29.8.12

Tomates e casulos

Tomates e casulos. Em. No casulo. Eu no casulo. Nunca passei por uma experiência como estas duas - a ir para três - semanas. Encasulada com o rabo na cadeira a olhar para o computador, para o ecrã, para o computador novamente, para a estrada e sinais vermelhos das Avenidas Novas, com uma miserável hora de corrida, doses absurdas de café e chá preto, a diária esfrega de Momengel no pescoço e uma ou outra pontual ajuda de Valdispert para quando não se consegue dormir ou para atenuar crises de ansiedade como, por exemplo, um choro compulsivo (mas discreto) depois de correr desalmadamente para apanhar o comboio e perdê-lo por um fio. Quando pensamos que já demos o litro, o melhor é pensar outra vez. O baton é só para disfarçar. E o bicho que se está a formar dentro deste casulo não é daquelas bonitas que se espera que poisem no nosso dedo -apesar de achar que isso é mais um mito urbano que outra coisa -, é daquelas feias, do género das do bicho da seda. As pernas começam a ganhar uma textura lgeiramente áspera, bem como outras partes do corpo, a minha voz adquire o tom envergonhado de quem acorda por não emitir quase nenhum som durante o dia inteiro a não ser que cante, os pequeninos músculos, ganhos com tanta dedicação, vão murchando tristemente e as unhas, apercebi-me agora que olho para a caneta, ganharam dimensões pouco recomendáveis na mão direita e formas estranhas em alguns dedos da mão esquerda - sina da mão que agarra na cebola e no alho enquanto que a outra, de faca afiada, a manuseia inexperiente.

Cozinhar, apenas um cheirinho diário, só para manter a sanidade em dia porque o apetite, pela primeira vez, não existe. Assim sendo, encaro como mais um problema de design e arranjo espaço na minha cabeça para pensar na melhor maneira de aproveitar os quilos de tomates que temos em casa.*

O pior, o perverso, é de sentir que alguém, algures, me julgará ao saber que, apesar de tudo, ainda tenho mão na cozinha, e que o meu dia ainda tem três ou quatro momentos de prazer (ou parcial, uma vez que, pontualmente, frequentemente vá, como (verbo comer) a pensar em sistemas de cor, grelhas, tabelas sazonais e design: esta coisa que é a minha praga, a minha paixão, a minha panela de pressão.



Valham-me então os tomates, -cereja, negros da Crimeia, coração-de-boi, chucha, regulares, e os morangos, os pequenos e aromáticos morangos que parecem ter sido borrifados com aquelas águas de colónia para crianças, tal é a intensidade do seu cheiro e sabor. E agora vão já duas doses de coisas boas porque não sei se vou ter animae para voltar a escrever aqui brevemente. Ambas as receitas abundam e tomates, diversos tipos deles, não (apenas) pelo impacto visual que dá ao prato, mas porque os tomates tem muito que se lhe digam, e cada qual tem o seu sabor e textura únicos, mais ou menos doces, mais ou menos duros, mais ou menos carnudos. Para mim vale totalmente a pena brincar e descobrir as diferenças.

* Ou tínhamos, porque quando escrevi este texto, há uma semana, ainda havia. Só não há é ânimo, paciência, disposição, tempo para passar pelo processo de fazer mais uma entrada aqui: transcrever, relembrar a receita, passar fotos, arranjar fotos et al.




































Salada de Tomate e Morangos com Pistou de noz, hortelã e manjericão
300g de morangos, cortados, dependendo do tamanho
300g de tomates diversos, cortados a gosto
2 punhados de rúcula
80g de pão de centeio de véspera
80g de pão de trigo de véspera
azeite, sal e pimenta q.b
2 queijos frescos de ovelha pequenos, cortados aos cubos
2 colheradas de pistou de noz, hortelã e manjericão

2 dentes de alho, picados grosseiramente
1 c.chá de sal
1/2 cháv. de nozes aos pedaços
80ml (1/3 cháv.) de sumo de limão
1 cháv. de folhas de manjericão
1/3 cháv. folhas de hortelã
80ml (1/3 cháv.) de azeite
2 dentes de alho, muito picados
pimenta e/ou piri-piri, a gosto

Pistou
Colocar num almofariz o alho, o sal, as nozes e o sumo de limão, esmagando até formar uma mistura mais ou menos consistente, como preferirem. Pessoalmente gosto de sentir ainda pedaçinhos de nozes, sem ficar muito pastoso.
Adicionar as folhas do manjericão, da hortelã e o azeite, moendo novamente até ficar tudo ligado.
Adicionar pimenta e piri-piri a gosto e envolver tudo.

