
60g de chocolate negro, partido aos pedaços
18g de farinha

200g de ricotta
2 c.sopa de mel de laranjeira

Para fazer a massa, peneirar a farinha, o açúcar e o sal numa grande tigela. Com a ponta dos dedos, envolver gentilmente os pedaços de manteiga na farinha e açúcar até a mistura ganhar uma textura de migalhas de pão. Adicionar os ovos e o leite à mistura principal e gentilmente envolver tudo, até obter uma bola homogénea. Não trabalhar muito a massa nesta fase – quere-se desfeita e pequena. Polvilhar a massa com um pouco de farinha e embrulhar em película aderente. Reservar no frigorífico durante 1h.
Entretanto envolver num recipiente médio a as framboesas, o açúcar e a farinha.
Envolver por completo o ricotta com o mel, acrecentando mais a gosto, e reservar no frio.
Pré-aquecer o forno a 180ºC. Retirar a massa do frio e Polvilhar a bancada com farinha, cortar a massa ao meio e, com um rolo de massa enfarinhado, espalmar uma das metades até obter 1cm de grossura. Engordurar com manteiga uma base pequena para tartes (metade das normais) e cobrir com a massa. Aparar os excessos com uma faca afiada.
Adicionar a fruta e espalhar por cima os pedaços de chocolate. Cobrir com a segunda metade da massa espalmada, ou em tiras cruzadas ou por completo, fazendo reentrâncias
com uma faca no topo.
Levar a tarte ao forno durante 45-50 minutos ou até obter uma crosta bem dourada e o recheio estar a borbulhar.
Deixar arrefecer uma meia-hora antes de servir, acompanhada com uma colherada da mistura de ricotta com mel.


serve 5


a ouvir: Águas de Março - Elis Regina

23.9.12

sinfonia de uma ode gastronómica




Com isto que vos deixo canta-se com a boca mas ouve-se com o paladar. As minúncias melódicas percorrem a vista inolvidável de uma velha quinta inocentemente trespassada, passando pela luz e temperatura de restos de um Verão ameno que a pele sente, pelos aromas de pinheiro e terra e ar que me assaltam os sentidos e que se conciliam em pleno com os sabores terrenos da noz, do mel, da maçã e claro, do pão, quase como um elixir de componentes escrupulosamente medidos para alcançar a mais perfeita compleição. Isso tudo, e a voz e presença de quem esperou (esperámos!) pacientemente pelo tempo de tudo isto simplesmente ser, acontecer. E não podia ser de outra maneira. Somos melómanos.
Desculpem-me a poesia excessiva, mas tudo isto é poesia.



Focaccia de maçã e noz
adaptada de Nigel Slater

Simples assim, sem mais. Quente ou fria, ao pequeno-almoço, almoço ou quando o corpo precisar. Pouco há de melhor o miolo do pão húmido, embebido no mel, fundido com a textura crocante da noz e da suavidade menina da maçã. Não consigo evitar os rodriguinhos, é simples e boa demais.

450g de farinha
7g de fermento seco para pão
1 c.chá de sal grosso
1 c.sopa de azeite
1 c.sopa de açúcar branco
350ml de água morna

3 maçãs médias Royal Gala
150g de miolo de noz, partidas
75ml de mel
40ml de xarope de agave
2 c.sopa de água

