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1.10.12

A Catarina e o queijo - cabra, chèvre, goat, como quiserem chamar-lhe.

Tinha planeado para hoje uma coisa completamente diferente, sobre uma experiência maravilhosa que tive ontem, também ela, completamente diferente. Mas antes que passe mais um mês e este texto fique completamente descontextualizado, aqui o escrevo.

O queijo de cabra é o meu preferido, tenho dito. Eleger qual das suas variedades é a minha preferida já é pedir muito. Mas há qualquer coisa naquele sabor único do leite de cabra que trespassa todas as variedades deste queijo que me fascina. É difícil encontrar algo com que fique mal, seja doce, salgado, picante, quente, frio, carne e fruta. Não ponho as mãos no fogo pela sua combinação com peixe, mas quiçá? Eu não ("çá", ou sei). Só sei que fui muito feliz com ele este Verão, no meio das longas horas de trabalho masoquista. Com ele as ultrapassei e inclusive finalizei o quanto baste (comming soon). E por ele vou tomar a liberdade de fazer algo diferente, para mim e por mim - a verdade é que tudo o que consta neste manifestum não é mais que um registo para me relembrar sempre que necessário, com ou sem as memórias impreterivelmente associadas à altura em que foram escritas- mas também para vocês, porque há coisas, sabores e prazeres que não faz sentido serem desconhecidos a qualquer um que possa ter acesso a eles. Não é preciso dar voltas ao mundo nem esvaziar a carteira por eles. Anda-se 100 metros, gasta-se uma mão cheia de trocos, mexe-se um dedo (ou arranja-se uma boa amiga como eu para mexer o dedo por vocês) e já está.

Tomei como humilde missão enumerar aqui a minha história com o queijo, na expectativa de vir a ser, parte dela, a vossa história com ele. Hoje de cabra, amanhã (como quem diz), outra variedade qualquer.

Por isto tudo mas também porque adoro as fotografias e porque me divirto à brava a fazer isto, eis o início das histórias d'A Catarina e o queijo.



pequeno-almoço depois de correr: torrada de pão de kamut com queijo de cabra curado e melancia. 
Confesso que na altura achava que seria menos salgado que o fresco, ignorando totalmente o "curado", mas essa característica até veio a fazer da sua combinação com a melancia.

~



Não me canso de repetir a experiência que é provar algo da primeira vez, fruto de um rápido improviso, e ser absolutamente maravilhoso. 
Registar: pão alentejano torrado 
+
uma fatia de tomate on one side
pasta de azeitona: uma dúzia de azeitonas muito picadas, um dente de alho picado, pimenta, folhas de dois ramos pequenos de tomilho-limão. Tudo envolto numa pasta, juntando só azeite e sal no fim se for necessário. Leva 5 minutos se tanto. É simples mas os sabores estão lá todos e combinam na perfeição. Pode haver quem não goste do sabor a perfume (palavras do meu irmão) do tomilho-limão. Substituir por orégãos pode ser uma boa opção.
Esta dose só dá para uma vez (digo eu). Para duplicar, triplicar, multiplicar à vontade.

~



Omelete-que-não-é-bem-uma-omelete (mas que sabe igualmente bem, ou melhor até, para quem não gosta do excesso de óleo das ditas): Aquecer um fio de azeite na frigideira. Juntar o talo bem fatiado de um alho-francês pequeno (não se assustem com a quantidade porque diminui num instante). 
Deixar alourar bem e adicionar meia courgette grosseiramente ralada. Temperar com sal e pimenta. Nem quis adicionar nenhuma erva para deixar sobressair ao máximo o sabor do queijo e dos vegetais. 
Tapar e deixar estufar rapidamente até os vegetais estarem cozidos mas ainda com algum crocante. 
Adicionar um ovo batido, espalhando-o sobre os vegetais e terminar com um queijo cabra fresco despedaçado por cima. 
Finalizar com mais uma pitada de pimenta (usei uma mistura em moinho), reduzir o lume ao mínimo, tapar e deixar o ovo assentar e o queijo amolecer e inflar. 
Comer logo!

