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9.10.12

Combinações óbvias



Tal como já mencionei ontem na única brilhante conclusão a que consegui chegar com o look roupa enrolada enfiada no armário que está a minha cabeça, o mundo está longe de ser feito apenas de causalidades, lógica e relações óbvias entre as coisas. Mas elas, as coisas óbvias, também existem e é isso que pretendo hoje celebrar. Se há coisa que tenho de inserir no "manual de intruções" da minha nave espacial é aprender a quando deixar-me ficar pelas soluções mais óbvias. Ás vezes consigo, outras nem tanto, mas na maior parte das vezes começo do óbvio, parto para o complexo e regresso ao óbvio novamente. Talvez a este óbvio possa juntar o instinto, parece-me uma relação... bem, óbvia. O que interessa é que regra geral, ambos existem porque regra geral funcionam. Mas também sei que essa capacidade de os reconhecer e aceitar reside geralmente naqueles que possuem uma auto-confiança, digamos, confortável e isso, óbvio ou não, falta-me. Mais prefiro não desenvolver.
Mas como não há regra sem excepção, há dias felizes, isto é, repletos de obviedade (sim, a palavra é feia e soa mal mas existe) pura e simples. Dias em que uma combinação de combinações resulta numa tarde encantadora e com alguém que em nada lhe fica atrás no adjectivo.
A primeira combinação dá-se entre duas meninas que gostam de fanzines, de desenhar, de design, de falar de ouvir e de comida - e isto tudo já sabiam uma da outra ainda antes de se conhecerem. Combinando o útil ao agradável, transformou-se uma recolha de informação numa tarde de amena cavaqueira, que por sua vez se combinou com um dia de Sol radioso numa Belém que com tais condições nunca desilude. Combina-se isso com relva fresca e pés descalços e o motivo do encontro com um "gostinho" do mesmo. Um gostinho com sabor e textura que combinam bem com céu azul ou cinzento, a pêra que combinam com a estação, os arandos que combinam com a pêra, que por sua vez combinam com as amêndoas.

Eis uma receita óbvia, nenhuma questão: scones de pêra, arandos secos e amêndoa com pés descalços num jardim em Belém acompanhado com uma nova amiga e temperado com de uma bela tarde de Sol.


Obrigada Amanda.


O que a Amanda, Milena, Blanca e Tiago fazem há já três anos é absolutamente de se lhe tirar o chapéu. A Mr. Spoqui encanta não só pela qualidade gráfica de cada edição, que é para mim absolutamente singular e original, mas também pela sua história, pela dedicação fenomenal que eles tem entre eles, que se reflecte num objecto íntimo porém desejoso de se mostrar a todos, como qualquer boa fanzine deve ser.
Falo dela a toda a gente, porque vale a pena e eles merecem não só recolher frutos do seu trabalho, mas que se veja o fruto do seu carinho.
Cada edição tem um tema e eles pediram-me para colaborar com eles para a próxima, pelo que podem já adivinhar qual será o tema desta. Esperem para ver, que quando for a altura podem ter a certeza que ficarão a saber.


Fiquem de boca aberta a saber mais sobre eles na Keep up the good work + Crap = good + We Celebrate + Twitter.


Scones de pêra, arandos secos e amêndoa

225g de farinha
1 c.chá cheia de fermento em pó
1 pitada de sal
1-2 c.chá de raspa de laranja
30g de manteiga sem sal, partida em pequenos cubos
3-5 colheres de sopa de leite, mais para pincelar
1 ovo grande, batido
30g de açúcar amarelo
140g de pêra (1 grande), descascada e cortada aos cubos com cerca de 1cm
25g de arandos secos, grosseiramente picados
25g de amêndoa palitada ou lâminada
açúcar de cana integral, para polvilhar

