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27.9.12

Summer "falls", um trocadilho que só funciona em inglês.


Cada vez gosto mais do Outono, cada vez gosto mais da mudança das estações e das suas diferenças, ainda que essas sejam cada vez menos evidentes. Mas há mudanças que não mudam, passo a redundância, e para esta refeição queria fazer era algo como estes dias: com resquícios de um Verão acabado de passar e indícios de um Outono que apetece.

São as águas de Março em Setembro. Promessas de vida, esperanças latentes, cheiros a terra molhada das primeiras chuvas imprevistas. O mundo é feito para os que não se governam com estados permanentes, como eu. É feito de ciclos que prometem o equilíbrio saudável da Espécie. Agora corre-se para aproveitar os restos até à próxima vez: absorvemos com urgência os últimos raios de Sol quente, dá-se os últimos longos passeios sem cachecol pela cidade, aproveita-se as últimas refeições frescas ao ar livre, os últimos eventos a céu aberto disseminados por todo o lado. E eu, enquanto apanho nas costas e no rabo o quente do Sol das primeiras horas da manhã a contrastar com o frio que já se faz sentir, deito a mão às últimas framboesas da época para me vingar das tartes que não fiz e às boas laranjas que começam a aparecer, combinando-as com aromas que evocam tempos frios em casa quente.
E assim foi. Um pequeno festim que por curtas horas apaziguou, ou simplesmente mascarou, pequenos conflitos e acalmou corações revisitando fotografias antigas, memórias de um passado agressivamente presente, de tempos diferentes, para nunca mais repetir, e nós sem saber
o que pensar. Pelo que mais vale assim: comemos, rimos, choramos e voltamos a viver.




Chamem-lhe restos: pão integral com sementes, a perna de pato que sobrou, os agriões que sobraram, os coentros que sobraram e rebentos de soja (que sobraram, mas de outro almoço)
Este pertence À lista.

Aqui deixo um pato, dois acompanhamentos e um remate. Não sei se prefiro a sofisticação do pato com a batata num almoço de familia ou a simplicidade de uma bruta e maravilhosa sandes de pão de cereais, agrião, rebentos de soja e a carne desfiada da perna que sobrou a servir de aconchego numa pausa do trabalho. Para dizer a verdade até sei, mas nao quero influenciar ninguém.
Procurei, procurei e não encontrei qualquer tarte funda com framboesas e chocolate. Ainda assim arrisquei e o resultado está aqui.



Pernas de pato na frigideira com citrinos e especiarias

Devido à complexidade de sabores no pato, a batata doce não leva mais nada a não ser isso mesmo: batata e uma pequena pitada de sal. Na altura de servir basta regar as batatas com uma colher do molho do pato e polvilhar com uma dose de coentros bem picados. O travo amargo agrião faz na minha opinião um balanço perfeito com a doçura da batata e das especiarias, da gordura e intensidade do pato e da subtil acidez do limão. Cuidado com o sal no fim porque o limão em conserva também já acrescenta bastante ao molho.

6 pernas de pato
1 c.sopa cheia de canela
1/2 c.sopa de noz-moscada
sumo de 1 laranja
1 c.sopa de sal, mais a gosto
pimenta preta, q.b

3 batatas doces grandes
3 batatas médias
1 molho de coentros
1 grande molho de agrião

Para preparar a batata, cozê-las todas inteiras e com pele até ficarem totalmente moles, dando quase para retirar a pele posteriormente só com as mãos.
Depois da pele retirada, devolver à panela partida aos pedaços, temperar com um pouco de sal e esmagar grosseiramente com um garfo, para que mantenha ainda alguma textura ao ser mastigada.