~



Doce, ácido, amargo e salgado numa salada de Verão:
esparguete integral com figos (não se incomodem em tirar a casca a não ser que esteja em mau estado), chèvre despedaçado, nozes tostadas, rúcula e um vinagrete de balsâmico e hortelã. 

~



Não fica bem uma senhora dizer qual o fenómeno que se ia dando no seu corpo ao dar a primeira dentada nesta sandes, depois de 7 horas sem comer e uma licenciatura acabada de concluir.
Pão de sementes com espinafre, queijo de cabra fresco e cogumelos brancos salteados em azeite, alho, vinho tinto (o rasca serve) e tomilho limão.



a ouvir: A walk - Tycho

24.7.12

A beleza não está nos olhos de quem vê




Os olhos abertos devem fazer-nos sentir mais seguros. É lógico, é essa uma das suas principais funções. Apesar disso é quando os fecho que a segurança verdadeiramente aparece e o medo se desvanece. Fecho-os muito para ver melhor também. De olhos fechados sou só eu e o que ouço e sinto sem a bengala enganadora do olhar que tantas vezes ilude, reclamando o estatuto do menos falível dos sentidos. Os olhos enganam pois. Olhares cruzados podem ser mal interpretados, uma flor menos bonita pode esbater o interesse em sentir o seu perfume, um mau design pode destruir um bom livro, um bolo de ar tosco e pouco atractivo pode não estar á altura da beleza do seu sabor (porque a beleza encontra-se em todos os sentidos).


Não fosse esta receita ser de quem é e eu confesso que muito provavelmente este bolo me passaria ao lado ou ficaria perdido no meio de tantos outros por onde passo os olhos ocasionalmente. No entanto, não só admiro o seu autor como o fui encontrar aqui, o que é logo à partida um bom presságio. Não me saiu da cabeça desde então, esperando pacientemente a enchente anual de ameixas da minha avó para dar asas ao meu desejo.

Os ingleses tem uma palavra para descrever a característica essencial e imediata deste bolo que até agora não encontrei o seu equivalente no nosso vocabulário: gooey.

goo·ey/ˈgo͞oē/

Não é só a palavra em si, é a maneira como soa. É como se a palavra fosse ao mesmo tempo significado e a sua própria interjeição. Mole, peganhento ou viscoso não chegam para definir a textura deste bolo, que é um pouco disso tudo mas também guloso, húmido e absolutamente saboroso. Sem dúvida no meu top de preferência.


Bolo de ameixas
retirado de Orangette, adaptado de Nigel Slatter, Tender, Volume II

O facto de ter três tipos de açúcares (sem contar com as ameixas) e dois deles líquidos é sem dúvida fundamental para a sua textura final e para o seu sabor intenso. Apesar de ser apologista das adaptações dos ingredientes sempre que necessário, neste bolo acho fundamental manter a receita fiel à original, principalmente no que diz respeito ao Golden Syrup (à venda por 3€ e tal no El Corte Inglés), que alteraria substancialmente não só o sabor mas também a sua textura.

250g de farinha 
1 c.chá ligeiramente mal medida de fermento em pó
1 c.chá de bicarbonato de sódio
1 c.chá ligeiramente mal medida de canela em pó
200g de golden syrup
2 c.sopa de mel
125g de manteiga
125g de açúcar de cana integral ou açúcar amarelo
2 ovos grandes
240ml de leite
350g de ameixas maduras, descaroçadas e cortadas ao meio ou em quartos (depende do seu tamanho)