Pré-aquecer o forno a 220ºC. Engordurar ligeiramente um tabuleiro de 20x 20 no mínimo e forrar com papel vegetal ou polvilhar com farinha.
Juntar a farinha, fermento e sal numa tigela e misturar. Esfregar o açúcar com a raspa de laranja numa pequena tigela até humedecer o açúcar e libertar aroma. Juntar à farinha e misturar.
Misturar os pedaços da manteiga para cobri-los de farinha e esfregar com as pontas dos dedos até que comecem a parecer pedaços de areia, sem amassar, caso contrário a massa desenvolve demasiado gluten e endurece.
Adicionar o ovo e um pouco de leite, envolvendo ligeiramente com a mão ou com um garfo, novamente sem amassar. Ir adicionando leite apenas até que forme uma massa consistente, que se mantenha unida apenas ao limite, sem ficar peganhenta.
Juntar a pêra, arandos e amêndoas e envolvê-los completamente sem amassar.
Passar a massa para a bancada polvilhada com um pouco de farinha, formar um circulo com cerca de 2 cm de espessura e cortar em seis fatias uniformes.
Transferir as fatias para o tabuleiro, separadas com dois dedos de distância, pincelar com leite e polvilhar com um pouco de açúcar integral (amarelo ou mascavado também dão perfeitamente).
Levar ao forno durante 15-20 minutos até estarem crescidos, bem dourados e com as amêndoas visíveis bem tostadas. Podem testar se estão prontos batendo com os nós dos dedos na superfície - se fizerem um som oco estão no ponto.
Transferi-los para uma grelha para arrefecerem um pouco e deixá-los destapados para desenvolverem uma crosta bem crocante (para mim é a única maneira de comer um scone) ou podem tapá-los com um pano para amolecerem com a própria humidade.
Comer um (ou dois, ou três porque são pequeninos) ainda mornos com chá, leite, café ou o que quiserem. Tem é de ser com companhia.

faz 4-6 scones




































a ouvir: Let Her Go - The Passenger

1.10.12

A Catarina e o queijo - cabra, chèvre, goat, como quiserem chamar-lhe.

Tinha planeado para hoje uma coisa completamente diferente, sobre uma experiência maravilhosa que tive ontem, também ela, completamente diferente. Mas antes que passe mais um mês e este texto fique completamente descontextualizado, aqui o escrevo.

O queijo de cabra é o meu preferido, tenho dito. Eleger qual das suas variedades é a minha preferida já é pedir muito. Mas há qualquer coisa naquele sabor único do leite de cabra que trespassa todas as variedades deste queijo que me fascina. É difícil encontrar algo com que fique mal, seja doce, salgado, picante, quente, frio, carne e fruta. Não ponho as mãos no fogo pela sua combinação com peixe, mas quiçá? Eu não ("çá", ou sei). Só sei que fui muito feliz com ele este Verão, no meio das longas horas de trabalho masoquista. Com ele as ultrapassei e inclusive finalizei o quanto baste (comming soon). E por ele vou tomar a liberdade de fazer algo diferente, para mim e por mim - a verdade é que tudo o que consta neste manifestum não é mais que um registo para me relembrar sempre que necessário, com ou sem as memórias impreterivelmente associadas à altura em que foram escritas- mas também para vocês, porque há coisas, sabores e prazeres que não faz sentido serem desconhecidos a qualquer um que possa ter acesso a eles. Não é preciso dar voltas ao mundo nem esvaziar a carteira por eles. Anda-se 100 metros, gasta-se uma mão cheia de trocos, mexe-se um dedo (ou arranja-se uma boa amiga como eu para mexer o dedo por vocês) e já está.

Tomei como humilde missão enumerar aqui a minha história com o queijo, na expectativa de vir a ser, parte dela, a vossa história com ele. Hoje de cabra, amanhã (como quem diz), outra variedade qualquer.

Por isto tudo mas também porque adoro as fotografias e porque me divirto à brava a fazer isto, eis o início das histórias d'A Catarina e o queijo.



pequeno-almoço depois de correr: torrada de pão de kamut com queijo de cabra curado e melancia. 
Confesso que na altura achava que seria menos salgado que o fresco, ignorando totalmente o "curado", mas essa característica até veio a fazer da sua combinação com a melancia.

~



Não me canso de repetir a experiência que é provar algo da primeira vez, fruto de um rápido improviso, e ser absolutamente maravilhoso. 
Registar: pão alentejano torrado 
+
uma fatia de tomate on one side
pasta de azeitona: uma dúzia de azeitonas muito picadas, um dente de alho picado, pimenta, folhas de dois ramos pequenos de tomilho-limão. Tudo envolto numa pasta, juntando só azeite e sal no fim se for necessário. Leva 5 minutos se tanto. É simples mas os sabores estão lá todos e combinam na perfeição. Pode haver quem não goste do sabor a perfume (palavras do meu irmão) do tomilho-limão. Substituir por orégãos pode ser uma boa opção.
Esta dose só dá para uma vez (digo eu). Para duplicar, triplicar, multiplicar à vontade.

