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7.1.13

Duas semanas e picos e um bolo de gengibre


Passei. Pequeno-almoço de pré-encartada. Comei um grande doce e passai.
Estes poderiam ser hipotéticos título e legendas para esta fotografia. Mas não são. A sua legenda na verdade vai algo assim: "Como começar o dia da melhor maneira para o continuar num íngreme e acelerado declive" ou "Pequeno-almoço da quase condutora que não o é porque depois de uma prova quase excelente decidiu meter-se numa via em contra-mão". Algo assim.
Já passou. Excepto que o que me fez cometer o erro é o que mais me assusta. Quando no meio de alguma sincera e profunda concentração algum canal do meu cérebro entope e por momentos os sentidos desligam-se da percepção, algo entre a cegueira mental e uma amnésia micro-temporal que elimina a capacidade de raciocínio da minha mente, sendo preciso um trabalho de esforço brutal para que isso não aconteça. Não me lembro desde quando o tenho, mas já há tempo suficiente para o recear desde o primeiro dia que pus as mãos no voltante. Inconscientemente, porque nunca o racionalizei, mas sempre o senti.
Mas já passou. Para todos os males, gozar comigo mesma ajuda sempre, é o que me vale. E dormir também. E neste caso específico, ter uma mãe que passou à 2ª e um pai que só passou à terceira também torna o processo menos difícil. Obrigada...(?)

Festas e coisas.
O 12? Uma das pista, da caça ao tesouro que "ofereci" à familia, enfiada na lombada descozida da velha e resistente enciclopédia portuguesa de lá de casa. Caça essa que nos salvou do mal da enganosamente bem afamada noite, que de especial não tem muito para ninguém, sendo que manifestações de desagrado só pela calada. 20 pistas passando por códigos de números de telefone, manifestos nas "boas concelheiras",  fazer o que o Jorge Palma pede, pedir ajuda ao Gandhi e carregar no play, terminando num pedido com jeitinho e um beijinho. Salvei-nos e foi muito divertido.



Depois recebi mimos. E comecei a fazer um cachecol verde.



Fiz 80 azevias. O Senhor Tempero fechou e ainda me dá um aperto no coração de pensar nisso.
Mas vai passar.
Uma passagem de ano prevista a ser passada em casa a bocejar à espera da meia-noite transformou-se na melhor até à data. Venham mais. Não as passagens, a diversão e boa companhia.




E este bolo é ou se gosta mesmo muito, ou não se gosta mesmo nada. Em tudo é intenso, em nada contido. Textura intensa, sabor intenso, cheiro intenso, cor intensa. Dá vontade de usar linguagem de descrição de perfumes para o descrever: "uma fragrância tal, voluptuosa e irresistível, com umas notas de cabeça frescas, passando para umas notas de coração de um crescendo picante e aromático chegando a umas notas de fundo quentes, escuras, prometendo uma cumplicidade íntima total entre si os demais presentes à volta da mesa."

Quem não gosta de gengibre, come bolo-rei.



Bolo de gengibre e cerveja preta
adaptado de Gourmets Amadores

Para quem não é fã de sabores muito intensos este bolo não é sem dúvida uma boa opção. A mistura de especiarias grita Natal e perderia metade da piada se não fosse assim. Também seria interessante ver o efeito de um pouco de raspa ou sumo de laranja misturado na massa, são sabores que ligam naturalmente bem com as especiarias e por isso deve valer a pena experimentar. A textura é húmida mas bem consistente, a lembrar remotamente a textura de uma tigelada, talvez pela pouca quantidade de farinha e da utilização da cerveja e de tantos ingredientes líquidos. Hei-de pesquisar.
A receita original diz o bolo pode ser feito com uma semana de antecedência e guardado numa caixa, coberto com papel vegetal e película aderente. Eu guardei duas e também ficou muito bom. Mas bem guardadinho.