Engordurar um uma forma para bolos de 24cm e forrar a base com papel vegetal. Eu deixo um bocado do papel de fora para ser mais fácil passar o bolo da forma para uma base depois de feito.
Numa grande tigela, combinar a farinha, o fermento, o bicarbonato e a canela. Misturar tudo muito bem (costumo misturar os ingredientes secos num tupperware, colocar a tampa e agitar).
Pré-aquecer o forno a 180ºC.
Colocar o golden syrup, o mel, e a manteiga numa panela a lume médio, mexendo ocasionalmente. Quando a manteiga estiver derretida acrescentar o açúcar. Retirar a panela do lume e deixar arrefecer um pouco durante 1-2 minutos.
Bater os ovos e o leite numa tigela média.
Verter a mistura do golden syrup na mistura da farinha e envolver com uma colher firme (a colher de pau é perfeita) até ficarem combinados. Verter a mistura dos ovos e do leite e continuar a envolver - inicialmente vai ser difícil e demorado misturar as duas partes, mas no fim a massa vai adquirir uma consistência bastante solta e líquida, quase sem nenhum vestígio da farinha, como se fosse massa para panquecas.
Colocar a massa na forma e colocar as ameixas por cima, que se irão afundar. Levar ao forno por 45-50 minutos (na receita original diz para levar durante 35 minutos, colocar um pedaço de folha de alumínio por cima e deixar no forno mais 10-15 minutos, mas eu preferi deixá-lo escurecer.) Desligar o forno e deixar lá o bolo mais uns 15-20 minutos.
Transferir para uma grelha para arrefecer durante uns 20 minutos. Depois retirar o bolo da forma e transferi-lo para cima da grelha para deixar arrefecer completamente antes de ser servido.

Este bolo conserva-se perfeitamente à temperatura ambiente, e por ser tão incrivelmente húmido, é preferível não o tapar de maneira muito apertada, porque pode ficar com uma textura elástica. Desde que se coma dentro de 2 ou 3 dias, um pedaço de papel vegetal pressionado contra as superdícies cortadas é o suficiente.

serve 8-10.


a ouvir: Need You Now - Cut Copy

19.7.12

depois de correr


batido de leite e cereja.

Acordar às 7 para correr. Depois das 10 o calor já não se aguenta.
Há uma grande ciência, por vezes duvidosa, no que diz respeito à alimentação pré e pós exercício, deixem-me que vos diga.


p.s. serei eu a única pessoa a não achar piada nenhuma à ideia de um gelado de pastel de nata?? Então e o crocante da massa? E a textura do creme? E o aroma quente que nos entra pelas entranhas? 

26.6.12

Uma tarte cheia de um quilo de nada

Chegados a meados de Junho, as nêsperas, as ameixas e os pêssegos invadem esta casa. A pequena área que constitui o quintal da minha avó é um pequeno oásis no discreto, cuja aparente anarquia estrutural ilude aqueles que ainda não provaram as suas maravilhas sagradas, desde a fruta de Verão, passando pela lúcia-lima que cresce incessantemente ao lado da hortelã e dos poejos e claro, das majestosas nozes que mais parecem pequenos côcos.



Por cá gostamos de nêsperas, mas tudo o que é em demasia também cansa. Como por sua vez, as tartes são sempre em moderação, a combinação pareceu-me ideal, se bem que pouco tempo depois lembrei-me que um clafoutis também não cairia nada mal. A ver vamos com as ameixas. Depois de ter descascado e descaroçado 1 quilo delas, não cheguei a esvaziar nem um terço da caixa que as contém (ver imagem acima).

Depois é só estufar na panela com um bocadinho de açúcar e baunilha, rechear a massa que de tosca só tem a aparência, pincelar, polvilhar, forno e já está. O pior é resistir trincar a massa deliciosamente estaladiça, daquelas que faz toque-toque quando se bate com o dedo, assim que sai do forno. Mas com uma bola de gelado, vale a pena esperar.
