~



Omelete-que-não-é-bem-uma-omelete (mas que sabe igualmente bem, ou melhor até, para quem não gosta do excesso de óleo das ditas): Aquecer um fio de azeite na frigideira. Juntar o talo bem fatiado de um alho-francês pequeno (não se assustem com a quantidade porque diminui num instante). 
Deixar alourar bem e adicionar meia courgette grosseiramente ralada. Temperar com sal e pimenta. Nem quis adicionar nenhuma erva para deixar sobressair ao máximo o sabor do queijo e dos vegetais. 
Tapar e deixar estufar rapidamente até os vegetais estarem cozidos mas ainda com algum crocante. 
Adicionar um ovo batido, espalhando-o sobre os vegetais e terminar com um queijo cabra fresco despedaçado por cima. 
Finalizar com mais uma pitada de pimenta (usei uma mistura em moinho), reduzir o lume ao mínimo, tapar e deixar o ovo assentar e o queijo amolecer e inflar. 
Comer logo!

~



Doce, ácido, amargo e salgado numa salada de Verão:
esparguete integral com figos (não se incomodem em tirar a casca a não ser que esteja em mau estado), chèvre despedaçado, nozes tostadas, rúcula e um vinagrete de balsâmico e hortelã. 

~



Não fica bem uma senhora dizer qual o fenómeno que se ia dando no seu corpo ao dar a primeira dentada nesta sandes, depois de 7 horas sem comer e uma licenciatura acabada de concluir.
Pão de sementes com espinafre, queijo de cabra fresco e cogumelos brancos salteados em azeite, alho, vinho tinto (o rasca serve) e tomilho limão.



a ouvir: A walk - Tycho

23.9.12

sinfonia de uma ode gastronómica




Com isto que vos deixo canta-se com a boca mas ouve-se com o paladar. As minúncias melódicas percorrem a vista inolvidável de uma velha quinta inocentemente trespassada, passando pela luz e temperatura de restos de um Verão ameno que a pele sente, pelos aromas de pinheiro e terra e ar que me assaltam os sentidos e que se conciliam em pleno com os sabores terrenos da noz, do mel, da maçã e claro, do pão, quase como um elixir de componentes escrupulosamente medidos para alcançar a mais perfeita compleição. Isso tudo, e a voz e presença de quem esperou (esperámos!) pacientemente pelo tempo de tudo isto simplesmente ser, acontecer. E não podia ser de outra maneira. Somos melómanos.
Desculpem-me a poesia excessiva, mas tudo isto é poesia.



Focaccia de maçã e noz
adaptada de Nigel Slater

Simples assim, sem mais. Quente ou fria, ao pequeno-almoço, almoço ou quando o corpo precisar. Pouco há de melhor o miolo do pão húmido, embebido no mel, fundido com a textura crocante da noz e da suavidade menina da maçã. Não consigo evitar os rodriguinhos, é simples e boa demais.

450g de farinha
7g de fermento seco para pão
1 c.chá de sal grosso
1 c.sopa de azeite
1 c.sopa de açúcar branco
350ml de água morna

3 maçãs médias Royal Gala
150g de miolo de noz, partidas
75ml de mel
40ml de xarope de agave
2 c.sopa de água

Colocar a farinha e o fermento numa grande tigela, adicionar o sal e misturar.
Juntar o azeite, o açúcar e a água. Envolver completamente e passar a massa para uma base bem enfarinhada. Amassar levemente cerca de 5 minutos. Não vale a pena de todo amassar demasiado e com muita energia.
Assim que a massa ficar elástica e suave colocá-la numa grande taça enfarinhada, cobrir com um pano de cozinha e colocar num lugar morno para que cresça. Quando tiver duplicado de tamanho - cerca de uma hora - pressionar gentilmente com o punho, removendo algum do ar.
Cortar e descaroçar as maçãs (eu não as descasco) em pedaços com cerca de 1-2cm de largura (não é preciso ser metódico!) e amassá-las juntamente com as nozes na massa, deixando algumas para colocar no topo. Colocar a massa dentro de uma forma funda de 28cm para que manter a forma.
Pré-aquecer o forno a 220ºC. Cobrir a massa mais uma vez e colocá-la novamente num lugar morno para crescer quase o dobro, novamente.
Quando estiver crescida, regar com um pequeno fio de azeite e levar ao forno cerca de 35-40minutos até ter crescido bem, e estar num tom dourado intenso no topo. Deverá estar ligeiramente elástica quando pressionada, mas de crosta dura.
Retirar do forno, regar com a mistura do mel e do xarope de agave e deixar que absorva. Deixar arrefecer um pouco antes de refirar da forma e partir grandes pedaços com as mãos.