200ml cerveja preta
125g manteiga
225g golden syrup
165g açúcar integral (rapadura)
1 1/2 c.chá de gengibre em pó
1 1/2 c.chá de canela
1/4 c.chá de cravinho, moído
1/4 c.chá de anis estrelado, moído
225g farinha
1 e 1/2 c.chá de bicarbonato de sódio
200ml de natas magras
2 ovos

Pré-aquecer o forno a 170ºC. Forrar o fundo de um tabuleiro de 20x30cm ou de área semelhante com papel vegetal e pincelar com manteiga.
Colocar o açúcar, a cerveja, o golden syrup, a manteiga e as especiarias num tacho em lume brando até todos os ingredientes estarem derretidos.
Numa tigela grande, peneirar a farinha e o bicarbonato de sódio.
Retirar a mistura de açúcar do lume e mexendo com uma vara de arames, verter sobre a farinha.
Bater bem até obter uma mistura homogénea e lisa.
Misture as natas com os ovos, bater ligeiramente e adicionar à mistura anterior. Envolver totalmente e verter a massa no tabuleiro.
Levar ao forno 45 minutos ou até estar cozido. Deixar arrefecer completamente antes de cortar em quadrados. Servir com uma bola de gelado de baunilha, polvilhado com açúcar em pó só mesmo para ficar quase tão bonito quanto sabe.

faz 10 generosas fatias, 12 bem-comportadas.


a ouvir: Skin - Grimes

27.11.12

Quem ama e corre por gosto, cozinha, espera, come uns rolinhos de açúcar e canela com um cheirinho a cardamomo, sempre alcança e não cansa.

Enquanto assistia ao cada vez melhor e sempre fantástico desempenho de um bom amigo, o medo assaltou-me: E se cresce demais? E se coze antes de a poder trabalhar novamente? Sorrateira e nervosamente, debaixo do casaco os meus dedos cegos escrevem "mãe se a massa já viver duplicado visa la do quente sff" na esperança de que a mencionada consiga decifrar a mensagem e aceder ao pedido. Valeu-me este tempo quentinho que foram necessárias, não uma nem duas, mas sim quase cinco horas para que o aquecedor surtisse o efeito desejado.

Cada vez que deixo massa a crescer instala-se um nervoso miudinho que só desaparece depois da primeira dentada, já fora do forno. Mas cada vez que deixo massa a crescer sinto um orgulho especial de quem conseguiu fazer alguma coisa entre uma experiência química e um número de magia.





































Mas algo mais me fez começar estes bolos-que-não-o-chegam-bem-a-ser às cinco e meia da tarde, uma hora depois pôr a massa a crescer em cima de um banquinho em frente ao aquecedor da sala, às sete sair, à meia-noite e meia voltar, formar os bolos e à uma voltar a pô-los a crescer em frente ao aquecedor (bendita Downtown Abbey que me manteve bem acordada) até às duas da manhã, quand decido desligá-lo e deixá-los ali, literalmente a fermentar no calor da sala, e acordar às nove do dia seguinte, congelar metade e levar a outra ao forno enquanto ponho rapida e eficientemente a mesa para um pequeno almoço-especial. É que foi o aniversário deles, do gajo de vinte e seis e da gaja de vinte e cinco anos que à vinte e três decidiram fazer uma coisa, hoje em dia aparentemente tão disparatada e desacreditada (no sentido em que a expressão utilizada é "não acredito no") que é celebrar o amor e a união entre eles e marcar o início de uma nova vida. Muitas novas vidas, aliás, começando pela minha.
E porque qualquer bom acto altruísta parte inevitavelmente de uma vontade egoísta, fi-los porque adoro o pequeno-almoço, porque é daquelas receitas que de quando em vez me assaltam a vista enquanto navego pelos sitios do costume e porque são aqueles bolos que podemos comer dois ou três de uma vez sem nos sentirmos culpados, principalmente o fazemos acabados de sair do forno, celebrando com quem amamos, numa manhã chuvosa de domingo.
Eram doze, sobraram zero.



Só mais duas ou três coisas:


Se gostam carreguem no link e e botem o polegar no ar por favor (como quem diz façam Gosto / Like / J'aime / Gefällt mir / Gilla / Me gusta / Mi piace / 讚 ! Obrigada.

Iogurte de soja natural é das piores coisas que já comi.