Cortar o pão aos cubos pequenos (1,5-2cm), colocar numa tigela com o alho picado e regar com um fio de azeite, sal e pimenta. Envolver bem com as mãos, colocar numa frigideira quente e tostar todos até ficarem bem dourados e começarem a libertar aquele aroma maravilhoso.
Dividir por dois pratos individuais os morangos, os tomates,a rúcula e os croutons e os queijos frescos.
Juntar uma colherada de pistou a cada prato, envolver tudo e comer no momento.

serve 2 (o pistou ainda dá para 4)



Tomates assados com quinoa
tomates inspirados na receita de Heidi Swanson, em 101 Cookbooks

Foi o meu jantar e almoço consecutivos. Tomates assados frios sabem muito bem, é só o que tenho a dizer. E para algo diferente, o açúcar vale mesmo a pena. 
1,2kg de tomates variados (usei uma mistura de negro da Crimeia, coração de boi, cereja e San Marzano) - metade são para assar, metade para comer crús

60ml de azeite
2 c.chá de açúcar amarelo
sal grosso, q.b
1 c.sopa de alecrim fresco, picado
1 c.sopa de raspa de limão

2 c.sopa de pinhões
1 c.sopa de alcaparras
1 cháv. de quinoa, passada por água corrente
sal q.b
azeite q.b

Pré-aquecer o forno a 175ºC com a prateleira no topo.
Colocar metade dos tomates numa só camada num tabuleiro de forno, inteiros, cortados em metades ou quartos, dependendo do tamanho. Envolver com o azeite, o açúcar, umas pitadas de sal, alecrim e a raspa de limão. Levar ao forno durante 60 minutos, ou até começarem a caramelizar e a ficar tostados nas bordas. Retirar do forno e deixar arrefecer.
Entretanto cozer a quinoa com um pouco de sal em duas chávenas de água a ferver durante 15 minutos, ou até a quinoa estar cozida, solta e a água ter sido absorvida.
Tostar os pinhões numa frigideira seca e saltear as alcaparras num fio de azeite.
Dividir a quinoa por dois pratos de servir, dividir os tomates, crús e assados, pelos pratos. Temperar com os sucos que ficaram no tabuleiro dos tomates e mais sal e um fio de azeite se for necessário. Cobrir com os pinhões, as alcaparras e servir, frio ou morno, as you wish.

serve 2 (os tomates até que servem bem 4, mas eu comi-os todos)


























a ouvir:  Brian Jonestown Massacre - Anemone


15.8.12

Principe Real, physalis, vegetarianos e o melhor dos amigos




































Apesar de ser hábito recente, arrisco-me a substituir um tímido "tenho ido" por um convicto "vou" ao mercado do Principe Real semanalmente. O cesto de verga que já me quardou mil merendas em criança, acompanhou-me em piqueniques e transportou um pequeno gato serve agora para o manjericão generoso, folhas de alface, maravilhosos damascos e os belos e absolutamente gulosos tomates coração de boi que como como quem come maçãs, assegurando que sobrevivem sem quaisquer mazelas, pisadelas ou murchadelas na viagem de volta, indo para a mesa, ou directamente para a boca, tão bonitos como quando lhes peguei. As escolhas mais resistentes e robustas vão debaixo do braço, no velho saco de pano que já começa a ganhar cheiro de algo que cumpre fielmente a sua função, seja para o pão, iogurtes, queijo, fruta ou vegetais.
Comecei pela banca do fundo - sim, a do Poial - sempre das primeiras a ser montada e, convenientemente das que me dá maior prazer deixar uns trocos, tomando a liberdade de levar de lá sempre algo diferente, imprevisível. Decido deixar de parte os tomates-cereja que tinha em mente para umas tartines de requeijão e tomates assados que planeei fazer para uma festa cheia de frango assado e paradoxalmente cheia de gente que não deita o dente a animais e pego em dois saquinhos de papel kraft cheios de tomatillos, mais conhecidos por physalis (e. philadelphica) por estas bandas, com a espectativa de fazer o melhor dos petiscos para o melhor dos amigos.



Uma pasta de tomates, coentros, cebola e pimento empilhada lâminas crocantes de tortillas caseiras faz magia. Findas as tortillas - as doze que fiz foram-se depressa - "limpou-se" a tigela com pão.