Colocar a farinha e o fermento numa grande tigela, adicionar o sal e misturar.
Juntar o azeite, o açúcar e a água. Envolver completamente e passar a massa para uma base bem enfarinhada. Amassar levemente cerca de 5 minutos. Não vale a pena de todo amassar demasiado e com muita energia.
Assim que a massa ficar elástica e suave colocá-la numa grande taça enfarinhada, cobrir com um pano de cozinha e colocar num lugar morno para que cresça. Quando tiver duplicado de tamanho - cerca de uma hora - pressionar gentilmente com o punho, removendo algum do ar.
Cortar e descaroçar as maçãs (eu não as descasco) em pedaços com cerca de 1-2cm de largura (não é preciso ser metódico!) e amassá-las juntamente com as nozes na massa, deixando algumas para colocar no topo. Colocar a massa dentro de uma forma funda de 28cm para que manter a forma.
Pré-aquecer o forno a 220ºC. Cobrir a massa mais uma vez e colocá-la novamente num lugar morno para crescer quase o dobro, novamente.
Quando estiver crescida, regar com um pequeno fio de azeite e levar ao forno cerca de 35-40minutos até ter crescido bem, e estar num tom dourado intenso no topo. Deverá estar ligeiramente elástica quando pressionada, mas de crosta dura.
Retirar do forno, regar com a mistura do mel e do xarope de agave e deixar que absorva. Deixar arrefecer um pouco antes de refirar da forma e partir grandes pedaços com as mãos.


serve umas 6 a 8 boas doses


a ouvir: Gnossiene no.1 - Erik Satie

11.9.12

Três feijões, nenhuma receita, o tempo, a leveza e a tontice da previdência.

Ultimamente tenho-me confrontado bastante com exemplos que exploram a natureza do homem em querer planear as coisas, ser previdente e tomar todo o tipo de precauções que o levam a crer ter o futuro mais assegurado. É curiosa esta atitude quase estúpida (louca, diria o Einstein) de continuarmos a ter os mesmos comportamentos para que nos tragam algo quando a História já por muitas muitas vezes demonstrou que não é isso que acontece. É uma tontice. É um paradoxo em que, se por um lado somos seres empíricos, acreditando que a experiência leva ao conhecimento e geralmente considerando os mais sábios como os mais experientes e os tomamos como referência, por outro lado seguimos-la - a experiência - cegamente para o bem e para o mal, e ignoramos precisamente aquelas que não podemos ou queremos passar do particular para o geral. Fazemos isso porque o que não planeamos, o que é fruto do acaso ou aquilo que não apreendemos sequer enquanto experiência, acaba por ocupar uma esmagadora parte da nossa vida e temos demasiado medo de nos deixarmos à confiança do inesperado. Tal como Jacques (o de Diderot) diz, a prudência não nos dá garantias de nada a não ser o consolo de que não fomos imprudentes e desculpa-nos dos maus resultados.

Sinto leveza e sensação de missão cumprida, livre para poder dedicar a minha mente ao que lhe apetece, num equilíbrio perfeito entre o que puxa à emoção e o que puxa à razão, entre o necessário e o supérfluo, sem pensar que devia estar a fazer outra coisa. Isso, e o ter tempo são as premissas fundamentais para saborear a vida, porque no fundo é dela que se trata, quer esteja a passar roupa a ferro ou a dar uma caminhada entre a terra e o céu, em Sintra. E maior é o alívio quando compreendo que essa falta de disponibilidade para saborear muitas coisas, de clareza de ideias e de leveza geral, que tanta ansiedade e frustração me causa, deve-se na verdade a essa coisa tão simples e tão matreira que é o tempo. Te-lo nas mãos e não saber o que fazer com ele. Ando, andamos e sempre vamos andar, uns com mais sucesso que outros, com o tempo nas mãos como uma massa de moldar. E é assim, não me apetece prolongar mais a metáfora.

umdoistrêsquatro
um_ Quando eu pensava que sofria de um mal sem nome, afinal ele existe e já escreveram sobre ele.
dois_ É esta uma das minhas ambições, tantas vezes lida e descrita por escritores que me são tão queridos 1 - 23, que é ter a disponibilidade imensa para ver os outros, ser empática, ter um vislumbre de beleza em tudo que encontre.
três_ Não ver mais filmes com o Ryan Gosling antes de dormir.
quatro_ Directo, Completo, Reflectido. Com muito prazer e um muito obrigada.


Cada vez mais tenho sentido a vontade de simplesmente postar aqui umas fotos bonitas e uma breve descrição da coisa. A receita ocupa tempo e paciência e o que eu posso mostrar aqui é o prazer gastronómico que tenho a comer estas coisas. Quantidades e modos de confecção deixo para outros que fazem melhor essa tarefa.