Hoje vou ver Black Keys, só para deixar registado.







































Rolinhos de açúcar e canela com um cheirinho a cardamomo
ligeiramente adaptado de 101 Cookbooks

Apesar de a tradição mais fiel de bun ser bolo/bolinho, eu considero estes rolinhos uma espécie de pães doces, da familia dos scones, croissants e dos brioches. Como tal, nem bolo nem pão - um rolinho.
Doces mas de sabor subtil, são super versáteis e fáceis de personalizar, transformando um saboroso pequeno-almoço num lanche ou petisco guloso. Pela net encontra-se 1001 variedades desta receita, desde esta simples com um toque a cardamomo que não minha opinião poderia ser mais evidente, até outros não menos apelativos que já tenho debaixo de olho para o Natal, com uma calda de noz, mel e laranja.

4 c.chá de fermento de padeiro seco
1 cháv. de leite morno
100g de açúcar amarelo
1 ovo grande, batido
125g de manteiga sem sal, ligeiramente derretida
1 c.sopa de cardamomo em pó
1 c.chá de sal fino
600g de farinha

60g de açúcar amarelo
2 c.sopa de canela
65g de manteiga sem sal, amolecida

1 ovo batido com 1 c.sopa de água
açúcar grosso para polvilhar ou glacé de bourbon ou brandy (ou simplesmente um bom wisky, para os portugueses)


Polvilhar o fermento sobre o leite morno numa tigela grande. Adicionar uma pitada do açúcar e mexer para dissolver o fermento. Deixar repousar durante uns minutos até começar a formar espuma. Adicionar o restante açúcar, o ovo, a manteiga derretida e o cardamomo. Misturar até ficar tudo dissolvido e suave. Misturar o sal com a farinha e de seguida adicionar gradualmente à primeira tigela, pouco a pouco, incorporando a farinha totalmente após cada adição.
Transferir a massa para uma superfície enfarinhada e amassar 8-10 minutos, ou o que for suficiente para que  resulte numa massa lisa e elástica (eu por exemplo, amassei cerca de 5 minutos apenas por já ter de certo modo amassado enquanto incorporava a farinha, no fundo segui o meu instinto e resultou bem).
Transferir a massa para uma tigela engordurada. Virar a massa na tigela para ficar engordurada e cobrir com um pano de cozinha.
Deixar a massa crescer num local com sol ou quente até ter duplicado, cerca de 1 hora. Cortar a massa ao meio numa superfície enfarinhada e formar uma bola com cada metade. uma de cada vez, amassar cada bola num rectângulo de 30cm e 12mm de grossura.

Para o recheio, combinar o açúcar e a canela numa tigela pequena.
Pincelar metade da mantiga igualmente sobre um dos rectângulos de massa.
Polvilhar metade da mistura do açúcar sobre a manteiga, enrolar a massa de forma apertada longitudinalmente, e virá-la com a borda para baixo, pressionando ligeiramente.
Cortar o rolo em 12 pedaços iguais, uma faca de serra é o ideal para isso. Os pães podem ir ao forno com o lado cortado virado para cima, num tabuleiro forrado com papel vegetal, em formas de cupcakes, ou numa travessa ou prato de forno engordurada, como uma forma de tartes, que foi o que utilizei.
Colocar os pedaços a cerca de 1,5cm de distância entre eles se forem cozidos no tabuleiro ou no prato, para que possam crescer de forma a que fiquem aconchegados na base onde estão a ser cozidos. Repetir o processo com a massa restante e o recheio. A esta altura, as fatias que não vão ser cozidas podem ser congeladas.
Cobrir os rolos preparados com uma toalha seca e deixá-los crescer novamente num local morno até terem dobrado de volume, cerca de 1h. O tempo de crescimento aqui depende da temperatura do local, pelo que pode variar.

