Mostrar mensagens com a etiqueta porco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta porco. Mostrar todas as mensagens

1.9.14

Voltei

Tenho aqui três rascunhos guardados, de três vezes de quando eu quase retomei isto. Três inícios completamente diferentes, três histórias e três receitas que entretanto ficaram por contar. Três nós de uma linha cheia deles. Uma linha de treze meses de comprimento.
Parei porque o coração sente, e quando se ama alguém, palavras para quê? Outras vezes não avancei por falta de coragem, por não conseguir voltar de repente sem mencionar todos os pequenos amuses que ficaram para trás, quando esse hiato virtual em nada se assemelha à quantidade de Vida que entretanto vivi. Parei também por praticabilidade. Porque o tempo não dá para tudo. Dá para as prioridades. Este lugar era uma quando dele fazia um Muro das Felicitações quando precisava de as contar para me manter em cima. Depois? Depois foi como se tivesse nos dois pratos da balança dois pesos que foram ficando progressivamente mais e mais opostos, e quanto mais tinha para deixar aqui, menos necessidade senti de o fazer.

Entretanto fui iniciada no chá preto à moda inglesa e gosto. Já o Marmite, tentei, mas não suporto.
Fiz aquela que considero a melhor tarte da minha vida e tenho plena noção do quão subjectiva esta afirmação é, mas não faz mal, porque é a minha vida.
Frequentemente os pequenos almoços-passaram a ser tomados a dois.
Tive experiências gastronómicas memoráveis (1 + 2 + 3 + 4 + 5 ... ). Outras, mais do que gostaria de admitir, nem tanto (1 + 23 (a sobremesa de gelado de mirtilo com carpaccio de ananás, no entanto, é fantástica).
Comi uma Francesinha.
Descobri que iogurte caseiros são 1000 vezes melhores do que qualquer um de compra, mesmo os biológicos.
Descobri onde comer comida de la mamma no centro de Lisboa. E estou completamente agarrada.
Voltei à escola. Uma escola diferente.
Fiz isto, que merece uma categoria só sua. E esta maravilha, tão simples e tão boa. E tudo aquilo que, se tiverem mesmo muita curiosidade, podem encontrar aqui.
Mudei de emprego. Duas vezes.
Fiz o meu primeiro trabalho como food photographer. O resultado foi este.
Descobri uma nova padaria.
Fui Snob.
Finalmente comi um autêntico phoo. Em Berlim, mas um pho.
Tal como aconteceu com a francesinha e o chá inglês, contra todas as expectativas e alguns princípios, transformei-me numa seguidora do gin tónico. E rendi-me a esta mousse.
Organizei uma festa para 30 pessoas para celebrar os 50 anos da mulher da minha vida.
Apanhámos figos directamente da árvore e comemos, comemos e comemos...
Celebrei os 23 em Terras de Sua Majestade e o Natal à grande, à alcoólica e à inglesa.
Andei por aqui. E aqui, duas vezes.
Fiz novos amigos de todas as cores e feitios (os outros todos guardo só para mim).
E tenho uma nova vista da cozinha.

E tudo isto é pouco, muito pouco.

Hoje trago bochechas. Algo que nunca teria provado por iniciativa própria porque é porco, e carne de porco não é algo que me atraia especialmente. Mediante isto, acontece que vivo com alguém que, posso dizer com alguma confiança, é seguramente o embaixador do porco preto e das ditas bochechas. Alguém que, se ler Bochechas na Carta não precisa saber mais nada. Eu, atacada pelo bicho da curiosidade inato do meu paladar (e da minha gula), provei, comi e adorei. É o tipo de carne que, se for bem feita, é autêntica comida para a alma. Acompanhada de um bom molho, saborosa, tenra, carnuda e sem gorduras perceptíveis, acompanhado com o que for, desde que em cima da mesa haja o pão para fare la scarpetta (temos de inventar um termo semelhante asap).

Há quem prefira as bochechas marinadas durante longas horas em vinho, tempero e especiarias, para depois poder cozê-las mais rapidamente e obtendo uma carne de textura toda muito uniforme, onde não se distingue as fibras, dos nervos e das gorduras, acabando com um resultado aparentemente processado, com pouca resistência e textura mas muito sabor. O embaixador é doido por estas, e até hoje só encontrámos quem as faça assim num único sítio em Lisboa.

No entanto, cozinheiro que é cozinheiro tem o seu quê de mistura de ego, confiança, orgulho e teimosia e eu decidi fazê-las à minha maneira. As bochechas foram douradas primeiro e depois lentamente estufadas durante 3 horas a lume muito brando. O resultado final foi umas bochechas a desfazerem-se na boca, absolutamente saborosas e húmidas, sentindo a cada garfada a fibra e a textura suculenta da carne. O molho é rico, espesso, intenso, com um equilíbrio entre a doçura do vermute e a acidez do vinho e das especiarias, juntamente com as notas fumadas do colorau e do aroma do alecrim. Servido com a salada morna de batata doce e figos verdes com o toque ácido do cebolinho, é na minha opinião quase O prato ideal - para amar, para conquistar e para celebrar.