Ultimamente tem sido feijão, pão e queijo.
Para hoje será o feijão. Brevemente o queijo. O pão é sempre.




Grelhei meia beringela pequena até ficar completamente mole e bem marcada e depois esmaguei-a com um garfo juntamente com um dente de alho, uma mão cheia de feijão branco cozido, umas folhas de manjericão frescas, sal, pimenta e um fio de azeite, claro.




Salada de feijão vermelho com aipo - talo e folhas aproveitadas, um bom ramo de salsa picada, nozes tostadas e um molho rápido de parmesão fresco ralado, azeite e limão, inspirado aqui.




Branqueei um molho de feijão verde lindo (na primeira foto dá para ver que não eram bem verdes, mas mudam de cor com o calor) e depois salteei num pouco de óleo com seitan cortado aos pedaços e por fim envolvi num molho rápido de leite de coco, cebola, malagueta, limão e coentros, inspirada uma vez mais neste molho da Heidi Swanson.



a ouvir: Where did all the love go? - Kasabian

6.9.12

you know I don't usually do this.


Não sou fã de cheesecake, mas este é o melhor do mundo (o B e H manhoso stands for Block House,  e só não fotografei o belo bife e a batata assada com sour cream porque a vontade de atacar foi mais forte. Deal with it.)




E outra coisa.




Se calhar é melhor salvaguardar que também não sou fã. De todo. De nenhum deles. A sério. Foi só mesmo pela brincadeira. 

Se calhar é melhor contextualizar: Licenciatura em Design de Comunicação - done.

a ouvir: Esta vida de marinheiro (está a dar cabo de mim, raparaparaparaparaparapari!) - Sitiados (M80 às 21h)



29.8.12

Tomates e casulos

Tomates e casulos. Em. No casulo. Eu no casulo. Nunca passei por uma experiência como estas duas - a ir para três - semanas. Encasulada com o rabo na cadeira a olhar para o computador, para o ecrã, para o computador novamente, para a estrada e sinais vermelhos das Avenidas Novas, com uma miserável hora de corrida, doses absurdas de café e chá preto, a diária esfrega de Momengel no pescoço e uma ou outra pontual ajuda de Valdispert para quando não se consegue dormir ou para atenuar crises de ansiedade como, por exemplo, um choro compulsivo (mas discreto) depois de correr desalmadamente para apanhar o comboio e perdê-lo por um fio. Quando pensamos que já demos o litro, o melhor é pensar outra vez. O baton é só para disfarçar. E o bicho que se está a formar dentro deste casulo não é daquelas bonitas que se espera que poisem no nosso dedo -apesar de achar que isso é mais um mito urbano que outra coisa -, é daquelas feias, do género das do bicho da seda. As pernas começam a ganhar uma textura lgeiramente áspera, bem como outras partes do corpo, a minha voz adquire o tom envergonhado de quem acorda por não emitir quase nenhum som durante o dia inteiro a não ser que cante, os pequeninos músculos, ganhos com tanta dedicação, vão murchando tristemente e as unhas, apercebi-me agora que olho para a caneta, ganharam dimensões pouco recomendáveis na mão direita e formas estranhas em alguns dedos da mão esquerda - sina da mão que agarra na cebola e no alho enquanto que a outra, de faca afiada, a manuseia inexperiente.

Cozinhar, apenas um cheirinho diário, só para manter a sanidade em dia porque o apetite, pela primeira vez, não existe. Assim sendo, encaro como mais um problema de design e arranjo espaço na minha cabeça para pensar na melhor maneira de aproveitar os quilos de tomates que temos em casa.*

O pior, o perverso, é de sentir que alguém, algures, me julgará ao saber que, apesar de tudo, ainda tenho mão na cozinha, e que o meu dia ainda tem três ou quatro momentos de prazer (ou parcial, uma vez que, pontualmente, frequentemente vá, como (verbo comer) a pensar em sistemas de cor, grelhas, tabelas sazonais e design: esta coisa que é a minha praga, a minha paixão, a minha panela de pressão.