Fazer incisões cruzadas (assim: #) na pele do pato e esfregá-la por todo com a canela, noz-moscada e sal. Colocar num saco ou recipiente fundo com metade do sumo da laranja, cerca de 4 colheres de sopa, mais 3 de água e deixar a marinar durante pelo menos 2 horas.
Colocar as pernas do pato com a pele virada para baixo numa frigideira anti-aderente bastante larga já quente, deixar ganhar uma crosta doirada, virar e cozinhar do outro lado, selando a carne na gordura que se vai soltando. Retirar o excesso da gordura para fora, deixando na frigideira um pouco para fazer o molho.
Juntar o resto dos sucos da marinada à panela com o restante sumo da laranja e a polpa do limão em conserva e ajustar o tempero com a pimenta. Misturar e ajustar o lume para que ferva gentilmente durante 20 minutos, ou até o molho obter um aroma forte e consistente e a carne estar bem cozida, mas ainda húmida por dentro de forma a que não fique demasiado seca.
No fim, provar os temperos e servir de imediato com a batata esmagada regada com o molho da frigideira acompanhada de uma mão cheia de agrião.


serve 6




Tarte de framboesas e chocolate negro

A tarte, e isto tenho que assumir, bateu um bocadinho ao lado, pecado de quem não quer abusar no açúcar e ainda assim comete o erro de achar que o chocolate negro compensaria o doce-nada-doce das framboesas. E para cúmulo achar que o ricotta iria igualmente cortar essa doçura e contrabalançar o quente da tarte com uma frescura. Só acertei na frescura. Failed big time. Para a próxima aqui fica: o dobro do açúcar, o dobro do açúcar e nenhum chocolate ou um chocolate mais doce. De qualquer maneira deixo aqui a receita com as doses de açúcar que utilizarei da próxima vez.


250g de farinha de trigo, mais para polvilhar
20g de açúcar em pó
pitada de sal grosso
125g manteiga sem sal, fria e cortada em cubos
1 ovo grande
1 pequeno gole de leite

100-150g de açúcar
375g de framboesas
60g de chocolate negro, partido aos pedaços
18g de farinha

200g de ricotta
2 c.sopa de mel de laranjeira

Para fazer a massa, peneirar a farinha, o açúcar e o sal numa grande tigela. Com a ponta dos dedos, envolver gentilmente os pedaços de manteiga na farinha e açúcar até a mistura ganhar uma textura de migalhas de pão. Adicionar os ovos e o leite à mistura principal e gentilmente envolver tudo, até obter uma bola homogénea. Não trabalhar muito a massa nesta fase – quere-se desfeita e pequena. Polvilhar a massa com um pouco de farinha e embrulhar em película aderente. Reservar no frigorífico durante 1h.
Entretanto envolver num recipiente médio a as framboesas, o açúcar e a farinha.
Envolver por completo o ricotta com o mel, acrecentando mais a gosto, e reservar no frio.
Pré-aquecer o forno a 180ºC. Retirar a massa do frio e Polvilhar a bancada com farinha, cortar a massa ao meio e, com um rolo de massa enfarinhado, espalmar uma das metades até obter 1cm de grossura. Engordurar com manteiga uma base pequena para tartes (metade das normais) e cobrir com a massa. Aparar os excessos com uma faca afiada.
Adicionar a fruta e espalhar por cima os pedaços de chocolate. Cobrir com a segunda metade da massa espalmada, ou em tiras cruzadas ou por completo, fazendo reentrâncias
com uma faca no topo.
Levar a tarte ao forno durante 45-50 minutos ou até obter uma crosta bem dourada e o recheio estar a borbulhar.
Deixar arrefecer uma meia-hora antes de servir, acompanhada com uma colherada da mistura de ricotta com mel.


serve 5


a ouvir: Águas de Março - Elis Regina

11.9.12

Três feijões, nenhuma receita, o tempo, a leveza e a tontice da previdência.