Aquecer o forno a 205ºC com a prateleira no 3º andar mais alto.
Pincelar os rolos com o ovo e água batidos e polvilhar com açúcar, se for desejado.
Cozer os rolos até ficarem bem dourados, cerca de 15-18min. Não cozer demaziado ou irão secar. Retirar do forno e servir quentes se possível, ou ao natural, com uma pincelada de cobertura glacé sobre cada rolo ou mesmo com o glacé servido numa tigela para cobrirem os rolos a gosto.


faz 24 pequenos rolos




a ouvir: Matilda - Alt-J

21.11.12

Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta, disse eu

Passaram aproximadamente 90 semanas de almoços na faculdade e dois anos deste manifesto e nunca esta receita veio aqui parar. Não por falta de oportunidades. Aliás, sempre que a altura se proporcionava a minha linha de pensamento foi na linha do "para quê fazer agora quando o posso fazer mais tarde, noutro dia, numa outra história, noutro contexto? Contextos não faltarão com certeza...!" E não faltaram, efectivamente.

Três anos se passaram e este foi um dos almoços mais repetidos.
Na merenda vai a emenda para qualquer tormenta - assim mandei escrever no meu epitáfio académico. Saber que depois de três horas por vezes longas de mais tinha algo à minha espera.
Por vezes novo, por vezes velho, mas sempre entusiasmante e acima de tudo, sempre eficaz: complementando um dia bom ou medicando um a precisar de algum incentivo.
A história deste couscous são todas as histórias que lhe pertencem e a que pertenceu. Três anos (and counting!) absolutamente recheados de histórias.
Agora a receita de sempre, ligeiramente melhorada, numa "faculdade" diferente.

























Couscous de cominhos, gengibre e açafrão com vegetais assados e passas

Este simples prato dá largas à imaginação para adicionar, tirar, adaptar, juntar de 1001 maneiras possíveis. Com ou sem coentros, com ou sem frutos secos, um pedaço de limão em conserva bem picadinho, uma colherada de iogurte grego mesmo no fim, um pedaço de frango desfiado, uma maçã aos cubos adicionada aos vegetais no forno e talvez uma pitada de canela. Vão sentindo o que vos apetece e jogando com isso. Go for your heart and eat with your soul. ;)

700g de abóbora, aos pedaços de 1-2cm
2 cebolas médias, picadas
4 cenouras fatiadas com cerca de 0.5cm de espessura
2 courgettes médias, em rodelas de 1cm aproximadamente
2 c.chá de sal grosso
1 c.chá de pimente preta fresca
2 c.sopa de azeite
1 1/2 cháv. de couscous
1 cubo de caldo de vegetais
2 c.chá de cominhos
1 c.chá de gengibre em pó
3 c.chá de curcuma / açafrão-das-índias
60g de passas
1 cháv. de pinhões ou nozes tostadas, grosseiramente picadas (opcional)
1 molho de coentros e cebolinho, picados

Pré-aquecer o forno a 190ºC.
Preparar os vegetais e colocar todos num tabuleiro de forno e temperar com o sal, a pimenta e o azeite.
Levar ao forno cerca de 30 minutos, ou até os vegetais estarem cozinhados e bem assados, o que deverá depender do tamanho dos pedaços, envolvendo uma vez durante esse tempo.
Colocar o couscous e as especiarias numa tigela e ferver 1 1/2 cháv. de água com o cubo de caldo de galinha. Quando ferver, colocar sobre o couscous e tapar bem com uma tampa ou película aderente durante 5-7 minutos. Retirar a tampa e soltar bem com um garfo.
Juntar os couscous aos vegetais, adicionar as passas, as nozes ou pinhões e os coentros e cebolinho picado.
Servir de imediato ou servir frio, adicionando as ervas frescas apenas na altura de comer.

serve 4


a ouvir: The Motherlode // Mahogany Session - The Staves

10.11.12

Mimos do Poial - o poblano negro




































Já no fim de um longo encontro repleto de novidades - novas pessoas, novos caminhos, novos sabores e imensas descobertas, de mimos na mão e prestes a ir embora, infiltro-me na conversa entre alguém falar com Lorena, mexicana de yema - e com uma outra pequena a germinar na barriga - sobre o que fazer com todos aqueles poblanos, jalapeños, malaguetas, e et caeteras de pimentos oferecidos, nomeadamente aquele negro, de formato semelhante ao pimento doce italiano mas mais pequeno e de ar um tanto intimidante.