serve umas 6 a 8 boas doses


a ouvir: Gnossiene no.1 - Erik Satie

29.8.12

Tomates e casulos

Tomates e casulos. Em. No casulo. Eu no casulo. Nunca passei por uma experiência como estas duas - a ir para três - semanas. Encasulada com o rabo na cadeira a olhar para o computador, para o ecrã, para o computador novamente, para a estrada e sinais vermelhos das Avenidas Novas, com uma miserável hora de corrida, doses absurdas de café e chá preto, a diária esfrega de Momengel no pescoço e uma ou outra pontual ajuda de Valdispert para quando não se consegue dormir ou para atenuar crises de ansiedade como, por exemplo, um choro compulsivo (mas discreto) depois de correr desalmadamente para apanhar o comboio e perdê-lo por um fio. Quando pensamos que já demos o litro, o melhor é pensar outra vez. O baton é só para disfarçar. E o bicho que se está a formar dentro deste casulo não é daquelas bonitas que se espera que poisem no nosso dedo -apesar de achar que isso é mais um mito urbano que outra coisa -, é daquelas feias, do género das do bicho da seda. As pernas começam a ganhar uma textura lgeiramente áspera, bem como outras partes do corpo, a minha voz adquire o tom envergonhado de quem acorda por não emitir quase nenhum som durante o dia inteiro a não ser que cante, os pequeninos músculos, ganhos com tanta dedicação, vão murchando tristemente e as unhas, apercebi-me agora que olho para a caneta, ganharam dimensões pouco recomendáveis na mão direita e formas estranhas em alguns dedos da mão esquerda - sina da mão que agarra na cebola e no alho enquanto que a outra, de faca afiada, a manuseia inexperiente.

Cozinhar, apenas um cheirinho diário, só para manter a sanidade em dia porque o apetite, pela primeira vez, não existe. Assim sendo, encaro como mais um problema de design e arranjo espaço na minha cabeça para pensar na melhor maneira de aproveitar os quilos de tomates que temos em casa.*

O pior, o perverso, é de sentir que alguém, algures, me julgará ao saber que, apesar de tudo, ainda tenho mão na cozinha, e que o meu dia ainda tem três ou quatro momentos de prazer (ou parcial, uma vez que, pontualmente, frequentemente vá, como (verbo comer) a pensar em sistemas de cor, grelhas, tabelas sazonais e design: esta coisa que é a minha praga, a minha paixão, a minha panela de pressão.



Valham-me então os tomates, -cereja, negros da Crimeia, coração-de-boi, chucha, regulares, e os morangos, os pequenos e aromáticos morangos que parecem ter sido borrifados com aquelas águas de colónia para crianças, tal é a intensidade do seu cheiro e sabor. E agora vão já duas doses de coisas boas porque não sei se vou ter animae para voltar a escrever aqui brevemente. Ambas as receitas abundam e tomates, diversos tipos deles, não (apenas) pelo impacto visual que dá ao prato, mas porque os tomates tem muito que se lhe digam, e cada qual tem o seu sabor e textura únicos, mais ou menos doces, mais ou menos duros, mais ou menos carnudos. Para mim vale totalmente a pena brincar e descobrir as diferenças.

* Ou tínhamos, porque quando escrevi este texto, há uma semana, ainda havia. Só não há é ânimo, paciência, disposição, tempo para passar pelo processo de fazer mais uma entrada aqui: transcrever, relembrar a receita, passar fotos, arranjar fotos et al.




































Salada de Tomate e Morangos com Pistou de noz, hortelã e manjericão
300g de morangos, cortados, dependendo do tamanho
300g de tomates diversos, cortados a gosto
2 punhados de rúcula
80g de pão de centeio de véspera
80g de pão de trigo de véspera
azeite, sal e pimenta q.b
2 queijos frescos de ovelha pequenos, cortados aos cubos
2 colheradas de pistou de noz, hortelã e manjericão

2 dentes de alho, picados grosseiramente
1 c.chá de sal
1/2 cháv. de nozes aos pedaços
80ml (1/3 cháv.) de sumo de limão
1 cháv. de folhas de manjericão
1/3 cháv. folhas de hortelã
80ml (1/3 cháv.) de azeite
2 dentes de alho, muito picados
pimenta e/ou piri-piri, a gosto

Pistou
Colocar num almofariz o alho, o sal, as nozes e o sumo de limão, esmagando até formar uma mistura mais ou menos consistente, como preferirem. Pessoalmente gosto de sentir ainda pedaçinhos de nozes, sem ficar muito pastoso.
Adicionar as folhas do manjericão, da hortelã e o azeite, moendo novamente até ficar tudo ligado.
Adicionar pimenta e piri-piri a gosto e envolver tudo.