Ultimamente tenho-me confrontado bastante com exemplos que exploram a natureza do homem em querer planear as coisas, ser previdente e tomar todo o tipo de precauções que o levam a crer ter o futuro mais assegurado. É curiosa esta atitude quase estúpida (louca, diria o Einstein) de continuarmos a ter os mesmos comportamentos para que nos tragam algo quando a História já por muitas muitas vezes demonstrou que não é isso que acontece. É uma tontice. É um paradoxo em que, se por um lado somos seres empíricos, acreditando que a experiência leva ao conhecimento e geralmente considerando os mais sábios como os mais experientes e os tomamos como referência, por outro lado seguimos-la - a experiência - cegamente para o bem e para o mal, e ignoramos precisamente aquelas que não podemos ou queremos passar do particular para o geral. Fazemos isso porque o que não planeamos, o que é fruto do acaso ou aquilo que não apreendemos sequer enquanto experiência, acaba por ocupar uma esmagadora parte da nossa vida e temos demasiado medo de nos deixarmos à confiança do inesperado. Tal como Jacques (o de Diderot) diz, a prudência não nos dá garantias de nada a não ser o consolo de que não fomos imprudentes e desculpa-nos dos maus resultados.

Sinto leveza e sensação de missão cumprida, livre para poder dedicar a minha mente ao que lhe apetece, num equilíbrio perfeito entre o que puxa à emoção e o que puxa à razão, entre o necessário e o supérfluo, sem pensar que devia estar a fazer outra coisa. Isso, e o ter tempo são as premissas fundamentais para saborear a vida, porque no fundo é dela que se trata, quer esteja a passar roupa a ferro ou a dar uma caminhada entre a terra e o céu, em Sintra. E maior é o alívio quando compreendo que essa falta de disponibilidade para saborear muitas coisas, de clareza de ideias e de leveza geral, que tanta ansiedade e frustração me causa, deve-se na verdade a essa coisa tão simples e tão matreira que é o tempo. Te-lo nas mãos e não saber o que fazer com ele. Ando, andamos e sempre vamos andar, uns com mais sucesso que outros, com o tempo nas mãos como uma massa de moldar. E é assim, não me apetece prolongar mais a metáfora.

umdoistrêsquatro
um_ Quando eu pensava que sofria de um mal sem nome, afinal ele existe e já escreveram sobre ele.
dois_ É esta uma das minhas ambições, tantas vezes lida e descrita por escritores que me são tão queridos 1 - 23, que é ter a disponibilidade imensa para ver os outros, ser empática, ter um vislumbre de beleza em tudo que encontre.
três_ Não ver mais filmes com o Ryan Gosling antes de dormir.
quatro_ Directo, Completo, Reflectido. Com muito prazer e um muito obrigada.


Cada vez mais tenho sentido a vontade de simplesmente postar aqui umas fotos bonitas e uma breve descrição da coisa. A receita ocupa tempo e paciência e o que eu posso mostrar aqui é o prazer gastronómico que tenho a comer estas coisas. Quantidades e modos de confecção deixo para outros que fazem melhor essa tarefa.

Ultimamente tem sido feijão, pão e queijo.
Para hoje será o feijão. Brevemente o queijo. O pão é sempre.




Grelhei meia beringela pequena até ficar completamente mole e bem marcada e depois esmaguei-a com um garfo juntamente com um dente de alho, uma mão cheia de feijão branco cozido, umas folhas de manjericão frescas, sal, pimenta e um fio de azeite, claro.




Salada de feijão vermelho com aipo - talo e folhas aproveitadas, um bom ramo de salsa picada, nozes tostadas e um molho rápido de parmesão fresco ralado, azeite e limão, inspirado aqui.




Branqueei um molho de feijão verde lindo (na primeira foto dá para ver que não eram bem verdes, mas mudam de cor com o calor) e depois salteei num pouco de óleo com seitan cortado aos pedaços e por fim envolvi num molho rápido de leite de coco, cebola, malagueta, limão e coentros, inspirada uma vez mais neste molho da Heidi Swanson.



