27.6.12

Estava eu a fazer gaspacho quando tive uma ideia



Então e se eu lançar uma fanzine daqui do sítio?


Salada de gaspacho e couscous e isto em repeat. Grande misturada, eu sei. Sou bastante ecléctica.

26.6.12

Uma tarte cheia de um quilo de nada

Chegados a meados de Junho, as nêsperas, as ameixas e os pêssegos invadem esta casa. A pequena área que constitui o quintal da minha avó é um pequeno oásis no discreto, cuja aparente anarquia estrutural ilude aqueles que ainda não provaram as suas maravilhas sagradas, desde a fruta de Verão, passando pela lúcia-lima que cresce incessantemente ao lado da hortelã e dos poejos e claro, das majestosas nozes que mais parecem pequenos côcos.



Por cá gostamos de nêsperas, mas tudo o que é em demasia também cansa. Como por sua vez, as tartes são sempre em moderação, a combinação pareceu-me ideal, se bem que pouco tempo depois lembrei-me que um clafoutis também não cairia nada mal. A ver vamos com as ameixas. Depois de ter descascado e descaroçado 1 quilo delas, não cheguei a esvaziar nem um terço da caixa que as contém (ver imagem acima).

Depois é só estufar na panela com um bocadinho de açúcar e baunilha, rechear a massa que de tosca só tem a aparência, pincelar, polvilhar, forno e já está. O pior é resistir trincar a massa deliciosamente estaladiça, daquelas que faz toque-toque quando se bate com o dedo, assim que sai do forno. Mas com uma bola de gelado, vale a pena esperar.
















Galette de Nêsperas
receita da massa da galette de Chez Pim

Arrisco a dizer que a tarte só fica a ganhar com mais um quilo de nêsperas, uma vez que depois de descascadas e descaroçadas ficam reduzidas a metade. Com o dobro da quantidade a mesma dose de massa fica mais recheada, com uma proporção mais equilibrada e serve à vontade o dobro das pessoas.
Experimentei colocar um ramo grande de erva-cidreira para fazer uma infusão com as nêsperas mas não me parece ter tido grande efeito. 
O limão foi mais para impedir que a cor da fruta escurecesse, por isso não me parece que seja fundamental. Se não utilizarem não ponham tanto açúcar, pelo menos numa fase inicial.
O ovo pincelado no fundo da base é fundamental para criar uma camada de protecção contra a humidade do recheio e para garantir que a massa fica estaladiça.
Por falar em massa, a receita que utilizei faz uma massa folhada fantástica, apesar de não ser absolutamente necessária para esta tarte. Para uma base com uma consistência mais crocante a minha escolha vai sempre para esta.


125g de farinha
112,5g de manteiga fria com sal
30ml de água fria
1 ovo batido
açúcar mascavado


1kg de nêsperas
2-4 c. sopa de açúcar
1 vagem de baunilha
sumo de 1/2 limão, opcional
1 ramo de erva cidreira, opcional
50ml de água


Para fazer a massa é importante antes de mais que as mãos estejam frias. Colocar a farinha num monte sobre a bancada, juntar a manteiga cortada em pedaços grandes, cobrindo-os por inteiro de farinha.
Pressionar a manteiga na farinha com o calcanhar da mão esquerda enquanto a direita agarra um raspador, utilizando-o para juntar constantemente a farinha que se vai afastando ao monte (os canhotos fazem com as mãos contrárias).
Continuar a pressionar e raspar até a manteiga se assemelhar a pequenos flocos pressionados na farinha, continuando até obter mais flocos que farinha, terminando com flocos pequenos e algumas migalhas.
Fazer um vulcão no centro da mistura da farinha e colocar a água no buraco, trabalhando depressa para envolvê-la na farinha, criando uma massa. Raspar a massa novamente sobre si mesma até obter um pedaço consistente e coeso. Formar uma bola, cobrir com película aderente e deixar no frigorífico 30 minutos ou até arrefecer.
De seguida, enfarinhar a bancada generosamente. Colocar a massa e polvilhá-la igualmente com farinha. Amassar com um rolo até obter um rectângulo alongado. Pegar numa ponta e dobrar até 2/3, limpando a farinha agarrada à massa com um pincel. Dobrar a outra ponta, limpando novamente a farinha. Polvilhar mais farinha sobre a massa, virá-la a 90º, amassar novamente num rectângulo semelhante ao inicial e repetir mais 2-3 vezes. Quantas mais vezes esta operação for feita, mais folhada ficará a massa.
Amassar uma última vez num rectangulo mais pequeno para que forme um quadrado quando dobrado. Formar um circulo com o quadrado, embrulhar e refrigerar no mínimo 30 minutos antes de desenrolar para a tarte.