Salsa verde mexicana
Não coloco aqui a receita das tortillas porque não é tem mesmo nada que saber nem nada que adaptar. A única coisa útil é saber que quanto mais finas forem desenroladas mais crocantes ficam quando foram cozidas e como tal, muito mais agradáveis de trincar. 
Os tomatillos são um fruto bastante peculiar, e o seu formato e sabor crú lembram claramente um cruzamento entre o tomate e o pimento (que é também da familia do tomate). Guardei uns poucos para brincar com eles e ver no que dá. 
Quando preparei todos os ingredientes utilizei cerca de 2/3 para esta receita e juntei um pouco de abacate ao restante, piquei muito bem à semelhança deste tipo de salada para um almoço rápido, enrolado num wrap ou servido com arroz e gambas.

14 tomatillos
3 dentes de alho
1 pimento verde pequeno
1 cebola média
1/2 c.chá de malagueta em pó
sumo de 1/2 lima
10g (cerca de 1 chávena) de coentros, picados
sal e pimenta q.b

Retirar a casca dos tomatillos e lavá-los muito bem. Cortá-los ao pedaços e colocar numa liquidificadora.
Descascar os dentes de alho e juntar ao tomatillos. Abrir o pimento, retirar as sementes, cortar aos pedaços e adicionar à liquidificadora.
Descascar a cebola, cortar grosseiramente e juntar ao restantes ingredientes.
Adicionar os restantes ingredientes, tendo cuidado com a quantidade de sal e processar tudo até adquirir a consistência desejada (gosto do meu ainda com alguma consistência, mas bem passado). Provar, corrigir os temperos e os coentros se for necessário e processar novamente.
Colocar no frigorífico pelo menos uma hora para se servir bem fresco e dar tempos aos sabores para se fundirem.





































a ouvir: Will You Be Ready - Deep Forest

9.8.12

Pontos altos de um dia baixo


Muesli simples com iogurte e damascos.



Isto, deitar-me na relva da Gulbenkian, e esta frase, para justificar o porquê de ir para a cama às 22h.



Finish each day and be done with it. You have done what you could. Some blunders and absurdities no doubt crept in; forget them as soon as you can. Tomorrow is a new day; begin it well and serenely and with too high a spirit to be encumbered with your old nonsense.

Ralph Waldo Emerson


Mais das minha "polpa "aqui.



a ouvir: Owner of a Lonely Heart - Grizzly Bear

4.8.12

"Almôndegas" é um termo bastante depreciativo do que se passa neste prato.

Vai-se andando a bom andar. Não é num arrastar de pés, que não aquece nem arrefece, de quem não está bem nem deixa de estar, de quem sente um desconforto constante como quando temos o cinto ou os sapatos demasiado apertados. Vai-se andando muito bem, como quando temos calçados os sapatos ideais (a tentação de fazer publicidade é grande mas vou-me abster) ou quando andamos leves e sem computador, carregador do computador, livros, comida e garrafa de água - tudo ao mesmo tempo - às costas.
Vai-se comendo muito bem, também. Perguntam-me se tenho cozinhado. Páro para pensar no que sentido dessa pergunta. Eu simplesmente cozinho todos os dias, quer por vontade, vício ou necessidade... Mas sim, há dias em que faço algo mais, provavelmente o cozinhar a que se referem na dita questão.

A vontade do especial pode vir de qualquer lugar: de comida a roçar o limite da validade ou uma quantidade abusiva de fruta a entrar no limbo entre a maturidade e a podridão, de fortes desejos por um alimento sazonal, da minha incapacidade de não me aborrecer a comer sempre a mesma coisa, da vontade de exercitar a criatividade fora do ecrã do computador, por os ossos do ofício assim o obrigarem ou, como é o caso destas "almôndegas", por uma receita que é simplesmente atraente e sedutora (ou o seu autor que o é!).




















Os ossos do ofício a que me refiro acima: receita original do Gomes Sá, com direito a bacalhau comprado seco no Ramalho - O Rei do Bacalhau.

Nos entretantos vai-se trabalhando, com alguns ataques de ansiedade pelo meio, ideias brilhantes que rapidamente tendo a refutar por uma certa falta de confiança, gerando mais ansiedade, sonho com cailles en sarchophage (avançar minuto 8:10), aprendo o Código, derreto-me com este vídeo, vejo a melhor série desde há já largos tempos e outra para adormecer os neurónios mas que sabe bem, vou-me assando lentamente até ficar "no ponto, ter um tom dourado e crocante" e como diariamente ao pequeno-almoço o que o Sagmeister aprendeu até agora. Gosto especialmente desta. Complaining is silly, either act or forget.