P.S. Eu sei, é lamentável a qualidade miserável das fotografias. Foram tiradas de noite, com uma câmara do iphone e com a fome a apertar. Depois de muitos levels, filters and color balances, é o que se arranja.


Bochechas de porco preto estufadas em vermute

É importante que a panela utilizada seja pequena o suficiente para que não haja grande espaço entre as bochechas. Dessa maneira, ao adicionar os líquidos todos elas ficam completamente submersas, o que facilita muito o processo de cozedura.
De hora a hora é melhor verificar o estado do molho e ir provando, uma vez que pode ser necessário adicionar um pouco de água caso se esteja a evaporar depressa demais.

4 bochechas de porco preto (cerca de 600g)

azeite
sal e pimenta
125ml (1/2 cháv.) farinha

1 cebola pequena, bem picada
2 dentes de alho esmagados
2 folhas de louro
2 hastes de alecrim 8cm aprox.
8 grãos de pimenta preta
3 cravos da índia
1 pitada de pimenta da jamaica
2 c.chá paprika
350ml vermute
200ml de caldo vegetal
250ml de vinho tinto
1 c.sopa de manteiga

Misturar a farinha com sal e pimenta e envolver as bochechas com a mistura, sacudindo depois o excesso.
Fazer um fundo de azeite numa panela pequena e dourar bem as bochechas a lume médio-alto, por todos os lados. Retirar e reservar, mantendo o azeite na panela.
Mantendo o lume a médio-alto, adicionar a manteiga, as ervas e as especiarias durante alguns segundos. Juntar a cebola e o alho, baixar o lume um pouco e deixar a refogar até a cebola ganhar alguma cor e ficar completamente translúcida.
Devolver as bochechas à panela, adicionar os vinhos e o caldo levantar o lume para ferver e depois baixar para lume brando.
Deixar a cozer durante três horas, ou até as bochechas começarem a desfazer-se ao pressionar. Se o molho estiver muito líquido no final, destapar a panela e levantar o lume para que o molho espesse um pouco.



Batatas doces e figos verdes
Como acompanhamento quis apenas criar um bom complemento ao sabor já complexo, adocicado e intenso das bochechas, criando a ligação com o azeite aromatizado. Acho que o cebolinho vai especialmente bem e diria que quase essencial para dar o corte e proporcionar uma certa frescura ao resto do prato. Sem as bochechas, uns pedaços de queijo de cabra desfeito, ou até mesmo um belo queijo da ilha fariam deste simples acompanhamento um killer e prato principal.

3 batatas-doces pequenas
6 figos verdes, cortados ao meio longitudinalmente
3 c. sopa de azeite
1 haste de alecrim
flor de sal
pimenta preta fresca, moída
cebolinho

Cozer as batatas doces inteiras e com pele. Deixar arrefecer um pouco até dar para tocar nelas. Cortá-las ao meio longitudinalmente e reservar.
Numa frigideira, colocar o azeite e o alecrim em lume muito brando até o azeite ficar bem aromatizado.
Retirar o alecrim, aumentar o lume e quando o azeite tiver bem quente adicionar as batatas e os figos. Deixar dourar bem em todos os lados, especialmente na face cortada, virando de vez em quando para dourar e para que não colem no fundo da frigideira.
Retirar, temperar com flor de sal e pimenta, cebolinho picado a gosto e servir quente com as bochechas.


serve 2


a ouvir: La verdad - Juana Molina

30.5.13

De chiara testa


Normalmente, a minha cabeça anda sempre em todo o lado. Raramente a consigo assentar, o que se traduz em frases desconexadas, bloqueios verbais, alheamento ocasional, uma ridícula incapacidade de focagem na mais mínima das coisas, cansaço mental e, por fim, a exasperação sobre a minha própria condição. Em grande parte, escrevo por ser, quase sempre, apenas assim que me consigo compreender e compreender o que vejo. E vivo. E que os outros vivem à minha volta.

Mas quando consigo (assentar a cabeça), sinto-o. E as coisas acontecem, fluem, não como a corrente de uma cascata, mas mais como um carreiro de formigas, totalmente alinhadas, ordenadas, caminhando sem parar, cada qual uma palavra, formando uma torrente compassada e articulada de ideias, poucas, claras e completas.
Ideias que fluem só ou acompanhada, sob a forma de palavras trocadas em bancos de jardim ou num paredão à beira-rio, sob a forma de um trabalho francamente satisfatório ao fim do dia, de palavras escondidas num caderno, de um desenho rabiscado, de uma mensagem a altas horas da noite ou às primeiras da manhã, ou sob a forma de um banquete prima-estival, como este.