Para o recheio da tarte, começar lavar as nêsperas muito bem, descascá-las e descaroçá-las. As minhas como eram pequenas cortei apenas em dois, mas se forem maiores o melhor é cortar em 4 ou mais pequeno.
Colocar as nêsperas numa panela com o sumo de limão, o açúcar, a vagem de baunilha aberta longitudinalmente, a água, a erva cidreira se forem utilizar e levantar fervura, deixando a panela ao lume durante 45 minutos ou até a fruta ter amolecido e se ter formado um xarope com o açúcar, a água e os sucos da fruta.

Para finalizar a tarte, pré-aquecer o forno a 200ºC. Estender a massa até que fique com cerca de 25-30cm numa base para forno sobre papel vegetal. Pincelar com o ovo ligeiramente, rechear com as nêsperas deixando uma margem de massa de 5-8 cm. Dobrar a massa sobre as nêsperas para "selar" a tarte, pincelar com o ovo e polvilhar generosamente com açúcar mascavado sobre toda a tarte.
Levar ao forno durante 45-50 minutos, ou até a a fruta estar a borbulhar e a massa estar estaladiça e obter um tom forte dourado.
Deixar arrefecer antes de atacar e servir com uma bola de gelado de baunilha.


serve 4-8, dependendo da gula de cada um (com o dobro do recheio ainda pode chegar aos 12)



a ouvir: O Futuro - B Fachada

19.6.12

Uma sandes de Verão que sabe a salmão



Nada melhor que comer ao ar livre. Nada melhor que comer ao ar livre num oásis no meio da cidade (algures entre a Avenida de Berna e a António Augusto de Aguiar). Não há nada melhor que isso tudo com uma boa companhia.

As fotos que se seguem resultam do esquecimento da fotógrafa em fechar o diafragma da máquina e da impaciência negra das intervenientes para passar à fase de devoração do produto apresentado.



Sandes de salmão fumado e beterraba
As doses não são ciência. Adoro a textura crocante da beterraba e do seu sabor forte e singelo, por isso uso e abuso, enquanto que o sabor acentuado mas suave da fatia de salmão é suficiente para marcar presença. O queijo dá cremosidade, a rúcula a acidez, o cebolinho o aroma e a mostarda é a "cereja picante" que liga tudo. O pão, é pão. Vale tudo menos de forma, por favor.

2 fatias de pão saloio
1 colher de sopa de queijo creme
1 fatia ou mais de salmão fumado
1/2 beterraba média, descascada e cortada em fatias inteiras muito finas
1 punhado de rúcula
cerca de 10 hastes de cebolinho (não contei, mas deve ser algo assim)
1 colher de sopa de mostarda

Barrar uma fatia de pão com o queijo, e outra com mostarda.
Cobrir a fatia com queijo com os ingredientes pela ordem listada acima.
Tapar com a outra fatia.
Comer.

serve 1



a ouvir: Desdenosa - Lhasa de Sela











     















16.6.12

33,3




































33,3% bircher, 33,3% muesli e 33,3% de outra coisa qualquer.

O original (e que tenho ainda as minhas dúvidas que este realmente o seja) está aqui.
O desenrascado-mas-igualmente-bom, aqui. E para não induzir ninguém em erro, traduzo para bom português o que fiz. É tão simples que para dizer a verdade tenho até um bocado de vergonha de escrever aqui aquela que será a sua "receita". As combinações são intermináveis.


Aveia com iogurte, maçã ralada e fruta

1 cháv. (120g aprox.) de flocos de aveia
1 (125g) de iogurte natural
120ml de sumo de maçã
1/2 maçã, ralada

variação 1:
cerejas

variação 2:
1 banana 
1 punhado de morangos

variação 3:
sem maçã e o sumo na base
1/2 romã
1 laranja 
1 manga

variação 4:
1 maçã 
1 punhado de mirtilos

variação 5:
2 maracujás 
1 manga


Misturar bem a aveia com o iogurte e o sumo de maçã pelo menos meia hora antes de comer.
Adicionar a maçã ralada e misturar novamente.
Dividir por duas tigelas, adicionar o resto da fruta e servir bem fresco.

serve 2

a ouvir:

15.6.12

A falta das palavras ou da sua coerência

"Honestamente, a coisa deixou-me um bocado angustiado. Não conseguia entender se o objectivo da carta era reclamar, confessar, fazer uma espécie de declaração ou defender uma tese."