Sempre que faço algo do Ottolenghi mesmerizo-me (adoro esta palavra) com o sabor final. Nunca sei o que esperar da mistura de ingredientes e método de confecção a não ser a certeza de que o resultado será no mínimo fantástico e surpreendente. Esta é a terceira da sua autoria (se bem que uma delas é uma ligeira versão de um clássico da cozinha do Médio Oriente) e cada uma é melhor que a outra.





































Almôndegas de vaca com aipo e limão
ligeiramente adaptado de Yottam Ottolenghi, Beef meatballs with lemon and celeriac

O melhor a fazer nesta receita, na opinião de alguém que tem alguma dificuldade em cozinhar sobre pressão, é ter a maior parte dos ingredientes preparados, medidos e prontos a utilizar, nomeadamente as especiarias. Depois é só juntar na altura respectiva.
A única alteração alteração que fiz foi substituir a raíz de aipo pelos talos, porque era o que tinha. O sabor fresco final do limão dá um toque vibrante e a erva-doce é para mim o elemento mais surpreendente, que vem a baralhar completamente os sentidos. Aconselho vivamente o iogurte no fim. De resto, nada mais a acrescentar, a não ser precisamente que eu não alteraria uma única coisa na receita. No dia seguinte, recheando uma pita ou enroladas numa tortilha, estas almôndegas sabem ainda melhor.

400g carne de vaca picada
1 cebola média, descascada e picada finamente
120g de pão ralado
20g de folhas de salsa, mais 1 c.sopa extra para o final
1 ovo, batido
1/2 c.chá de pimenta da jamaica moída
sal e pimenta preta
2 c.sopa de azeite
6 talos de aipo, fatiados
3 dentes de alho, descascados e esmagados
1/2 c.chá de açafrão
1/2 c.chá de cominhos moídos
1/2 c.chá de canela
1 1/2 c.chá de sementes de erva-doce, tostadas e ligeiramente moídas
3/4 c.chá de pimentão-doce moído
500ml de caldo de galinha, ou um cubo e a mesma quantidade de água
3 1/2 c.chá de sumo de limão (dá cerca de 1 1/2 limões)
60g de iogurte natural

Numa grande tigela, misturar os primeiros seis ingredientes, meia colher de chá de sal e um pouco de pimenta. Criar pequenas bolas em formato kebab (tipo bolas de rugby) com cerca de 3x5cm.
Aquecer o azeite numa frigideira grande que tenha tampa e selar as almôndegas por todo cerca de 5 minutos no total. Retirá-las e adicionar o aipo, o alho e as restantes especiarias. Saltear em lume alto, mexendo por dois minutos.
De seguida adicionar as almôndegas novamente com o caldo, o sumo de limão e mais meia colher de chá de sal e pimenta preta. Levantar fervura, baixar o lume, tapar e deixar a cozer cerca de 30 minutos. De seguida destapar e deixar a borbulhar a lume brando mais 10 minutos, até o molho ter engrossado substancialmente.
Retirar a frigideira do lume e deixar assentar uns minutos, para incorporar os sabores. Provar, ajustar o tempero se for necessário e servir com uma colherada de iogurte e salsa fresca picada.

serve 4


a ouvir: Little Black Submarines - Black Keys

24.7.12

A beleza não está nos olhos de quem vê




Os olhos abertos devem fazer-nos sentir mais seguros. É lógico, é essa uma das suas principais funções. Apesar disso é quando os fecho que a segurança verdadeiramente aparece e o medo se desvanece. Fecho-os muito para ver melhor também. De olhos fechados sou só eu e o que ouço e sinto sem a bengala enganadora do olhar que tantas vezes ilude, reclamando o estatuto do menos falível dos sentidos. Os olhos enganam pois. Olhares cruzados podem ser mal interpretados, uma flor menos bonita pode esbater o interesse em sentir o seu perfume, um mau design pode destruir um bom livro, um bolo de ar tosco e pouco atractivo pode não estar á altura da beleza do seu sabor (porque a beleza encontra-se em todos os sentidos).


Não fosse esta receita ser de quem é e eu confesso que muito provavelmente este bolo me passaria ao lado ou ficaria perdido no meio de tantos outros por onde passo os olhos ocasionalmente. No entanto, não só admiro o seu autor como o fui encontrar aqui, o que é logo à partida um bom presságio. Não me saiu da cabeça desde então, esperando pacientemente a enchente anual de ameixas da minha avó para dar asas ao meu desejo.