Ao contrário de alguns improvisos em que não me consigo libertar das combinações de sabores estandardizadas pelas culturas gastronómicas e pela sabedoria popular, as palavras poblano e pêssego suscitaram em mim meia-dúzia de sabores que eu soube que iriam funcionar.

Informação retida e processada a invulgar inspiração, da sugestão inicial muito pouco ficou. Os pêssegos transformaram-se em alperces secos, a carne substituí somente por couscous e pinhões tostados e todas as especiarias, ervas e pequenos acrescentos surgiram da intuição. A confecção foi ao sabor do vento e, ainda que um pouco atabalhoada, acabou por correr tudo muito bem.



No final, faltou eventualmente uma simples salada fresca a acompanhar para amenizar a quantidade insensata de malagueta que utilizei. A minha falta de tacto e experiência em certas circunstância levam-me a cometer alguns erros como o mencionado anterior e a ligeira secura que ficou à superfície do couscous. Apesar disso, a textura ligeiramente crocante do couscous não é de menosprezar, porque acaba por contrastar com o interior mais húmido do pimento. Fica um pouco à semelhança do gratinado do arroz de pato. De resto, modéstia à parte, posso dizer seguramente que foi das melhores coisas que já comi.




































Pimento recheado com couscous, alperces secos e pinhões
Se não estiverem numa de usar o forno cortem o pimento às tiras e coloquem na frigideira a saltear ao mesmo tempo da chalota e dos alperces. Se estiverem numa de juntar carne, by all means. Se forem quiserem juntem queijo. The sky (ou o que tiverem na despensa) is the limit!

1 pimento jalapeño (um pimento doce regular serve perfeitamente, embora não seja picante), dividido em dois longitudinalmente, sem sementes
2 c.chá de azeite
cerca de 1/2 c.café de canela
1 c.café de cominhos
1 c.café de pimenta da jamaica
1/4 malagueta, finamente picada e sem sementes
20g de alperces secos, picados grosseiramente
3g de pinhões, ou mais ao vosso gosto
1 chalota, às rodelas finas
45g de couscous + a mesma quantidade em volume de água, ou a mesma quantidade de arroz + o dobro do volume em água
1 c.chá cheia de hortelã picada
2 c.chá de alecrim, picado
sal q.b
1/8 de limão em conserva, fatiado finamente
1/2 queijo fresco ou parmesão fresco ralado a gosto, opcional

Pré-aquecer o forno a 200ºC. Colocar as metades do pimento numa travessa de forno e reservar.
Aquecer o azeite na frigideira com as especiarias e a malagueta até começarem a libertar aroma, cerca de dois minutos a lume baixo.
Aumentar ligeiramente o lume e juntar os alperces, os pinhões e a chalota e saltear até os pinhões ganharem um tom dourado, cerca de 5 minutos.
Adicionar o couscous, as ervas e o limão em conserva, mexendo constantemente até o couscous começar a ganhar cor e o limão a caramelizar ligeiramente.
Adicionar a água, tapar e deixar o coscous cozer completamente a lume baixo, adicionando mais água se começar a secar muito cedo. Provar e rectificar com sal se for necessário.
Retirar a mistura do lume e rechear os pimentos completamente, apertando bem para que caiba tudo lá dentro - não há problema se transbordar um pouco. Nesta altura se quiserem coloquem meio queijo fresco fatiado por cima do couscous para que derreta no forno ou polvilhem com parmesão ralado.
Levar ao forno durante 30 minutos ou até o pimento estar bem tenro e começar a chamuscar e o couscous ganhar um tom dourado e tostado.
Servir quente, acompanhado com uma salada fresca simples com um vinagrete de limão e mostarda.


serve 1





















a ouvir: Number 1 - Goldfrapp


27.9.12

Summer "falls", um trocadilho que só funciona em inglês.


Cada vez gosto mais do Outono, cada vez gosto mais da mudança das estações e das suas diferenças, ainda que essas sejam cada vez menos evidentes. Mas há mudanças que não mudam, passo a redundância, e para esta refeição queria fazer era algo como estes dias: com resquícios de um Verão acabado de passar e indícios de um Outono que apetece.