Haruki Murakami, O Elefante evapora-se


É a história da minha vida. Há sempre alguma coisa que quero dizer mas que se assemelha a uma matéria amorfa, a rebentar de sentidos mas sem propósitos. Há sempre alguma coisa mesmo que as palavras não sejam minhas. Mas digo-as de qualquer maneira na esperança de as conseguir compreender aos poucos, procurando reunir numa só toda matéria amorfa que as compõe, as minhas e as dos outros. Como uma polpa.
Na maior parte das vezes a matéria não chega aqui ou porque não lhe consigo dar forma ou porque, afinal de contas, este é um caderno sobre comida e tudo o que aqui está é o meu manifesto sobre ela e o que acontece é que tudo o resto não pertence aqui.

Há dois dias ia escrever algo sobre a culpa, passando pela indignação e antes que me apercebesse já tinha outro sobre o metafísico e não sabia bem o que queria dizer com cada um deles. E quando se perde alguém a coisa piora.


A avó Missas.
Inicialmente não pus aqui a foto, mas é tão bonita que seria crime não o fazer.

Assim como assim

Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós, algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. Estive sozinho nos momentos mais difíceis da minha vida, que sofri na carne como um cão: aquilo que, destilado, aparece nos livros, que são o itinerário da aprendizagem da dor, a certeza da vida redimir a morte, da necessidade da alegria, da serenidade conquistada a pulso. A humilde capacidade de admirar as pessoas, respeitá-las, que tanto tempo levei a conseguir. Olhar nos olhos o que um ano destes não serei. Custa-me a ideia de não escrever, um dia. Do mundo continuar sem mim. De perder corpos, calor: o que ganharei em troca? O meu pai foi-se embora há quatro anos: percebo hoje que existia entre eu e a morte, a defender-me sem saber que me defendia e que a partir de então, quando ela tocar à campainha, é a minha vez de abrir a porta: não quero chegar à maçaneta a tropeçar, quero mostrar-lhe a casa limpa e pronta. Dizer a quem se achar ao meu lado
-Eu já venho
E descer as escadas. Não se incomodem, não se levantem: sou capaz de descer as escadas sem ajuda até vários palmos abaixo da terra. Espero que haja sol nesse dia, um arrepio alegre nas árvores. Não se incomodem que já venho. Sentir-me-ão nos objectos, deixarão de sentir-me a pouco e pouco à medida que a saudade se atenua. Continuarei aqui atrás dos meus livros, na altura em que ninguém meu conhecido sobrar. Ficam retratos, claro, reflexos pálidos do que fui. Depois nem sequer os retratos, um nome apenas- Páginas e páginas que não imaginarão o que me custaram, a luta permanente, a dificuldade em limpá-las. Tem de passar-se as passas do Algarve para dar prazer ao leitor. Espero que Deus me conceda acabar três ou quatro textos, deixá-los prontos para que outros construam por cima, como eu construí por cima dos que me precederam. Se alguma dignidade de homem tenho deu-me a Arte. Hipócrates: a Arte é longa, a Vida breve, a Experiência enganadora e o Juízo difícil. O meu pai tinha isto num rectângulo de papel, no seu gabinete do hospital. A Arte é longa, a Vida é breve. Se te sentes desfalecer pega na tua própria mão para ganhares coragem. Talvez dê resultado. Tentaste. É noite agora, corri as cortinas, estou sozinho. Faltam-me os meus amigos, falta-me o mar. Estantes cheias de lombadas, esta mesa. A esferográfica que lá vai andando aos tropeções. Os cigarros são a água com que empurro a comida das frases. Gostava de deixar de fumar, uma escravidão estúpida. Eis-me sozinho rodeado de vozes. Ninguém me pode ajudar a fazer isto. Se cair do trapézio a responsabilidade é minha e o aleijar das costas também. Conseguirei agarrar o próximo, falharei? Não me interessa narrar histórias, contento-me em abrir o coração. A minha mãe fez noventa anos em dezembro: limita-se a esperar numa cadeira. No que me respeita não vou esperar numa cadeira: a mão desenhará letras até ao fim. Esta não é uma crónica melancólica: é a obstinação do ofício que pratico desde que me conheço, afastando sempre o que o estorvava. Pagam-me para fazer o que faria se qualquer maneira portanto sou uma criatura feliz.
Na altura em que a morte, de que falei há bocado, chegar, já a venci. Amanhã na batalha pensa em mim: um título do meu amigo Javier Marías. Hoje na batalha penso em vocês, não deixo de pensar em vocês. Somos tantos, cada um de nós é tantos.