Os ingleses tem uma palavra para descrever a característica essencial e imediata deste bolo que até agora não encontrei o seu equivalente no nosso vocabulário: gooey.

goo·ey/ˈgo͞oē/

Não é só a palavra em si, é a maneira como soa. É como se a palavra fosse ao mesmo tempo significado e a sua própria interjeição. Mole, peganhento ou viscoso não chegam para definir a textura deste bolo, que é um pouco disso tudo mas também guloso, húmido e absolutamente saboroso. Sem dúvida no meu top de preferência.


Bolo de ameixas
retirado de Orangette, adaptado de Nigel Slatter, Tender, Volume II

O facto de ter três tipos de açúcares (sem contar com as ameixas) e dois deles líquidos é sem dúvida fundamental para a sua textura final e para o seu sabor intenso. Apesar de ser apologista das adaptações dos ingredientes sempre que necessário, neste bolo acho fundamental manter a receita fiel à original, principalmente no que diz respeito ao Golden Syrup (à venda por 3€ e tal no El Corte Inglés), que alteraria substancialmente não só o sabor mas também a sua textura.

250g de farinha 
1 c.chá ligeiramente mal medida de fermento em pó
1 c.chá de bicarbonato de sódio
1 c.chá ligeiramente mal medida de canela em pó
200g de golden syrup
2 c.sopa de mel
125g de manteiga
125g de açúcar de cana integral ou açúcar amarelo
2 ovos grandes
240ml de leite
350g de ameixas maduras, descaroçadas e cortadas ao meio ou em quartos (depende do seu tamanho)

Engordurar um uma forma para bolos de 24cm e forrar a base com papel vegetal. Eu deixo um bocado do papel de fora para ser mais fácil passar o bolo da forma para uma base depois de feito.
Numa grande tigela, combinar a farinha, o fermento, o bicarbonato e a canela. Misturar tudo muito bem (costumo misturar os ingredientes secos num tupperware, colocar a tampa e agitar).
Pré-aquecer o forno a 180ºC.
Colocar o golden syrup, o mel, e a manteiga numa panela a lume médio, mexendo ocasionalmente. Quando a manteiga estiver derretida acrescentar o açúcar. Retirar a panela do lume e deixar arrefecer um pouco durante 1-2 minutos.
Bater os ovos e o leite numa tigela média.
Verter a mistura do golden syrup na mistura da farinha e envolver com uma colher firme (a colher de pau é perfeita) até ficarem combinados. Verter a mistura dos ovos e do leite e continuar a envolver - inicialmente vai ser difícil e demorado misturar as duas partes, mas no fim a massa vai adquirir uma consistência bastante solta e líquida, quase sem nenhum vestígio da farinha, como se fosse massa para panquecas.
Colocar a massa na forma e colocar as ameixas por cima, que se irão afundar. Levar ao forno por 45-50 minutos (na receita original diz para levar durante 35 minutos, colocar um pedaço de folha de alumínio por cima e deixar no forno mais 10-15 minutos, mas eu preferi deixá-lo escurecer.) Desligar o forno e deixar lá o bolo mais uns 15-20 minutos.
Transferir para uma grelha para arrefecer durante uns 20 minutos. Depois retirar o bolo da forma e transferi-lo para cima da grelha para deixar arrefecer completamente antes de ser servido.

Este bolo conserva-se perfeitamente à temperatura ambiente, e por ser tão incrivelmente húmido, é preferível não o tapar de maneira muito apertada, porque pode ficar com uma textura elástica. Desde que se coma dentro de 2 ou 3 dias, um pedaço de papel vegetal pressionado contra as superdícies cortadas é o suficiente.

serve 8-10.


a ouvir: Need You Now - Cut Copy

19.7.12

depois de correr


batido de leite e cereja.

Acordar às 7 para correr. Depois das 10 o calor já não se aguenta.
Há uma grande ciência, por vezes duvidosa, no que diz respeito à alimentação pré e pós exercício, deixem-me que vos diga.


p.s. serei eu a única pessoa a não achar piada nenhuma à ideia de um gelado de pastel de nata?? Então e o crocante da massa? E a textura do creme? E o aroma quente que nos entra pelas entranhas? 