Valham-me então os tomates, -cereja, negros da Crimeia, coração-de-boi, chucha, regulares, e os morangos, os pequenos e aromáticos morangos que parecem ter sido borrifados com aquelas águas de colónia para crianças, tal é a intensidade do seu cheiro e sabor. E agora vão já duas doses de coisas boas porque não sei se vou ter animae para voltar a escrever aqui brevemente. Ambas as receitas abundam e tomates, diversos tipos deles, não (apenas) pelo impacto visual que dá ao prato, mas porque os tomates tem muito que se lhe digam, e cada qual tem o seu sabor e textura únicos, mais ou menos doces, mais ou menos duros, mais ou menos carnudos. Para mim vale totalmente a pena brincar e descobrir as diferenças.

* Ou tínhamos, porque quando escrevi este texto, há uma semana, ainda havia. Só não há é ânimo, paciência, disposição, tempo para passar pelo processo de fazer mais uma entrada aqui: transcrever, relembrar a receita, passar fotos, arranjar fotos et al.




































Salada de Tomate e Morangos com Pistou de noz, hortelã e manjericão
300g de morangos, cortados, dependendo do tamanho
300g de tomates diversos, cortados a gosto
2 punhados de rúcula
80g de pão de centeio de véspera
80g de pão de trigo de véspera
azeite, sal e pimenta q.b
2 queijos frescos de ovelha pequenos, cortados aos cubos
2 colheradas de pistou de noz, hortelã e manjericão

2 dentes de alho, picados grosseiramente
1 c.chá de sal
1/2 cháv. de nozes aos pedaços
80ml (1/3 cháv.) de sumo de limão
1 cháv. de folhas de manjericão
1/3 cháv. folhas de hortelã
80ml (1/3 cháv.) de azeite
2 dentes de alho, muito picados
pimenta e/ou piri-piri, a gosto

Pistou
Colocar num almofariz o alho, o sal, as nozes e o sumo de limão, esmagando até formar uma mistura mais ou menos consistente, como preferirem. Pessoalmente gosto de sentir ainda pedaçinhos de nozes, sem ficar muito pastoso.
Adicionar as folhas do manjericão, da hortelã e o azeite, moendo novamente até ficar tudo ligado.
Adicionar pimenta e piri-piri a gosto e envolver tudo.

Cortar o pão aos cubos pequenos (1,5-2cm), colocar numa tigela com o alho picado e regar com um fio de azeite, sal e pimenta. Envolver bem com as mãos, colocar numa frigideira quente e tostar todos até ficarem bem dourados e começarem a libertar aquele aroma maravilhoso.
Dividir por dois pratos individuais os morangos, os tomates,a rúcula e os croutons e os queijos frescos.
Juntar uma colherada de pistou a cada prato, envolver tudo e comer no momento.

serve 2 (o pistou ainda dá para 4)



Tomates assados com quinoa
tomates inspirados na receita de Heidi Swanson, em 101 Cookbooks

Foi o meu jantar e almoço consecutivos. Tomates assados frios sabem muito bem, é só o que tenho a dizer. E para algo diferente, o açúcar vale mesmo a pena. 
1,2kg de tomates variados (usei uma mistura de negro da Crimeia, coração de boi, cereja e San Marzano) - metade são para assar, metade para comer crús

60ml de azeite
2 c.chá de açúcar amarelo
sal grosso, q.b
1 c.sopa de alecrim fresco, picado
1 c.sopa de raspa de limão

2 c.sopa de pinhões
1 c.sopa de alcaparras
1 cháv. de quinoa, passada por água corrente
sal q.b
azeite q.b