Galette de Nêsperas
receita da massa da galette de Chez Pim

Arrisco a dizer que a tarte só fica a ganhar com mais um quilo de nêsperas, uma vez que depois de descascadas e descaroçadas ficam reduzidas a metade. Com o dobro da quantidade a mesma dose de massa fica mais recheada, com uma proporção mais equilibrada e serve à vontade o dobro das pessoas.
Experimentei colocar um ramo grande de erva-cidreira para fazer uma infusão com as nêsperas mas não me parece ter tido grande efeito. 
O limão foi mais para impedir que a cor da fruta escurecesse, por isso não me parece que seja fundamental. Se não utilizarem não ponham tanto açúcar, pelo menos numa fase inicial.
O ovo pincelado no fundo da base é fundamental para criar uma camada de protecção contra a humidade do recheio e para garantir que a massa fica estaladiça.
Por falar em massa, a receita que utilizei faz uma massa folhada fantástica, apesar de não ser absolutamente necessária para esta tarte. Para uma base com uma consistência mais crocante a minha escolha vai sempre para esta.


125g de farinha
112,5g de manteiga fria com sal
30ml de água fria
1 ovo batido
açúcar mascavado


1kg de nêsperas
2-4 c. sopa de açúcar
1 vagem de baunilha
sumo de 1/2 limão, opcional
1 ramo de erva cidreira, opcional
50ml de água


Para fazer a massa é importante antes de mais que as mãos estejam frias. Colocar a farinha num monte sobre a bancada, juntar a manteiga cortada em pedaços grandes, cobrindo-os por inteiro de farinha.
Pressionar a manteiga na farinha com o calcanhar da mão esquerda enquanto a direita agarra um raspador, utilizando-o para juntar constantemente a farinha que se vai afastando ao monte (os canhotos fazem com as mãos contrárias).
Continuar a pressionar e raspar até a manteiga se assemelhar a pequenos flocos pressionados na farinha, continuando até obter mais flocos que farinha, terminando com flocos pequenos e algumas migalhas.
Fazer um vulcão no centro da mistura da farinha e colocar a água no buraco, trabalhando depressa para envolvê-la na farinha, criando uma massa. Raspar a massa novamente sobre si mesma até obter um pedaço consistente e coeso. Formar uma bola, cobrir com película aderente e deixar no frigorífico 30 minutos ou até arrefecer.
De seguida, enfarinhar a bancada generosamente. Colocar a massa e polvilhá-la igualmente com farinha. Amassar com um rolo até obter um rectângulo alongado. Pegar numa ponta e dobrar até 2/3, limpando a farinha agarrada à massa com um pincel. Dobrar a outra ponta, limpando novamente a farinha. Polvilhar mais farinha sobre a massa, virá-la a 90º, amassar novamente num rectângulo semelhante ao inicial e repetir mais 2-3 vezes. Quantas mais vezes esta operação for feita, mais folhada ficará a massa.
Amassar uma última vez num rectangulo mais pequeno para que forme um quadrado quando dobrado. Formar um circulo com o quadrado, embrulhar e refrigerar no mínimo 30 minutos antes de desenrolar para a tarte.

Para o recheio da tarte, começar lavar as nêsperas muito bem, descascá-las e descaroçá-las. As minhas como eram pequenas cortei apenas em dois, mas se forem maiores o melhor é cortar em 4 ou mais pequeno.
Colocar as nêsperas numa panela com o sumo de limão, o açúcar, a vagem de baunilha aberta longitudinalmente, a água, a erva cidreira se forem utilizar e levantar fervura, deixando a panela ao lume durante 45 minutos ou até a fruta ter amolecido e se ter formado um xarope com o açúcar, a água e os sucos da fruta.

Para finalizar a tarte, pré-aquecer o forno a 200ºC. Estender a massa até que fique com cerca de 25-30cm numa base para forno sobre papel vegetal. Pincelar com o ovo ligeiramente, rechear com as nêsperas deixando uma margem de massa de 5-8 cm. Dobrar a massa sobre as nêsperas para "selar" a tarte, pincelar com o ovo e polvilhar generosamente com açúcar mascavado sobre toda a tarte.
Levar ao forno durante 45-50 minutos, ou até a a fruta estar a borbulhar e a massa estar estaladiça e obter um tom forte dourado.
Deixar arrefecer antes de atacar e servir com uma bola de gelado de baunilha.


serve 4-8, dependendo da gula de cada um (com o dobro do recheio ainda pode chegar aos 12)



a ouvir: O Futuro - B Fachada

16.6.12

33,3




































33,3% bircher, 33,3% muesli e 33,3% de outra coisa qualquer.