16.7.12

Afirmações, confirmações, uma questão e outras constatações





















- Tudo sabe melhor quando é partilhado, ainda que seja apenas o registo de uma experiência a só.
- Usamos a palavra saturação para para descrever precisamente aquilo que perde cor aos
ossos olhos.
- Os dois males do mundo que garantem o equilibrio como utopia são a ganância e a tolerância.
- Tenho o terrível hábito de sobrecarregar com a minha "bagagem" todos os lugares frescos e novos que encontro. Deixo-lhes a minha marca como fazem os cães e depois, como já fazem parte de mim, a não ser que a eles recorra com muita parcimónia, farto-me deles. Em boa verdade, estou destinada ao nomadismo.
- A natureza humana não é intrinsecamente boa ou má, por isso é natureza. É o que é.
- Interesse é quando a paixão por algo prevalece sobre as ansiedades, aflições e descontrolos de natureza física ou emocional que o objecto em questão possa trazer. É quando nasce algo antes de se tornar moda e que se mantém depois da moda passar.














- Adoro grandes reuniões de familia, o Alentejo e as duas coisas juntas, apesar de saber que em grande parte é por raramente acontecerem.
- Os músculos contraídos tornam tudo mais difícil, até pensar.
- Esta é a melhor revista que já li nos últimos tempos. E a Revista do Expresso é uma Lux disfarçada.
- Não suporto radicalismos.
- Correr sabe bem ao som deles.
- By believing passionately in something that still does not exist, we create it. The nonexistent is whatever we have not sufficiently desired. Kafka. Esta e muitas outras aqui.
- Um dia gostava de traduzir um livro ou mais. Há qualquer coisa de relaxante no acto de traduzir e de desafiante, como um quebra-cabeças ou palavras-cruzadas: a busca da palavra que faz o encaixe perfeito na frase, na língua, no contexto da estória e da história do seu autor.
- Agora percebo bem. Cozinhar para mim não tem a ver com prestígio, com novidade ou invenção ou com o belo. Tem a ver com sabor, prazer e partilha. Quando a comida funciona é porque serve. É porque satisfaz o gosto, sustenta o corpo, reconforta o espirito e alegra os demais presentes. Não vivo para comer, mas certamente odeio a noção contrária. É o mesmo que dizer que que durmo para viver ou faço desporto para viver ou trabalho para viver! Se não se tira prazer daquilo que é fundamental à nossa condição, what's the point? Vive-se para viver. Viver é também dormir, trabalhar e comer, tudo nas doses que nos dão prazer. Desequilíbrios, amigos, vão existir sempre mas para isso temos a nossa consciência. Por isso escolham os vossos e sejam felizes.
- As provas físicas que cartografam os lugares da nossa memória poderiam muito bem ser nossas como de outros. Poderiam mesmo anteceder à memória em si. As palavras que escrevo sobre um lugar tem a capacidade de se encaixar na boca de outros. Muito interessante este trabalho da Inês.
- Por entre todas as novidades e pseudo-novidades que nascem como cogumelos em Lisboa (é prestar um bocadinho de atenção e ver que muitos deles já fecharam ou estam a fechar), este eu aconselho vivamente.

- Não tenho fotografia para esta receita, e a bom ver, preciso (precisamos) mesmo dela? Não revelaria nada que a imaginação não consegue construir, nem sequer daria uma fotografia especialmente bonita - é um prato tosco que provavelmente só iria perder valor e gerar desinteresse a quem a visse. Digo-vos o que precisam de saber: que é bom, simples, fácil e diferente da massada de peixe para despachar que fazemos num dia de semana.


Penne com pescada em creme de cenoura e coentros
Esta é daquelas receitas de massa que não tem mal nenhum a massa ficar demasiado cozida. Na minha opinião até prefiro assim, porque dá a sensação que absorveu melhor os sabores. O louro pode ser também triturado com os legumes porque não se vai sentir. Só não adicionar camarão porque não tinha, porque de certeza que iria dar um gostinho especial. E lulas ou chocos no lugar do peixe também não é mal pensado. 

4 postas de pescada
3 cenouras médias, às rodelas
1 cebola grande, picada
2 dentes de alho, picados
2 folhas de louro
1 fio de azeite
150ml de vinho branco 
sal e pimenta, q.b
280g de penne, macarrão ou orzo
1 molho de coentros, picados

Cozer as postas de pescada numa panela e reservar.
Colocar a cenoura, a cebola, o alho, o louro e o azeite numa panela e aloirar. Adicionar o vinho para refrescar durante 5 minutos, e acrescentar água da cozedura da pescada, pelo menos 200ml. Acrescentar mais se entretanto a água tiver evaporado. Quando os legumes tiverem cozidos, passar tudo, mantendo alguma consistência para que não fique um creme totalmente liso se preferirem. Temperar com sal e pimenta, envolver bem, provar e corrigir o tempero se for preciso.
Enquanto os legumes cozem. Cozer a massa no resto da água da cozedura da pescada com bastante sal.
Entretanto despedaçar as postas de pescada, separar da espinha e adicionar ao creme da cenoura. Reservar.
Quando a massa estiver quase al dente, adicionar ao creme de cenoura e à pescada com um pouco de água para liquidificar o creme ao vosso gosto e para acabar de cozer a massa. Envolver tudo e deixar os sabores apurar.
Adicionar os coentros picados e servir bem quente.