Pré-aquecer o forno a 175ºC com a prateleira no topo.
Colocar metade dos tomates numa só camada num tabuleiro de forno, inteiros, cortados em metades ou quartos, dependendo do tamanho. Envolver com o azeite, o açúcar, umas pitadas de sal, alecrim e a raspa de limão. Levar ao forno durante 60 minutos, ou até começarem a caramelizar e a ficar tostados nas bordas. Retirar do forno e deixar arrefecer.
Entretanto cozer a quinoa com um pouco de sal em duas chávenas de água a ferver durante 15 minutos, ou até a quinoa estar cozida, solta e a água ter sido absorvida.
Tostar os pinhões numa frigideira seca e saltear as alcaparras num fio de azeite.
Dividir a quinoa por dois pratos de servir, dividir os tomates, crús e assados, pelos pratos. Temperar com os sucos que ficaram no tabuleiro dos tomates e mais sal e um fio de azeite se for necessário. Cobrir com os pinhões, as alcaparras e servir, frio ou morno, as you wish.

serve 2 (os tomates até que servem bem 4, mas eu comi-os todos)


























a ouvir:  Brian Jonestown Massacre - Anemone


15.8.12

Principe Real, physalis, vegetarianos e o melhor dos amigos




































Apesar de ser hábito recente, arrisco-me a substituir um tímido "tenho ido" por um convicto "vou" ao mercado do Principe Real semanalmente. O cesto de verga que já me quardou mil merendas em criança, acompanhou-me em piqueniques e transportou um pequeno gato serve agora para o manjericão generoso, folhas de alface, maravilhosos damascos e os belos e absolutamente gulosos tomates coração de boi que como como quem come maçãs, assegurando que sobrevivem sem quaisquer mazelas, pisadelas ou murchadelas na viagem de volta, indo para a mesa, ou directamente para a boca, tão bonitos como quando lhes peguei. As escolhas mais resistentes e robustas vão debaixo do braço, no velho saco de pano que já começa a ganhar cheiro de algo que cumpre fielmente a sua função, seja para o pão, iogurtes, queijo, fruta ou vegetais.
Comecei pela banca do fundo - sim, a do Poial - sempre das primeiras a ser montada e, convenientemente das que me dá maior prazer deixar uns trocos, tomando a liberdade de levar de lá sempre algo diferente, imprevisível. Decido deixar de parte os tomates-cereja que tinha em mente para umas tartines de requeijão e tomates assados que planeei fazer para uma festa cheia de frango assado e paradoxalmente cheia de gente que não deita o dente a animais e pego em dois saquinhos de papel kraft cheios de tomatillos, mais conhecidos por physalis (e. philadelphica) por estas bandas, com a espectativa de fazer o melhor dos petiscos para o melhor dos amigos.



Uma pasta de tomates, coentros, cebola e pimento empilhada lâminas crocantes de tortillas caseiras faz magia. Findas as tortillas - as doze que fiz foram-se depressa - "limpou-se" a tigela com pão.



Salsa verde mexicana
Não coloco aqui a receita das tortillas porque não é tem mesmo nada que saber nem nada que adaptar. A única coisa útil é saber que quanto mais finas forem desenroladas mais crocantes ficam quando foram cozidas e como tal, muito mais agradáveis de trincar. 
Os tomatillos são um fruto bastante peculiar, e o seu formato e sabor crú lembram claramente um cruzamento entre o tomate e o pimento (que é também da familia do tomate). Guardei uns poucos para brincar com eles e ver no que dá. 
Quando preparei todos os ingredientes utilizei cerca de 2/3 para esta receita e juntei um pouco de abacate ao restante, piquei muito bem à semelhança deste tipo de salada para um almoço rápido, enrolado num wrap ou servido com arroz e gambas.