São as águas de Março em Setembro. Promessas de vida, esperanças latentes, cheiros a terra molhada das primeiras chuvas imprevistas. O mundo é feito para os que não se governam com estados permanentes, como eu. É feito de ciclos que prometem o equilíbrio saudável da Espécie. Agora corre-se para aproveitar os restos até à próxima vez: absorvemos com urgência os últimos raios de Sol quente, dá-se os últimos longos passeios sem cachecol pela cidade, aproveita-se as últimas refeições frescas ao ar livre, os últimos eventos a céu aberto disseminados por todo o lado. E eu, enquanto apanho nas costas e no rabo o quente do Sol das primeiras horas da manhã a contrastar com o frio que já se faz sentir, deito a mão às últimas framboesas da época para me vingar das tartes que não fiz e às boas laranjas que começam a aparecer, combinando-as com aromas que evocam tempos frios em casa quente.
E assim foi. Um pequeno festim que por curtas horas apaziguou, ou simplesmente mascarou, pequenos conflitos e acalmou corações revisitando fotografias antigas, memórias de um passado agressivamente presente, de tempos diferentes, para nunca mais repetir, e nós sem saber
o que pensar. Pelo que mais vale assim: comemos, rimos, choramos e voltamos a viver.




Chamem-lhe restos: pão integral com sementes, a perna de pato que sobrou, os agriões que sobraram, os coentros que sobraram e rebentos de soja (que sobraram, mas de outro almoço)
Este pertence À lista.

Aqui deixo um pato, dois acompanhamentos e um remate. Não sei se prefiro a sofisticação do pato com a batata num almoço de familia ou a simplicidade de uma bruta e maravilhosa sandes de pão de cereais, agrião, rebentos de soja e a carne desfiada da perna que sobrou a servir de aconchego numa pausa do trabalho. Para dizer a verdade até sei, mas nao quero influenciar ninguém.
Procurei, procurei e não encontrei qualquer tarte funda com framboesas e chocolate. Ainda assim arrisquei e o resultado está aqui.



Pernas de pato na frigideira com citrinos e especiarias

Devido à complexidade de sabores no pato, a batata doce não leva mais nada a não ser isso mesmo: batata e uma pequena pitada de sal. Na altura de servir basta regar as batatas com uma colher do molho do pato e polvilhar com uma dose de coentros bem picados. O travo amargo agrião faz na minha opinião um balanço perfeito com a doçura da batata e das especiarias, da gordura e intensidade do pato e da subtil acidez do limão. Cuidado com o sal no fim porque o limão em conserva também já acrescenta bastante ao molho.

6 pernas de pato
1 c.sopa cheia de canela
1/2 c.sopa de noz-moscada
sumo de 1 laranja
1 c.sopa de sal, mais a gosto
pimenta preta, q.b

3 batatas doces grandes
3 batatas médias
1 molho de coentros
1 grande molho de agrião

Para preparar a batata, cozê-las todas inteiras e com pele até ficarem totalmente moles, dando quase para retirar a pele posteriormente só com as mãos.
Depois da pele retirada, devolver à panela partida aos pedaços, temperar com um pouco de sal e esmagar grosseiramente com um garfo, para que mantenha ainda alguma textura ao ser mastigada.

Fazer incisões cruzadas (assim: #) na pele do pato e esfregá-la por todo com a canela, noz-moscada e sal. Colocar num saco ou recipiente fundo com metade do sumo da laranja, cerca de 4 colheres de sopa, mais 3 de água e deixar a marinar durante pelo menos 2 horas.
Colocar as pernas do pato com a pele virada para baixo numa frigideira anti-aderente bastante larga já quente, deixar ganhar uma crosta doirada, virar e cozinhar do outro lado, selando a carne na gordura que se vai soltando. Retirar o excesso da gordura para fora, deixando na frigideira um pouco para fazer o molho.
Juntar o resto dos sucos da marinada à panela com o restante sumo da laranja e a polpa do limão em conserva e ajustar o tempero com a pimenta. Misturar e ajustar o lume para que ferva gentilmente durante 20 minutos, ou até o molho obter um aroma forte e consistente e a carne estar bem cozida, mas ainda húmida por dentro de forma a que não fique demasiado seca.
No fim, provar os temperos e servir de imediato com a batata esmagada regada com o molho da frigideira acompanhada de uma mão cheia de agrião.