António Lobo Antunes, Quarto Livro de Crónicas

10.6.12

Pão, peixe e pimento, por favor



Uma boa comunicação de um produto tem a capacidade de levar o público a que se destina a adquirir o produto em questão, sem que existisse algum interesse inicial ou houvesse sequer conhecimento dele. E todos caímos na teia da areia, é inevitável. Pode ser com shampôs, carros, CDs, revistas, produtos de limpeza, pacotes de TV, telemóveis, escovas de cabelo, máquinas de barbear, etc. Vale tudo. Comigo são livros e comida. E foi assim que surgiu esta salada. Passando pelos corredores do supermercado onde suspeito que quem lá trabalha já conhece a minha cara de ginjeira, deparo-me com uma lata impecavelmente embrulhada num papel de tom azulado que corresponde à minha gama cromática de azuis de eleição, com um desenho e nome apelativos, arrematados com a descrição que coloca qualquer produto a outro nível, mesmo que por vezes não o seja: gourmet. Leio "Filetes de cavala em azeite" pego em dois exemplares e boto no cesto.

Será necessário explicar que desde o meu pequeno almoço à base de degustações de produtos em conserva no Boquería que tenho vindo a desenvolver um especial interesse por este tipo de produtos, sendo essa a principal razão que me levou a fazer esta escolha. Conservas à parte, ainda hei-de escrever aqui a minha crónica gastronómica em Barcelona, mas é preciso tempo, porque a tarefa implica dedicação e concentração. A outra razão para a escolha foi o meu total desconhecimento do sabor do peixe em questão, sabendo apenas que se trata de um peixe gordo, apesar de ser da familia do carapau, que é um peixe magro. Por isso pensei nele como se fosse uma sardinha e procurei fazer algo fresco, juntando sabores fortes mas leves, que equilibrassem a gordura do peixe e da conserva sem anular o sabor. Inicialmente pensei numas tapas, servido em bruschetta, mas para um almoço uma panzanella pareceu-me muito melhor.

P.S: Introduzi uma nova categoria às receitas: A lista. Que é para onde a minha mãe diz que têm de ir pratos como este.




Panzanella de cavala em conserva e pimento assado

2 latas de filetes de cavala em azeite (2x120g)
1 pimento vermelho grande
60g de agrião (ou um pequeno molho)
60g de rúcula (o mesmo)
80-100g pão de véspera, cortado em cubos de 1,5-2cm
azeite

sumo de 1/2 laranja
60g de iogurte natural
1 dente de alho, finamente picado (opcional)
4 ramos de coentros, grosseiramente picados
4 cebolos, grosseiramente picados
sal e pimenta q.b

Assar o pimento inteiro no forno a 200ºC durante 1 hora, ou até ficar totalmente assado, murcho e com a pele chamuscada. Se preferirem temperem com um pouco de sal e azeite antes.
Quando o pimento estiver frio, cortar às tiras e colocar num prato de servir raso. 
Abrir as conservas e retirar os filetes da cavala e parti-los aos pedaços, juntando ao pimento. Reservar o óleo.
Para fazer o molho, misturar o iogurte com o sumo da laranja, sal e pimenta, o alho e metade dos coentros e do cebolo. Misturar tudo bem, provar e corrigir o tempero. Adicionar um pouco do azeite da conserva, se acharem necessário.
Numa frigideira colocar o pão, regá-lo com um bom fio de azeite e envolver tudo com as mãos. Ligar o lume e deixar o pão tostar lentamente até adquirir um tom forte dourado e estar totalmente estaladiço.
Adicionar ao prato do pimento e da cavala o agrião e a rúcula e os croutons. Temperar com o molho de iogurte e polvilhar com as ervas restantes. Envolver tudo ou deixar como está e servir de imediato, para que os croutons não amoleçam o agrião e a rúcula não fiquem empapados.