14 tomatillos
3 dentes de alho
1 pimento verde pequeno
1 cebola média
1/2 c.chá de malagueta em pó
sumo de 1/2 lima
10g (cerca de 1 chávena) de coentros, picados
sal e pimenta q.b

Retirar a casca dos tomatillos e lavá-los muito bem. Cortá-los ao pedaços e colocar numa liquidificadora.
Descascar os dentes de alho e juntar ao tomatillos. Abrir o pimento, retirar as sementes, cortar aos pedaços e adicionar à liquidificadora.
Descascar a cebola, cortar grosseiramente e juntar ao restantes ingredientes.
Adicionar os restantes ingredientes, tendo cuidado com a quantidade de sal e processar tudo até adquirir a consistência desejada (gosto do meu ainda com alguma consistência, mas bem passado). Provar, corrigir os temperos e os coentros se for necessário e processar novamente.
Colocar no frigorífico pelo menos uma hora para se servir bem fresco e dar tempos aos sabores para se fundirem.





































a ouvir: Will You Be Ready - Deep Forest

9.8.12

Pontos altos de um dia baixo


Muesli simples com iogurte e damascos.



Isto, deitar-me na relva da Gulbenkian, e esta frase, para justificar o porquê de ir para a cama às 22h.



Finish each day and be done with it. You have done what you could. Some blunders and absurdities no doubt crept in; forget them as soon as you can. Tomorrow is a new day; begin it well and serenely and with too high a spirit to be encumbered with your old nonsense.

Ralph Waldo Emerson


Mais das minha "polpa "aqui.



a ouvir: Owner of a Lonely Heart - Grizzly Bear

4.8.12

"Almôndegas" é um termo bastante depreciativo do que se passa neste prato.

Vai-se andando a bom andar. Não é num arrastar de pés, que não aquece nem arrefece, de quem não está bem nem deixa de estar, de quem sente um desconforto constante como quando temos o cinto ou os sapatos demasiado apertados. Vai-se andando muito bem, como quando temos calçados os sapatos ideais (a tentação de fazer publicidade é grande mas vou-me abster) ou quando andamos leves e sem computador, carregador do computador, livros, comida e garrafa de água - tudo ao mesmo tempo - às costas.
Vai-se comendo muito bem, também. Perguntam-me se tenho cozinhado. Páro para pensar no que sentido dessa pergunta. Eu simplesmente cozinho todos os dias, quer por vontade, vício ou necessidade... Mas sim, há dias em que faço algo mais, provavelmente o cozinhar a que se referem na dita questão.

A vontade do especial pode vir de qualquer lugar: de comida a roçar o limite da validade ou uma quantidade abusiva de fruta a entrar no limbo entre a maturidade e a podridão, de fortes desejos por um alimento sazonal, da minha incapacidade de não me aborrecer a comer sempre a mesma coisa, da vontade de exercitar a criatividade fora do ecrã do computador, por os ossos do ofício assim o obrigarem ou, como é o caso destas "almôndegas", por uma receita que é simplesmente atraente e sedutora (ou o seu autor que o é!).




















Os ossos do ofício a que me refiro acima: receita original do Gomes Sá, com direito a bacalhau comprado seco no Ramalho - O Rei do Bacalhau.

Nos entretantos vai-se trabalhando, com alguns ataques de ansiedade pelo meio, ideias brilhantes que rapidamente tendo a refutar por uma certa falta de confiança, gerando mais ansiedade, sonho com cailles en sarchophage (avançar minuto 8:10), aprendo o Código, derreto-me com este vídeo, vejo a melhor série desde há já largos tempos e outra para adormecer os neurónios mas que sabe bem, vou-me assando lentamente até ficar "no ponto, ter um tom dourado e crocante" e como diariamente ao pequeno-almoço o que o Sagmeister aprendeu até agora. Gosto especialmente desta. Complaining is silly, either act or forget.

Sempre que faço algo do Ottolenghi mesmerizo-me (adoro esta palavra) com o sabor final. Nunca sei o que esperar da mistura de ingredientes e método de confecção a não ser a certeza de que o resultado será no mínimo fantástico e surpreendente. Esta é a terceira da sua autoria (se bem que uma delas é uma ligeira versão de um clássico da cozinha do Médio Oriente) e cada uma é melhor que a outra.





