serve 4



a ouvir: Summertime - Miles Davis

8.7.12

O lado saudável de uma festa de estudantes

Festas. Boas festas. Sal, gordura, açúcar, alcool, alguns sumos e coisas menos graves pelo meio e já está. Esta surpreendeu-me com queijo de seia amanteigado e chouriça e linguiça assada. Mal por mal, gosto de acreditar que a minha perdição foi amenizada pelo trio de coisas saudáveis que ficou à minha responsabilidade e pelos morangos maravilhosos que levaram, pelo alcool não ingerido, pelos passos de dança e corrida de meia hora e caminhada de duas no dia seguinte. Tudo feito com muito gosto, obrigada.

Para quem disse "Desta vez estou de folga" o resultado não foi propriamente os amendoins salgados e algumas minis que planeei levar inicialmente. É mas forte que eu. Quero dar mais, ser mais, ser diferente. Deixar na memória aquela festa em que havia mais qualquer coisa para além do costume nem que seja a apenas duas ou três pessoas já vale a pena. Nem que seja só para mim.
Para agradar a todos fui ao Médio-oriente, ao Alentejo e a outro sítio entre a salsa mexicana e os sabores vietnamitas.
As provas foram feitas em casa pelos meus fiéis provadores e após difícil eleição do melhor, não levei um, levei os três.




































Salada de gaspacho
Esta não é a versão original. O tomate não é esmagado, não acrescentei água e deixei de fora o pão para que pudessem acompanhar com a salada apenas no momento. O molho é de ensopar o pão, comer e chorar por mais.

4 dentes de alho, finamente picados
1 c.sopa de sal grosso
3 tomates maduros de tamanho médio
1 pimento verde pequeno
1/2 pepino
4 c.sopa de azeite
4 c.sopa de vinagre
orégãos secos

Num almofariz, esmagar o alho com o sal até fazer uma pasta. Colocar numa taça larga e reservar.
Cortar os tomates em pedaços pequenos e outros maiores e adicionar à taça.
Cortar o pimento às tiras, o pimento aos cubos pequenos e acrescentar à taça.
Adicionar o azeite, o vinagre, uma boa quantidade de orégãos e envolver tudo com as mãos.
Colocar no frigorífico durante 30-60 minutos e servir bem fresco.


Salada de abacaxi e pimento com molho de lima e gengibre

4 rodelas grossas de abacaxi
1 cebola
1 pimento verde
1 pedaço de gengibre de 4cm
1/2 c.sopa de azeite
sumo de 1/2 lima
2 c.chá de molho de soja
1 c.chá de molho de peixe
1 pitada de piri-piri
1 molho de coentros picados (cerca de 14 pés)

Grelhar as rodelas de abacaxi dos dois lados até ficarem marcadas e caramelizadas.
Entretanto picar a cebola e cortar o pimento em pedaços pequenos. Colocar numa taça larga e reservar.
Quando o ananás estiver arrefecido juntar à tigela do pimento e da cebola juntamente com o sucos libertados.
Num frasco pequeno, juntar a gengibre ralada, o azeite, o sumo de lima, os molhos de soja e peixe, o piri-piri e um pouco de sal. Tapar o frasco e agitar bem até ficar emulsionado. Com a ajuda de um escoador, verter o molho para outro frasco e espremer o gengibre que ficar no escoador para libertar todos os sucos. Guardar o molho e temperar a salada na hora de servir, guarnecida com os coentros.


Baba ganoush com feta
Não consigo perceber qual a versão original deste clássico da cozinha levantina, mas decidi manter as coisas simples e não acrescentar nenhuma especiaria ou ervas frescas como cominhos ou salsa, apesar de ter a certeza que iriam ser óptimas alternativas. Convém que os dentes de alho sejam pequenos, caso contrário fica uma pasta bastante ácida - por essa razão foi imperativo adicionar o feta para dar um toque fresco à mistura. A combinação é perfeita. Apesar de tudo, esqueci-me completamente de adicionar o limão, pelo que acredito que isso também iria fazer a diferença na força do sabor do alho. Descobri que envolver com uma boa pratada de esparguete, sem feta e com umas folhas de manjericão faz igualmente um prato fantástico e o sabor do alho fica super amenizado. 