O original (e que tenho ainda as minhas dúvidas que este realmente o seja) está aqui.
O desenrascado-mas-igualmente-bom, aqui. E para não induzir ninguém em erro, traduzo para bom português o que fiz. É tão simples que para dizer a verdade tenho até um bocado de vergonha de escrever aqui aquela que será a sua "receita". As combinações são intermináveis.


Aveia com iogurte, maçã ralada e fruta

1 cháv. (120g aprox.) de flocos de aveia
1 (125g) de iogurte natural
120ml de sumo de maçã
1/2 maçã, ralada

variação 1:
cerejas

variação 2:
1 banana 
1 punhado de morangos

variação 3:
sem maçã e o sumo na base
1/2 romã
1 laranja 
1 manga

variação 4:
1 maçã 
1 punhado de mirtilos

variação 5:
2 maracujás 
1 manga


Misturar bem a aveia com o iogurte e o sumo de maçã pelo menos meia hora antes de comer.
Adicionar a maçã ralada e misturar novamente.
Dividir por duas tigelas, adicionar o resto da fruta e servir bem fresco.

serve 2

a ouvir:

16.5.12

bons dias

Não me reconheço, estou rendida aos kiwis. Biológicos sim, como as tangerinas. Poderão dizer alguns que é sugestão. Pois eu digo que não é, não. E que fosse! Assim não me importo de ser "sugestionada". São maravilhosos.



pão maravilhoso-denso-rico-saboroso-carissimo!-alemão com queijo-creme, peito de perú e tangerina.



pão com queijo-creme e le beau kiwi.

torrada com queijo-creme e mel, meloa e chá verde.

25.4.12

Um crumble, um processo e uma retrospectiva

Quando andamos em mudanças passamos sempre por aquela fase de selecção das coisas que queremos levar connosco daquelas que decidimos deixar para trás. Muita coisa é tralha que acumulamos por inércia e preguiça em decidir um destino adequado para elas, outras guardamos por acreditarmos que um dia poderemos precisar delas ou porque nos são oferecidas e não temos coragem nem para deitar fora, nem lata para oferecer a outra pessoa.
Depois há a tralha que preferimos não chamar de tralha. São as coisas que usámos com tanto carinho e durante tanto tempo que não temos coragem de as deixar partir, passo a expressão. A dificultar esse desprendimento está a crença íntima reconfortante de que no futuro serão pedaços de nós encontrados em algum sótão ou arca poeirenta pelos nossos filhos e netos, que os acarinharão e preservarão como património pessoal e intransmissível.
Depois há aquelas coisas que utilizámos muito mas que não carregam qualquer peso emocional e que serão substituídas sem qualquer dificuldade.
Ao longo deste processo passamos por momentos de dúvida e ligeira ansiedade, rimo-nos a bandeiras despregadas com lembranças de momentos hilariantes, bate uma pontada de melancolia. Descobrimos que mudámos como muita coisa que também mudou e verificamos que algumas coisas que tantas dúvidas e transtornos nos causaram na altura são simples e claras como a luz do dia. Apercebemo-nos que crescemos e que apenas temos uma vaga ideia de como é que isso aconteceu. Também nos lembramos do que tínhamos e já não temos e damo-nos conta da escassez de "matéria física" que nos ajudaria a relembrá-las. Comigo geralmente é isto que acontece com as coisas mais importantes. Deve ser por não ter em vista o seu fim ou por no momento ser impensável perder tempo a registá-lo que não na minha memória, a não ser que o próprio registo - um desenho, por exemplo - faça parte do momento. I wouldn't have it any other way.