a ouvir: Where did all the love go? - Kasabian

29.8.12

Tomates e casulos

Tomates e casulos. Em. No casulo. Eu no casulo. Nunca passei por uma experiência como estas duas - a ir para três - semanas. Encasulada com o rabo na cadeira a olhar para o computador, para o ecrã, para o computador novamente, para a estrada e sinais vermelhos das Avenidas Novas, com uma miserável hora de corrida, doses absurdas de café e chá preto, a diária esfrega de Momengel no pescoço e uma ou outra pontual ajuda de Valdispert para quando não se consegue dormir ou para atenuar crises de ansiedade como, por exemplo, um choro compulsivo (mas discreto) depois de correr desalmadamente para apanhar o comboio e perdê-lo por um fio. Quando pensamos que já demos o litro, o melhor é pensar outra vez. O baton é só para disfarçar. E o bicho que se está a formar dentro deste casulo não é daquelas bonitas que se espera que poisem no nosso dedo -apesar de achar que isso é mais um mito urbano que outra coisa -, é daquelas feias, do género das do bicho da seda. As pernas começam a ganhar uma textura lgeiramente áspera, bem como outras partes do corpo, a minha voz adquire o tom envergonhado de quem acorda por não emitir quase nenhum som durante o dia inteiro a não ser que cante, os pequeninos músculos, ganhos com tanta dedicação, vão murchando tristemente e as unhas, apercebi-me agora que olho para a caneta, ganharam dimensões pouco recomendáveis na mão direita e formas estranhas em alguns dedos da mão esquerda - sina da mão que agarra na cebola e no alho enquanto que a outra, de faca afiada, a manuseia inexperiente.

Cozinhar, apenas um cheirinho diário, só para manter a sanidade em dia porque o apetite, pela primeira vez, não existe. Assim sendo, encaro como mais um problema de design e arranjo espaço na minha cabeça para pensar na melhor maneira de aproveitar os quilos de tomates que temos em casa.*

O pior, o perverso, é de sentir que alguém, algures, me julgará ao saber que, apesar de tudo, ainda tenho mão na cozinha, e que o meu dia ainda tem três ou quatro momentos de prazer (ou parcial, uma vez que, pontualmente, frequentemente vá, como (verbo comer) a pensar em sistemas de cor, grelhas, tabelas sazonais e design: esta coisa que é a minha praga, a minha paixão, a minha panela de pressão.



Valham-me então os tomates, -cereja, negros da Crimeia, coração-de-boi, chucha, regulares, e os morangos, os pequenos e aromáticos morangos que parecem ter sido borrifados com aquelas águas de colónia para crianças, tal é a intensidade do seu cheiro e sabor. E agora vão já duas doses de coisas boas porque não sei se vou ter animae para voltar a escrever aqui brevemente. Ambas as receitas abundam e tomates, diversos tipos deles, não (apenas) pelo impacto visual que dá ao prato, mas porque os tomates tem muito que se lhe digam, e cada qual tem o seu sabor e textura únicos, mais ou menos doces, mais ou menos duros, mais ou menos carnudos. Para mim vale totalmente a pena brincar e descobrir as diferenças.

* Ou tínhamos, porque quando escrevi este texto, há uma semana, ainda havia. Só não há é ânimo, paciência, disposição, tempo para passar pelo processo de fazer mais uma entrada aqui: transcrever, relembrar a receita, passar fotos, arranjar fotos et al.




































Salada de Tomate e Morangos com Pistou de noz, hortelã e manjericão
300g de morangos, cortados, dependendo do tamanho
300g de tomates diversos, cortados a gosto
2 punhados de rúcula
80g de pão de centeio de véspera
80g de pão de trigo de véspera
azeite, sal e pimenta q.b
2 queijos frescos de ovelha pequenos, cortados aos cubos
2 colheradas de pistou de noz, hortelã e manjericão

2 dentes de alho, picados grosseiramente
1 c.chá de sal
1/2 cháv. de nozes aos pedaços
80ml (1/3 cháv.) de sumo de limão
1 cháv. de folhas de manjericão
1/3 cháv. folhas de hortelã
80ml (1/3 cháv.) de azeite
2 dentes de alho, muito picados
pimenta e/ou piri-piri, a gosto

Pistou
Colocar num almofariz o alho, o sal, as nozes e o sumo de limão, esmagando até formar uma mistura mais ou menos consistente, como preferirem. Pessoalmente gosto de sentir ainda pedaçinhos de nozes, sem ficar muito pastoso.
Adicionar as folhas do manjericão, da hortelã e o azeite, moendo novamente até ficar tudo ligado.
Adicionar pimenta e piri-piri a gosto e envolver tudo.