Cortar o pão aos cubos pequenos (1,5-2cm), colocar numa tigela com o alho picado e regar com um fio de azeite, sal e pimenta. Envolver bem com as mãos, colocar numa frigideira quente e tostar todos até ficarem bem dourados e começarem a libertar aquele aroma maravilhoso.
Dividir por dois pratos individuais os morangos, os tomates,a rúcula e os croutons e os queijos frescos.
Juntar uma colherada de pistou a cada prato, envolver tudo e comer no momento.

serve 2 (o pistou ainda dá para 4)



Tomates assados com quinoa
tomates inspirados na receita de Heidi Swanson, em 101 Cookbooks

Foi o meu jantar e almoço consecutivos. Tomates assados frios sabem muito bem, é só o que tenho a dizer. E para algo diferente, o açúcar vale mesmo a pena. 
1,2kg de tomates variados (usei uma mistura de negro da Crimeia, coração de boi, cereja e San Marzano) - metade são para assar, metade para comer crús

60ml de azeite
2 c.chá de açúcar amarelo
sal grosso, q.b
1 c.sopa de alecrim fresco, picado
1 c.sopa de raspa de limão

2 c.sopa de pinhões
1 c.sopa de alcaparras
1 cháv. de quinoa, passada por água corrente
sal q.b
azeite q.b

Pré-aquecer o forno a 175ºC com a prateleira no topo.
Colocar metade dos tomates numa só camada num tabuleiro de forno, inteiros, cortados em metades ou quartos, dependendo do tamanho. Envolver com o azeite, o açúcar, umas pitadas de sal, alecrim e a raspa de limão. Levar ao forno durante 60 minutos, ou até começarem a caramelizar e a ficar tostados nas bordas. Retirar do forno e deixar arrefecer.
Entretanto cozer a quinoa com um pouco de sal em duas chávenas de água a ferver durante 15 minutos, ou até a quinoa estar cozida, solta e a água ter sido absorvida.
Tostar os pinhões numa frigideira seca e saltear as alcaparras num fio de azeite.
Dividir a quinoa por dois pratos de servir, dividir os tomates, crús e assados, pelos pratos. Temperar com os sucos que ficaram no tabuleiro dos tomates e mais sal e um fio de azeite se for necessário. Cobrir com os pinhões, as alcaparras e servir, frio ou morno, as you wish.

serve 2 (os tomates até que servem bem 4, mas eu comi-os todos)


























a ouvir:  Brian Jonestown Massacre - Anemone


25.4.12

Um crumble, um processo e uma retrospectiva

Quando andamos em mudanças passamos sempre por aquela fase de selecção das coisas que queremos levar connosco daquelas que decidimos deixar para trás. Muita coisa é tralha que acumulamos por inércia e preguiça em decidir um destino adequado para elas, outras guardamos por acreditarmos que um dia poderemos precisar delas ou porque nos são oferecidas e não temos coragem nem para deitar fora, nem lata para oferecer a outra pessoa.
Depois há a tralha que preferimos não chamar de tralha. São as coisas que usámos com tanto carinho e durante tanto tempo que não temos coragem de as deixar partir, passo a expressão. A dificultar esse desprendimento está a crença íntima reconfortante de que no futuro serão pedaços de nós encontrados em algum sótão ou arca poeirenta pelos nossos filhos e netos, que os acarinharão e preservarão como património pessoal e intransmissível.
Depois há aquelas coisas que utilizámos muito mas que não carregam qualquer peso emocional e que serão substituídas sem qualquer dificuldade.
Ao longo deste processo passamos por momentos de dúvida e ligeira ansiedade, rimo-nos a bandeiras despregadas com lembranças de momentos hilariantes, bate uma pontada de melancolia. Descobrimos que mudámos como muita coisa que também mudou e verificamos que algumas coisas que tantas dúvidas e transtornos nos causaram na altura são simples e claras como a luz do dia. Apercebemo-nos que crescemos e que apenas temos uma vaga ideia de como é que isso aconteceu. Também nos lembramos do que tínhamos e já não temos e damo-nos conta da escassez de "matéria física" que nos ajudaria a relembrá-las. Comigo geralmente é isto que acontece com as coisas mais importantes. Deve ser por não ter em vista o seu fim ou por no momento ser impensável perder tempo a registá-lo que não na minha memória, a não ser que o próprio registo - um desenho, por exemplo - faça parte do momento. I wouldn't have it any other way.