serve 6




Tarte de framboesas e chocolate negro

A tarte, e isto tenho que assumir, bateu um bocadinho ao lado, pecado de quem não quer abusar no açúcar e ainda assim comete o erro de achar que o chocolate negro compensaria o doce-nada-doce das framboesas. E para cúmulo achar que o ricotta iria igualmente cortar essa doçura e contrabalançar o quente da tarte com uma frescura. Só acertei na frescura. Failed big time. Para a próxima aqui fica: o dobro do açúcar, o dobro do açúcar e nenhum chocolate ou um chocolate mais doce. De qualquer maneira deixo aqui a receita com as doses de açúcar que utilizarei da próxima vez.


250g de farinha de trigo, mais para polvilhar
20g de açúcar em pó
pitada de sal grosso
125g manteiga sem sal, fria e cortada em cubos
1 ovo grande
1 pequeno gole de leite

100-150g de açúcar
375g de framboesas
60g de chocolate negro, partido aos pedaços
18g de farinha

200g de ricotta
2 c.sopa de mel de laranjeira

Para fazer a massa, peneirar a farinha, o açúcar e o sal numa grande tigela. Com a ponta dos dedos, envolver gentilmente os pedaços de manteiga na farinha e açúcar até a mistura ganhar uma textura de migalhas de pão. Adicionar os ovos e o leite à mistura principal e gentilmente envolver tudo, até obter uma bola homogénea. Não trabalhar muito a massa nesta fase – quere-se desfeita e pequena. Polvilhar a massa com um pouco de farinha e embrulhar em película aderente. Reservar no frigorífico durante 1h.
Entretanto envolver num recipiente médio a as framboesas, o açúcar e a farinha.
Envolver por completo o ricotta com o mel, acrecentando mais a gosto, e reservar no frio.
Pré-aquecer o forno a 180ºC. Retirar a massa do frio e Polvilhar a bancada com farinha, cortar a massa ao meio e, com um rolo de massa enfarinhado, espalmar uma das metades até obter 1cm de grossura. Engordurar com manteiga uma base pequena para tartes (metade das normais) e cobrir com a massa. Aparar os excessos com uma faca afiada.
Adicionar a fruta e espalhar por cima os pedaços de chocolate. Cobrir com a segunda metade da massa espalmada, ou em tiras cruzadas ou por completo, fazendo reentrâncias
com uma faca no topo.
Levar a tarte ao forno durante 45-50 minutos ou até obter uma crosta bem dourada e o recheio estar a borbulhar.
Deixar arrefecer uma meia-hora antes de servir, acompanhada com uma colherada da mistura de ricotta com mel.


serve 5


a ouvir: Águas de Março - Elis Regina

4.8.12

"Almôndegas" é um termo bastante depreciativo do que se passa neste prato.

Vai-se andando a bom andar. Não é num arrastar de pés, que não aquece nem arrefece, de quem não está bem nem deixa de estar, de quem sente um desconforto constante como quando temos o cinto ou os sapatos demasiado apertados. Vai-se andando muito bem, como quando temos calçados os sapatos ideais (a tentação de fazer publicidade é grande mas vou-me abster) ou quando andamos leves e sem computador, carregador do computador, livros, comida e garrafa de água - tudo ao mesmo tempo - às costas.
Vai-se comendo muito bem, também. Perguntam-me se tenho cozinhado. Páro para pensar no que sentido dessa pergunta. Eu simplesmente cozinho todos os dias, quer por vontade, vício ou necessidade... Mas sim, há dias em que faço algo mais, provavelmente o cozinhar a que se referem na dita questão.

A vontade do especial pode vir de qualquer lugar: de comida a roçar o limite da validade ou uma quantidade abusiva de fruta a entrar no limbo entre a maturidade e a podridão, de fortes desejos por um alimento sazonal, da minha incapacidade de não me aborrecer a comer sempre a mesma coisa, da vontade de exercitar a criatividade fora do ecrã do computador, por os ossos do ofício assim o obrigarem ou, como é o caso destas "almôndegas", por uma receita que é simplesmente atraente e sedutora (ou o seu autor que o é!).




