Ao mudar-me para aqui deparei-me com muito pouca tralha e fiquei aliviada com a sensação de dever cumprido: foram 100 posts de exactamente aquilo que deveriam ser. Tudo o que lá está é meu, até mesmo o que não está. E fiquei feliz por perceber que ainda tenho mais para escrever, que o blogue ainda não se esgotou. É um registo em transformação, em constante evolução. Digo-o sem qualquer tipo de pretensiosismo e sim como uma espécie de introspecção. O que escrevemos, porquê e como o fazemos reflecte a nossa forma de estar na vida tanto a nível prático como metafísico.

Ao navegar pelas receitas para organizá-las por categorias apercebi-me que apesar da frequência com que escrevo, nem sempre as estatísticas correspondem aos factos. Apesar de ser aquilo que faço com mais frequência, as massas e os pequenos-almoços não "lideram" a tabela. As 2/3 receitas que julgo serem as que mais fiz durante o último ano ainda não foram publicadas e a carne aparece em abundância apesar de, sem contar com o frango, ser aquilo que menos cozinho. Creio que tem tudo a ver com a expectativa de retorno. O que é menos provável de ser repetido com maior frequência mais facilmente vai para o meu "repositório de experiências" do que as outras, cuja publicação pode acontecer a qualquer altura, assim que o seu contexto o exija. Além do mais, se publicasse tudo o que faço este blog teria pelo menos uma receita por dia.
No mundo das sobremesas não quis acreditar que ainda não tinha publicado um crumble, o meu doce de perdição: o compêndio perfeito de texturas, temperaturas e sabores. Coincidência das coindidências, decidi fazer um na véspera desta descoberta.

Estou feliz com esta mudança e ansiosa por mostrar a nova cozinha a toda a gente. Entrem, sintam-se à vontade, comentem e acima de tudo partilhem porque como já uma vez disse, não há nada melhor que cozinhar para os outros.



Crumble de aveia, côco e avelã com abacaxi flamejado

O abacaxi pode ser substituido por ananás. No entanto há que ter em conta que provavelmente a quantidade açúcar será aumentada devido à maior acidez do ananás. Desta vez utilizei a cachaça porque era o que tinha à mão. Podem substituir por outro tipo de rum, vodka ou aguardente.

5 fatias grossas de um abacaxi ou ananás pequeno

60ml de cachaça 
2 c.sopa de açúcar integral (rapadura ou mascavo, como é mais conhecido)

75g de manteiga
2/3 cháv. (85g aprox.) de flocos de aveia
1/5 cháv. (26g aprox.) de farinha
1 pitada de sal fino
1/5 cháv. de côco ralado natural
2 c.sopa de avelãs picadas


Num recipiente médio, colocar a aveia, a farinha, o sal, o côco e misturar bem (se for um tupperware nada melhor que tapar e agitar.) Acrescentar a manteiga partida aos pedaços e misturar tudo com as pontas dos dedos até ficar com pedaços grossos esfarelados e bem combinados.
Entretanto pré-aquecer o forno a 220ºC.

Cortar as fatias do abacaxi em pedaços com cerca de 2/3 cm.
Colocar o açúcar mascavado escuro numa frigideira e aqueçê-lo. Adicionar o abacaxi e envolver no açúcar durante uns segundos até começar a caramelizar.
Adicionar a cachaça, acender um isqueiro para flamejar e rodar a frigideira até o alcool evaporar e a chama apagar.

Colocar o ananás uniformemente num recipiente de forno médio ou dividido por quatro individuais.
Cobrir com a mistura do crumble e finalizar com as avelãs espalhadas.
Levar ao forno cerca de 25-35 minutos até o crumble estar bem dourado e o abacaxi a borbulhar por baixo.
Servir morno, de preferência com uma bola de gelado por cima - desta vez foi de limão.

serve 4




a ouvir: PUNCH Exclusive - Exotique