1 beringela grande
2 dentes de alho
1/2 limão pequeno
1 1/2 c.sopa de tahini
2 c.sopa de azeite
sal e pimenta q.b
queijo feta, para servir

Cortar a beringela longitudinalmente, picar a pele com um garfo e grelhar numa grelha quente
até a pele ficar preta e a polpa muito mole.
Raspar a polpa da carne e picar com os dois dentes de alho esmagados, o sumo de 1/2 limão, e o resto dos ingredientes. Provar e rectificar o tempero e servir numa travessa ampla com um fio de azeite por cima e um pedaço de feta esfarelado por toda a superfície. Acompanhar com pão pita tostado, naan ou tostas para desenrascar.



a ouvir: Look at Where We Are - Hot Chip

4.7.12

Manhã cinzenta

Apaixonada por isto



Torrada de manteiga de girassol com canela e baunilha, manga e chá preto.


a ouvir: White Blank Page - Mumford & Sons

3.7.12

lord help me 'cause the beach is a beach.

Gosto de praia com conta peso e medida. Isto é, adoro apanhar Sol sem fazer absolutamente nada, adoro dar mergulhos e nadar mesmo que nos breves segundos iniciais o gelo da água me faça perder a respiração, gosto de jogar raquetes, gosto de ouvir conversas das toalhas vizinhas ("holla como estas? Pois jo estoy bien, mejor que tu no?heheh" ou "Mãe castiga a Zezinha que ela perdeu 1,10€ do troco na areia!", ou "oi soi doisa liv ericksen...") correr e dar caminhadas, pensar no que vou fazer no próximo grande jantar, eventualmente em projectos (isto porque quem corre por gosto não cansa (espero)), na morte da bezerra ou não pensar em absolutamente nada - mas quanto baste. Regra geral, a não ser que circunstâncias extraordinárias o exijam, três horas chegam-me bem e olhem lá. Prefiro ir de manhã porque o dia está fresco como roupa branca lavada.
Na minha jornada de duas horas de transporte de regresso a casa planeio confiante (e esfomeada) o que fazer para almoçar e a ordem de trabalhos para o resto do dia. Pois entre o deve e o haver vai uma grande diferença, e a preguiça é de longe o pior dos meus pecados. Para preparar o almoço ainda se encontra envergonhada, mas de barriga satisfeita e banho tomado revela-se em todo o seu esplendor.

Para não variar continuo a sentir que de alguma forma tenho de me desculpar por aquilo que por vezes aqui coloco roçar a simplicidade extrema e de original tem pouco ou nada. Mas para não variar e por mais foleiro que soe, este manifesto não é sobre comida, é sobre mim. Em boa verdade, todos os blogues pessoais são incontornavelmente sobre quem o escreve e ninguém que se expõe declaradamente se vai desculpar daquilo que é.

Hoje era isto que queria e que me soube bem comó caraças. (Uso muito esta expressão, mas vê-la escrita fica feio...)




































Tortilla de queijo de cabra, fiambre, vegetais e manjericão
O queijo que usei é da marca Santiago e adorei ainda mais que o chévre, que apesar do sabor semelhante é mais suave e tem uma textura igual ao nosso requeijão, que prefiro pela sua frescura à cremosidade do queijo francês.

1 tortilha média
130g de queijo de cabra fresco (usei 1 embalagem)
1 fatia fina de fiambre da pá
1/4 de pimento verde
1 tomate chucha pequeno (ou outro que tiverem à mão desde que esteja maduro)
1 ramo de manjericão, apenas as folhas
vinagre balsâmico q.b
azeite q.b
sal  e pimenta q.b

Cortar o pimento em tiras muito finas, temperar um umas pedrinhas de sal e grelhar a lume alto até ficarem chamuscadas e moles. Remover e reservar.
Cortar o fiambre em tiras finas (cerca de 2cm), o tomate às rodelas finas (0,5cm) e reservar.
Retirar o queijo da embalagem e escorrer bem o soro para não ensopar a tortilha e reservar também.
Na mesma grelha colocar a tortilha durante 1 minuto, ou o suficiente até ficar tostada. Virar do outro lado e cobrir com o queijo desfeito, seguido das tiras de fiambre, tomate, pimento e por último as folhas de manjericão. Regar com um fio de azeite e vinagre balsâmico, temperar com pimenta e um bocadinho de sal e servir de imediato.

serve 1


a ouvir: Motion Sickness - Hot Chip