Um festim de ares italianos para um almoço com as minhas pessoas preferidas no mundo, ainda que, invariavelmente, acabemos o serão de trombas, com a voz substancialmente elevada e a pulsação acelerada. Simplesmente é assim. Ficamos tão bem de comida que não suportamos a ideia de acabar o almoço inteiramente satisfeitos. É como se não fosse justo para o resto do mundo.

A ideia partiu do Sol, da copa di testa e do queijo de ovelha e trufas pretas absolutamentes decadentes que comprei numa mercearia italiana no Borough Market. Queria comprar um bom queijo inglês, mas no meio de tanta queijaria, mercearia e charcutaria que havia naquele espaço imenso, pouco mais havia para além do cheddar e queijos franceses. Para isso vou ao El Corte Inglés. Além do mais, senti-me como o Hansel e a Gretel na dita mercearia, o senhor inglessíssimo que me atendeu na pequena salumeria alimentou-me de queijo como se não houvesse amanhã, pegando em cilindros inteiros, talhando-os generosamente ou simplesmente abrindo-os ao meio com as mãos e dando-me de comer, "because that's the only way you can really taste the flavours of the cheese".
Já a copa di testa, desde que li este livro que me ficou na, desculpem mas não resisto, testa, quando a provei pequenos sinos nas minhas papilas gustativas simplesmente cantaram, juntamente com os alarmes de alerta de gordura, mas isso é outra história.

O que aqui ponho não sei exactamente receitas, mas antes uma combinação de pratos com sabores e texturas imensas e super interessantes. Tudo feito em três tempos e sem grandes preocupações. Fluíndo. :)



Marzolino al tartuffo (queijo suave de ovelha com trufas pretas) e bolachas marinheiras

Salada de anchovas e molho de limão e oregãos

Imagino esta salada sobre um lavash ou um naan, enrolado e comido sem demoras...

150g de agrião, lavado e com os talos maiores cortados
2 embalagens de 40g de anchovas em óleo, escorridas

3/4 c.sopa de sumo de limão + 3/4 c.sopa de sumo de laranja OU 1 1/2 c.sopa de sumo de limão
5 c.sopa de azeite virgem extra
1 c.sopa de oregãos secos
flor de sal e pimenta preta fresca

Colocar o agriãos e as anchovas num prato de servir largo e raso, para o molho não ensopar as folhas.
Colocar todos os ingredientes do molho num frasco, agitar energicamente, provar e ajustar o tempero conforme necessário.
Colocar o molho apenas antes de servir. Guardar o que sobrar num frasco.

serve 4 como entrada ou parte de uma refeição de vários pratos




Tartines de copa di testa e pêra

8 fatias pequenas de pão de Mafra
150-200g de copa di testa, cortado em fatias finissimas
1/2 pêra, laminada o mais fino que conseguirem
1-2 c.sopa de salsa, picada finamente
limão, para espremer por cima

Torrar o pão na torradeira ou tostá-lo por igual numa frigideira seca.
Colocar as fatias numa travessa larga. Cobrir cada fatia por igual com a copa di testa, colocar cerca de 3/4 lâminas de pêra sobre cada fatia, polvilhar com a salsa picada e por fim espermer um pouco de sumo de limão para equilibrar com a doçura da pêra e a força da copa di testa.
Servir ainda mornas.

serve 8 como entrada ou 4 como refeição de vários pratos


 

Azeitonas galegas temperadas com alho, azeite, sal e orégãos


Salada de choquinhos grelhados com molho chilli de hortelã e poejos

Não tenho experiência quase nenhuma a cozinhar moluscos, por isso vou por intuição. Apesar disso, prefiro que fiquem pouco cozinhados a ficarem demasiado, secos e borrachudos. Se conseguirem comprar frescos poupam imensas chatisses com a água que contém e a parte da descongelação.
Não medi as quantidades de azeite e limão mas creio que as indicações estão aproximadas. Depois de misturarem, vão provando e ajustando as quantidades de azeite, limão, sal e pimenta however you fancy (adoro a expressão!)

1 courgette pequena, lâminada o mais fino que conseguirem, a ficarem translúcidas
16/20 choquinhos, limpos e arranjados

1 c.sopa de hortelã, finamente picada
1 c.sopa de poejos, finamente picados
1 malagueta ají, ou 1 pimento serrano, sem sementes e fatiado finamente
4 c.sopa de azeite virgem extra
1 c.sopa de sumo de limão
flor de sal e pimenta

Para fazer o molho, colocar todos os ingredientes do molho num frasco, agitar energicamente, provar e ajustar o tempero conforme necessário. Deixar os sabores assentarem e envolverem-se durante uns 30 minutos.
Colocar a courgette espalhada num prato largo e raso.
Grelhar os chocos sobre uma grelha bem quente e pincelada com azeite e deixar apenas por alguns segundos em cada lado até ficarem marcados.
Colocar o choco sobre a courgette e cobrir tudo com o molho antes de servir.

4 como refeição de vários pratos ou 2 como uma refeição leve



Para beber, um bom vinho tinto, obviamente.

a ouvir: Money Trees - Kendrick Lamar