Almôndegas de vaca com aipo e limão
ligeiramente adaptado de Yottam Ottolenghi, Beef meatballs with lemon and celeriac

O melhor a fazer nesta receita, na opinião de alguém que tem alguma dificuldade em cozinhar sobre pressão, é ter a maior parte dos ingredientes preparados, medidos e prontos a utilizar, nomeadamente as especiarias. Depois é só juntar na altura respectiva.
A única alteração alteração que fiz foi substituir a raíz de aipo pelos talos, porque era o que tinha. O sabor fresco final do limão dá um toque vibrante e a erva-doce é para mim o elemento mais surpreendente, que vem a baralhar completamente os sentidos. Aconselho vivamente o iogurte no fim. De resto, nada mais a acrescentar, a não ser precisamente que eu não alteraria uma única coisa na receita. No dia seguinte, recheando uma pita ou enroladas numa tortilha, estas almôndegas sabem ainda melhor.

400g carne de vaca picada
1 cebola média, descascada e picada finamente
120g de pão ralado
20g de folhas de salsa, mais 1 c.sopa extra para o final
1 ovo, batido
1/2 c.chá de pimenta da jamaica moída
sal e pimenta preta
2 c.sopa de azeite
6 talos de aipo, fatiados
3 dentes de alho, descascados e esmagados
1/2 c.chá de açafrão
1/2 c.chá de cominhos moídos
1/2 c.chá de canela
1 1/2 c.chá de sementes de erva-doce, tostadas e ligeiramente moídas
3/4 c.chá de pimentão-doce moído
500ml de caldo de galinha, ou um cubo e a mesma quantidade de água
3 1/2 c.chá de sumo de limão (dá cerca de 1 1/2 limões)
60g de iogurte natural

Numa grande tigela, misturar os primeiros seis ingredientes, meia colher de chá de sal e um pouco de pimenta. Criar pequenas bolas em formato kebab (tipo bolas de rugby) com cerca de 3x5cm.
Aquecer o azeite numa frigideira grande que tenha tampa e selar as almôndegas por todo cerca de 5 minutos no total. Retirá-las e adicionar o aipo, o alho e as restantes especiarias. Saltear em lume alto, mexendo por dois minutos.
De seguida adicionar as almôndegas novamente com o caldo, o sumo de limão e mais meia colher de chá de sal e pimenta preta. Levantar fervura, baixar o lume, tapar e deixar a cozer cerca de 30 minutos. De seguida destapar e deixar a borbulhar a lume brando mais 10 minutos, até o molho ter engrossado substancialmente.
Retirar a frigideira do lume e deixar assentar uns minutos, para incorporar os sabores. Provar, ajustar o tempero se for necessário e servir com uma colherada de iogurte e salsa fresca picada.

serve 4


a ouvir: Little Black Submarines - Black Keys

24.7.12

A beleza não está nos olhos de quem vê




Os olhos abertos devem fazer-nos sentir mais seguros. É lógico, é essa uma das suas principais funções. Apesar disso é quando os fecho que a segurança verdadeiramente aparece e o medo se desvanece. Fecho-os muito para ver melhor também. De olhos fechados sou só eu e o que ouço e sinto sem a bengala enganadora do olhar que tantas vezes ilude, reclamando o estatuto do menos falível dos sentidos. Os olhos enganam pois. Olhares cruzados podem ser mal interpretados, uma flor menos bonita pode esbater o interesse em sentir o seu perfume, um mau design pode destruir um bom livro, um bolo de ar tosco e pouco atractivo pode não estar á altura da beleza do seu sabor (porque a beleza encontra-se em todos os sentidos).


Não fosse esta receita ser de quem é e eu confesso que muito provavelmente este bolo me passaria ao lado ou ficaria perdido no meio de tantos outros por onde passo os olhos ocasionalmente. No entanto, não só admiro o seu autor como o fui encontrar aqui, o que é logo à partida um bom presságio. Não me saiu da cabeça desde então, esperando pacientemente a enchente anual de ameixas da minha avó para dar asas ao meu desejo.