Os ossos do ofício a que me refiro acima: receita original do Gomes Sá, com direito a bacalhau comprado seco no Ramalho - O Rei do Bacalhau.

Nos entretantos vai-se trabalhando, com alguns ataques de ansiedade pelo meio, ideias brilhantes que rapidamente tendo a refutar por uma certa falta de confiança, gerando mais ansiedade, sonho com cailles en sarchophage (avançar minuto 8:10), aprendo o Código, derreto-me com este vídeo, vejo a melhor série desde há já largos tempos e outra para adormecer os neurónios mas que sabe bem, vou-me assando lentamente até ficar "no ponto, ter um tom dourado e crocante" e como diariamente ao pequeno-almoço o que o Sagmeister aprendeu até agora. Gosto especialmente desta. Complaining is silly, either act or forget.

Sempre que faço algo do Ottolenghi mesmerizo-me (adoro esta palavra) com o sabor final. Nunca sei o que esperar da mistura de ingredientes e método de confecção a não ser a certeza de que o resultado será no mínimo fantástico e surpreendente. Esta é a terceira da sua autoria (se bem que uma delas é uma ligeira versão de um clássico da cozinha do Médio Oriente) e cada uma é melhor que a outra.





































Almôndegas de vaca com aipo e limão
ligeiramente adaptado de Yottam Ottolenghi, Beef meatballs with lemon and celeriac

O melhor a fazer nesta receita, na opinião de alguém que tem alguma dificuldade em cozinhar sobre pressão, é ter a maior parte dos ingredientes preparados, medidos e prontos a utilizar, nomeadamente as especiarias. Depois é só juntar na altura respectiva.
A única alteração alteração que fiz foi substituir a raíz de aipo pelos talos, porque era o que tinha. O sabor fresco final do limão dá um toque vibrante e a erva-doce é para mim o elemento mais surpreendente, que vem a baralhar completamente os sentidos. Aconselho vivamente o iogurte no fim. De resto, nada mais a acrescentar, a não ser precisamente que eu não alteraria uma única coisa na receita. No dia seguinte, recheando uma pita ou enroladas numa tortilha, estas almôndegas sabem ainda melhor.

400g carne de vaca picada
1 cebola média, descascada e picada finamente
120g de pão ralado
20g de folhas de salsa, mais 1 c.sopa extra para o final
1 ovo, batido
1/2 c.chá de pimenta da jamaica moída
sal e pimenta preta
2 c.sopa de azeite
6 talos de aipo, fatiados
3 dentes de alho, descascados e esmagados
1/2 c.chá de açafrão
1/2 c.chá de cominhos moídos
1/2 c.chá de canela
1 1/2 c.chá de sementes de erva-doce, tostadas e ligeiramente moídas
3/4 c.chá de pimentão-doce moído
500ml de caldo de galinha, ou um cubo e a mesma quantidade de água
3 1/2 c.chá de sumo de limão (dá cerca de 1 1/2 limões)
60g de iogurte natural

Numa grande tigela, misturar os primeiros seis ingredientes, meia colher de chá de sal e um pouco de pimenta. Criar pequenas bolas em formato kebab (tipo bolas de rugby) com cerca de 3x5cm.
Aquecer o azeite numa frigideira grande que tenha tampa e selar as almôndegas por todo cerca de 5 minutos no total. Retirá-las e adicionar o aipo, o alho e as restantes especiarias. Saltear em lume alto, mexendo por dois minutos.
De seguida adicionar as almôndegas novamente com o caldo, o sumo de limão e mais meia colher de chá de sal e pimenta preta. Levantar fervura, baixar o lume, tapar e deixar a cozer cerca de 30 minutos. De seguida destapar e deixar a borbulhar a lume brando mais 10 minutos, até o molho ter engrossado substancialmente.
Retirar a frigideira do lume e deixar assentar uns minutos, para incorporar os sabores. Provar, ajustar o tempero se for necessário e servir com uma colherada de iogurte e salsa fresca picada.

serve 4


a ouvir: Little Black Submarines - Black Keys