Ao mudar-me para aqui deparei-me com muito pouca tralha e fiquei aliviada com a sensação de dever cumprido: foram 100 posts de exactamente aquilo que deveriam ser. Tudo o que lá está é meu, até mesmo o que não está. E fiquei feliz por perceber que ainda tenho mais para escrever, que o blogue ainda não se esgotou. É um registo em transformação, em constante evolução. Digo-o sem qualquer tipo de pretensiosismo e sim como uma espécie de introspecção. O que escrevemos, porquê e como o fazemos reflecte a nossa forma de estar na vida tanto a nível prático como metafísico.

Ao navegar pelas receitas para organizá-las por categorias apercebi-me que apesar da frequência com que escrevo, nem sempre as estatísticas correspondem aos factos. Apesar de ser aquilo que faço com mais frequência, as massas e os pequenos-almoços não "lideram" a tabela. As 2/3 receitas que julgo serem as que mais fiz durante o último ano ainda não foram publicadas e a carne aparece em abundância apesar de, sem contar com o frango, ser aquilo que menos cozinho. Creio que tem tudo a ver com a expectativa de retorno. O que é menos provável de ser repetido com maior frequência mais facilmente vai para o meu "repositório de experiências" do que as outras, cuja publicação pode acontecer a qualquer altura, assim que o seu contexto o exija. Além do mais, se publicasse tudo o que faço este blog teria pelo menos uma receita por dia.
No mundo das sobremesas não quis acreditar que ainda não tinha publicado um crumble, o meu doce de perdição: o compêndio perfeito de texturas, temperaturas e sabores. Coincidência das coindidências, decidi fazer um na véspera desta descoberta.

Estou feliz com esta mudança e ansiosa por mostrar a nova cozinha a toda a gente. Entrem, sintam-se à vontade, comentem e acima de tudo partilhem porque como já uma vez disse, não há nada melhor que cozinhar para os outros.



Crumble de aveia, côco e avelã com abacaxi flamejado

O abacaxi pode ser substituido por ananás. No entanto há que ter em conta que provavelmente a quantidade açúcar será aumentada devido à maior acidez do ananás. Desta vez utilizei a cachaça porque era o que tinha à mão. Podem substituir por outro tipo de rum, vodka ou aguardente.

5 fatias grossas de um abacaxi ou ananás pequeno

60ml de cachaça 
2 c.sopa de açúcar integral (rapadura ou mascavo, como é mais conhecido)

75g de manteiga
2/3 cháv. (85g aprox.) de flocos de aveia
1/5 cháv. (26g aprox.) de farinha
1 pitada de sal fino
1/5 cháv. de côco ralado natural
2 c.sopa de avelãs picadas


Num recipiente médio, colocar a aveia, a farinha, o sal, o côco e misturar bem (se for um tupperware nada melhor que tapar e agitar.) Acrescentar a manteiga partida aos pedaços e misturar tudo com as pontas dos dedos até ficar com pedaços grossos esfarelados e bem combinados.
Entretanto pré-aquecer o forno a 220ºC.

Cortar as fatias do abacaxi em pedaços com cerca de 2/3 cm.
Colocar o açúcar mascavado escuro numa frigideira e aqueçê-lo. Adicionar o abacaxi e envolver no açúcar durante uns segundos até começar a caramelizar.
Adicionar a cachaça, acender um isqueiro para flamejar e rodar a frigideira até o alcool evaporar e a chama apagar.

Colocar o ananás uniformemente num recipiente de forno médio ou dividido por quatro individuais.
Cobrir com a mistura do crumble e finalizar com as avelãs espalhadas.
Levar ao forno cerca de 25-35 minutos até o crumble estar bem dourado e o abacaxi a borbulhar por baixo.
Servir morno, de preferência com uma bola de gelado por cima - desta vez foi de limão.

serve 4




a ouvir: PUNCH Exclusive - Exotique