Os ingleses tem uma palavra para descrever a característica essencial e imediata deste bolo que até agora não encontrei o seu equivalente no nosso vocabulário: gooey.

goo·ey/ˈgo͞oē/

Não é só a palavra em si, é a maneira como soa. É como se a palavra fosse ao mesmo tempo significado e a sua própria interjeição. Mole, peganhento ou viscoso não chegam para definir a textura deste bolo, que é um pouco disso tudo mas também guloso, húmido e absolutamente saboroso. Sem dúvida no meu top de preferência.


Bolo de ameixas
retirado de Orangette, adaptado de Nigel Slatter, Tender, Volume II

O facto de ter três tipos de açúcares (sem contar com as ameixas) e dois deles líquidos é sem dúvida fundamental para a sua textura final e para o seu sabor intenso. Apesar de ser apologista das adaptações dos ingredientes sempre que necessário, neste bolo acho fundamental manter a receita fiel à original, principalmente no que diz respeito ao Golden Syrup (à venda por 3€ e tal no El Corte Inglés), que alteraria substancialmente não só o sabor mas também a sua textura.

250g de farinha 
1 c.chá ligeiramente mal medida de fermento em pó
1 c.chá de bicarbonato de sódio
1 c.chá ligeiramente mal medida de canela em pó
200g de golden syrup
2 c.sopa de mel
125g de manteiga
125g de açúcar de cana integral ou açúcar amarelo
2 ovos grandes
240ml de leite
350g de ameixas maduras, descaroçadas e cortadas ao meio ou em quartos (depende do seu tamanho)

Engordurar um uma forma para bolos de 24cm e forrar a base com papel vegetal. Eu deixo um bocado do papel de fora para ser mais fácil passar o bolo da forma para uma base depois de feito.
Numa grande tigela, combinar a farinha, o fermento, o bicarbonato e a canela. Misturar tudo muito bem (costumo misturar os ingredientes secos num tupperware, colocar a tampa e agitar).
Pré-aquecer o forno a 180ºC.
Colocar o golden syrup, o mel, e a manteiga numa panela a lume médio, mexendo ocasionalmente. Quando a manteiga estiver derretida acrescentar o açúcar. Retirar a panela do lume e deixar arrefecer um pouco durante 1-2 minutos.
Bater os ovos e o leite numa tigela média.
Verter a mistura do golden syrup na mistura da farinha e envolver com uma colher firme (a colher de pau é perfeita) até ficarem combinados. Verter a mistura dos ovos e do leite e continuar a envolver - inicialmente vai ser difícil e demorado misturar as duas partes, mas no fim a massa vai adquirir uma consistência bastante solta e líquida, quase sem nenhum vestígio da farinha, como se fosse massa para panquecas.
Colocar a massa na forma e colocar as ameixas por cima, que se irão afundar. Levar ao forno por 45-50 minutos (na receita original diz para levar durante 35 minutos, colocar um pedaço de folha de alumínio por cima e deixar no forno mais 10-15 minutos, mas eu preferi deixá-lo escurecer.) Desligar o forno e deixar lá o bolo mais uns 15-20 minutos.
Transferir para uma grelha para arrefecer durante uns 20 minutos. Depois retirar o bolo da forma e transferi-lo para cima da grelha para deixar arrefecer completamente antes de ser servido.

Este bolo conserva-se perfeitamente à temperatura ambiente, e por ser tão incrivelmente húmido, é preferível não o tapar de maneira muito apertada, porque pode ficar com uma textura elástica. Desde que se coma dentro de 2 ou 3 dias, um pedaço de papel vegetal pressionado contra as superdícies cortadas é o suficiente.

serve 8-10.


a ouvir: Need You Now - Cut Copy

19.7.12

depois de correr


batido de leite e cereja.

Acordar às 7 para correr. Depois das 10 o calor já não se aguenta.
Há uma grande ciência, por vezes duvidosa, no que diz respeito à alimentação pré e pós exercício, deixem-me que vos diga.


p.s. serei eu a única pessoa a não achar piada nenhuma à ideia de um gelado de pastel de nata?? Então e o crocante da massa? E a textura do creme? E o aroma quente que nos entra pelas entranhas?