serve 2


a ouvir: Tenere Taqhim Tossam - Tiariwen

4.6.12

Uma carrada de coisas boas

Carrada é uma palavra feia, mas para o efeito prefiro-a a molho ou punhado. Não é um punhado porque não cabe num punho nem um molho porque é palavra demasiado suave para o que aqui vos mostro hoje. Serei breve, nem sempre tenho muita coisa a dizer.
A receita é do Sprouted Kitchen, um dos meus blogs de referência. Nunca tive a oportunidade de colocar aqui nenhuma receita deste blog porque os ingredientes que a Sara (a autora) utiliza nem sempre fazem parte das minhas mercearias habituais, mas as poucas que fiz, nomeadamente o meu pistou preferidíssimo superam as expectativas. Os sabores das receitas deste blog são fortes, originalmente combinados e satisfazem os desejos dos mais requintados, ainda que a maioria dos ingredientes sejam singelos e com uma enorme ligação à terra. Não será por acaso o nome do blog nem a sua headline (a tastier take on whole foods.)

A minha luta para fazer entrar na cabeça do mais casmurro membro da família (que por acaso é também o mais sedento dos carnívoros, achando que toda a refeição tem de ter um belo (isto é, desnecessariamente grande) naco de carne ou de peixe) que uma refeição vegetariana pode ser completa e saciante persiste e a batalha de hoje foi travada com sucesso. Após o meu simples "Não" à pergunta "Isto leva carne?" calou, comeu e consentiu.

Razões para fazer isto a.s.a.p: tem batata doce, tem feijão, tem picante, todos os ingredientes são super acessíveis, é quente e fresca (feijão e batata + iogurte e ervas), é super saudável, tem salsa. É chili, que mais há para dizer?

Apesar de ter copiado a receita integral, deixo aqui traduzida e com as conversões das odiosas onças (oz), que ora são fluídas ora são pesadas e são uma dor de cabeça para nós, portugueses e outros estados-nações, que simplificamos a coisa com os gramas, sem chávenas ou onças que nos valham!
Além do mais convenhamos que é muito mais prático e económico utilizar feijão de lata e dar uma pré-cozedura na batata antes de a levar ao forno, pelo que deixo aqui também as indicações para efectuarem essas alterações.




































Batata doce assada com chili de feijão
receita de Sprouted Kitchen

4 batatas assadas pequenas
2 c.chá de azeite
1 cebola
2 dentes de alho grandes, picados
1 c.sopa de piri-piri
1 c.chá de cominhos, tostados e moídos de fresco num almofariz
1/2 c.chá de pimentão doce em pó

1 lata grande (780g) de tomate pelado inteiro 
1 lata (420g) de feijão manteiga
1 lata (420g) de feijão preto
1 c.chá de sal grosso

1 pequeno molho de coentros, picados
1 pequeno molho de cebolos, picados
1/2 abacate, cortado em fatias finas
125g de iogurte grego natural

Pré-aquecer o forno a 200ºC com a prateleira no meio. Furar as batatas doces com um garfo em todos os lados e levar a ferver durante 10 minutos. Retirar da panela e enxugar muito bem com um pano. Envolver cada batata levemente com papel de alumínio e assar durante 45-55 minutos, ou até que dê para espetar um garfo na parte mais grossa sem dificuldade.
Entretanto fazer o chilli. Fatiar finamente a cebola e o alho e levar ao lume com o azeite numa panela de ferro fundido. Quando a cebola e o alho amolecerem, adicionar as especiarias, deixar libertar o aroma durante uns segundos e adicionar os tomates, esmagando-os de seguida com uma colher de pau até que se desfaçam. Levantar fervura e cozinhar durante cerca de 20 minutos para reduzir, mexendo ocasionalmente. De seguida adicionar o feijão e cozinhar mais 10-15 minutos para combinar todos os sabores e o feijão amolecer um pouco. Temperar com sal e corrigir o tempero, se necessário.
Retirar as batatas doces do papel de alumínio, fazer um corte longitudinal em cada uma e abrir uma concavidade, sem retirar o polme. Rechear com o chilli e guarnecer com uma colherada de iogurte grego, um bom molho de coentros e cebolo picados e umas fatias de abacate ao lado.

serve 4



a ouvir: Fix you - Coldplay

31.5.12

Primeiras in-spirações, primeiras in-venções

Era Setembro de 2007. Decidimos as três fazer uma prenda para um amigo. Ofereci a minha casa, a parede roxa do meu quarto e a minha câmara. Sei que tínhamos fome e apeteceu-me improvisar, palavra de honra que não sei porquê, até à data não cozinhava simplesmente. E mesmo depois, só dois anos mais tarde a febre começou. Não me lembro de muito mais - maldita memória de elefante - mas lembro-me dos sabores, da sensação de descoberta do improviso pelo instinto. Não é nada de mais, mas para mim foi muito. Foi tanto que ainda hoje foi o meu almoço.
Agora que pela primeira vez traço os ingredientes numa lista, esta é sem dúvida uma combinação curiosa: não é italiano, apesar da massa, não é oriental, apesar dos rebentos de soja, não é americano, apesar do ketchup. É comida de improviso, é o que é. E uma refeição de tupperware no seu melhor.

Por falar em tupperware, foi em três deles que levei este simples bolo aos meus fiéis degustadores. Balanço muito positivo pelo que pude constatar. As 14 fatias foram poucas, mas ficou a promessa de mais, se não do mesmo certamente de algo melhor. Obrigada a todos.






















Bolo crumble de morango com xarope de gengibre caseiro (na verdade é mais uma espécie de cobbler com base de massa de bolo)

P.S: estava eu à procura da origem do ketchup e descubro que a sua etimologia vem do dialecto chinês, sendo que o original em nada se assemelha ao nosso conhecido molho de tomate, açúcar, vinagre e especiarias diversas.





































Penne com atum, tomate e rebentos de soja

Para dizer a verdade nunca fiz qualquer alteração a este prato porque simplesmente nunca achei necessário. É suficiente tal como é, mais sabores só se iriam anular e criar confusão no paladar. Só se substituísse por exemplo o atum por camarão, o ketchup por hoisin e o tomate por pimento, por exemplo. Mas isso já seria toda uma receita nova. Fico-me pelo original. Nem a massa pequena eu altero.
O ketchup pode parecer aquela coisa que o pessoal lê e torce o nariz pensando "ketchup? Coisa banal!" mas acredito francamente que muitas vezes o banal pode ser o suficiente para atingir a excelência (vá, o muito bom). 

60g de penne, ou outra massa curta
1/2 cebola média, picada
1 lata pequena de rebentos de soja
1-2 latas de atum (dependendo da fome de cada um)
um fio de azeite, cerca de 1/2 colher de sopa
3-4 c. sopa de ketchup, ou mais a gosto
sal q.b

Ferver uma panela média com água salgada e colocar a massa para cozer, cerca de 8-12 minutos, até ficar al dente, o que varia muito conforme a qualidade da massa: a de marca branca e a de marca especializada infelizmente não tem nada a ver amigos, desenganem-se se acham que são a mesma coisa...
Entretanto preparar o resto da salada. Numa taça ou travessa larga, juntar a cebola picada, o atum despedaçado, os rebentos de soja, o ketchup, o azeite e um bocadinho de sal, não muito porque o ketchup já tem.
Quando a massa estiver cozida, escorrê-la por um escoador e passar por água fria até que deixe de ficar quente.
Adicionar a massa aos restantes ingredientes, envolver tudo, provar e ajustar o tempero se necessário.
Servir à temperatura ambiente ou fria.

serve 2


a ouvir: Fistful of Love - Antony and the Johnsons

24.5.12

Estes dias, algumas manhãs, uma árvore, memórias e uma viagem.


Os dias parecem exactamente aquilo que são, nem curtos nem longos. Começam cedo, pouco antes ou depois do Sol nascer, e eu de cabeça, alma e olhos frescos. Como se o almoço se avizinhasse longe nas horas, o pequeno-almoço é bem composto. Pão alemão e ovo são os maiores aliados ao gosto da boca e ao conforto do estômago. A seguir, agora que o chá não combina com mangas curtas, o café segue sempre. O tempo passa bem porque não o vejo passar, apesar de sentir a sua presença pela textura ondulada que o meu rabo adquire da cadeira de vime. Pela manhã alta abro a varanda e deixo entrar o cheiro inebriante do ligustro-chinês, para manter o espírito elevado.*

(É nesta parte que no meu caderno encontrariam uma divagação de uma página inteira sobre a memória e a indagações sobre a origem da necessidade em recuperar e preservar as nossas memórias mais profundas, não memórias de momentos mas de pensamentos. Para vos abster de possível enfado, passo para aquela parte que toda a gente gosta, sobre comida).

(Mas porque falava delas,) as memórias encontram-se na boca também. São essas as que mais gosto de desafiar. Hoje como tomate como quem come uma maçã, as iscas tornaram-se minhas amigas, a textura do agrião já não me obriga a deixá-lo à beira do prato e por vezes um bom gelado de chocolate pode me proporcionar o maior dos deleites. Por seu turno, a baba de camelo, que tanto me deliciava na minha infância, com pena minha, que é pecado cometeria com maior prazer, já ultrapassa a tolerância glicémica do meu paladar. Maionese e delicias do mar encontram-se de fora, e aí se manterão, bem como o diospíro e os néctares de pêra, manga e pêssego, não pelo sabor mas pela textura. Para quê beber uma substância espessa sem piada nenhuma quando posso comer, trincar, mastigar a coisa autêntica?















Hoje viajei à hora de almoço. Viajei para o Verão e viajei para as Arábias, seduzida por um israelita enraízado em Londres que, ainda que não o saiba, sabe bem do que gosto. Tabbouleh - um prato que me faz esquecer a fome provocada pelas horas perdidas em frente ao computador, para dedicar esmero, tempo e perfeccionismo ao corte do tomate, da cebola e da dose industrial de salsa e hortelã. Duplico a dose dos hidratos de carbono e faço deste acompanhamento original um generoso almoço que refresca e reinicia o corpo para as próximas horas de olhos no ecrã e rabo ondulado.

* Ligustrum sinense: passei duas horas à procura do nome deste arbusto só para o pôr aqui.



Tabbouleh
adaptado de Yotam Ottolenghi

Se verificarem a receita original que serve 4 pessoas, a quantidade de bulgur é mínima, provavelmente por este ser um prato de entrada ou acompanhamento. Deve ir óptimo com borrego ou mesmo um peixe grelhado. Como o fiz para refeição principal, senti a necessidade de aumentar bastante a dose do bulgur, acentuar o sabor da chalota e arrisquei "ornamentar" um pouco mais com um cheirinho a canela e noz-moscada. Pensando que canela e limão são melhores amigos, acabei por obter uma ligação final muito interessante.

60g de bulgur (usei médio)
1 tomate médio, maduro mas firme (150g)
1 chalota média (30g)
40g de salsa
8g de hortelã
1/4 c.chá de pimenta da jamaica
1 pitada de noz-moscada
1 pitada de canela
1 c.sopa de sumo de limão
30ml de azeite virgem-extra
sal e pimenta preta

Cozer o bulgur em água a ferver durante 7 minutos, apagar o lume e reservar tapado para que cresça.
De seguida, passar por um escoador fino sobre água fria corrente até que saia todo o amido e a água corra clara. Transferir para uma tigela média.
Cortar os tomate em pedaços de 0,5cm (uma faca de serra pequena é o ideal) e adicionar à tigela juntamente com todos os sucos do tomate. Picar a chalota o mais finamente possível e adicionar igualmente à tigela.
Unir os talos da salsa e apertá-los firmemente. Com uma faca grande e bem afiada, aparar o fim dos talos e picar as ervas o mais finamente possível, com uma grossura não superior a 1mm (se não conseguirem à primeira, piquem novamente com a ponta da lâmina). Adicionar à tigela.
Arrancar as folhas de hortelã dos talos, apertá-las firmemente e picar tal como a salsa.
Adicionar á tigela com o sumo de limão, o azeite, as especiarias, sal e pimenta. Provar, acertar o tempero e servir à temperatura ambiente.
Muito importante: não esquecer de levar uma colher para apanhar os maravilhosos no fundo da tigela.


serve 1



a ouvir: Traz d'Horizonte - Cesária Évora



21.5.12

um dia que são dias











Barcelona, Abril 2012



Ás vezes apetece desistir. Mais vezes do que gosto de admitir. Aspirar à mediocridade, alimentar
a mediania. Desculpem-me o abuso quase obsessivo de palavras do dicionário.
Estou confusa e zangada. Valham-me os livros, que desta nem a comida.


"Este livro parece vindo da possessão. Como se Emily Brontë se sentasse no tripé da sibila e a sua boca fosse rasgada a ponto de sangrar, tão bruta era a passagem da palavra."

Prefácio de Hélia Correia em Wuthering Heights