Cortar o pão aos cubos pequenos (1,5-2cm), colocar numa tigela com o alho picado e regar com um fio de azeite, sal e pimenta. Envolver bem com as mãos, colocar numa frigideira quente e tostar todos até ficarem bem dourados e começarem a libertar aquele aroma maravilhoso.
Dividir por dois pratos individuais os morangos, os tomates,a rúcula e os croutons e os queijos frescos.
Juntar uma colherada de pistou a cada prato, envolver tudo e comer no momento.

serve 2 (o pistou ainda dá para 4)



Tomates assados com quinoa
tomates inspirados na receita de Heidi Swanson, em 101 Cookbooks

Foi o meu jantar e almoço consecutivos. Tomates assados frios sabem muito bem, é só o que tenho a dizer. E para algo diferente, o açúcar vale mesmo a pena. 
1,2kg de tomates variados (usei uma mistura de negro da Crimeia, coração de boi, cereja e San Marzano) - metade são para assar, metade para comer crús

60ml de azeite
2 c.chá de açúcar amarelo
sal grosso, q.b
1 c.sopa de alecrim fresco, picado
1 c.sopa de raspa de limão

2 c.sopa de pinhões
1 c.sopa de alcaparras
1 cháv. de quinoa, passada por água corrente
sal q.b
azeite q.b

Pré-aquecer o forno a 175ºC com a prateleira no topo.
Colocar metade dos tomates numa só camada num tabuleiro de forno, inteiros, cortados em metades ou quartos, dependendo do tamanho. Envolver com o azeite, o açúcar, umas pitadas de sal, alecrim e a raspa de limão. Levar ao forno durante 60 minutos, ou até começarem a caramelizar e a ficar tostados nas bordas. Retirar do forno e deixar arrefecer.
Entretanto cozer a quinoa com um pouco de sal em duas chávenas de água a ferver durante 15 minutos, ou até a quinoa estar cozida, solta e a água ter sido absorvida.
Tostar os pinhões numa frigideira seca e saltear as alcaparras num fio de azeite.
Dividir a quinoa por dois pratos de servir, dividir os tomates, crús e assados, pelos pratos. Temperar com os sucos que ficaram no tabuleiro dos tomates e mais sal e um fio de azeite se for necessário. Cobrir com os pinhões, as alcaparras e servir, frio ou morno, as you wish.

serve 2 (os tomates até que servem bem 4, mas eu comi-os todos)


























a ouvir:  Brian Jonestown Massacre - Anemone


15.8.12

Principe Real, physalis, vegetarianos e o melhor dos amigos




































Apesar de ser hábito recente, arrisco-me a substituir um tímido "tenho ido" por um convicto "vou" ao mercado do Principe Real semanalmente. O cesto de verga que já me quardou mil merendas em criança, acompanhou-me em piqueniques e transportou um pequeno gato serve agora para o manjericão generoso, folhas de alface, maravilhosos damascos e os belos e absolutamente gulosos tomates coração de boi que como como quem come maçãs, assegurando que sobrevivem sem quaisquer mazelas, pisadelas ou murchadelas na viagem de volta, indo para a mesa, ou directamente para a boca, tão bonitos como quando lhes peguei. As escolhas mais resistentes e robustas vão debaixo do braço, no velho saco de pano que já começa a ganhar cheiro de algo que cumpre fielmente a sua função, seja para o pão, iogurtes, queijo, fruta ou vegetais.
Comecei pela banca do fundo - sim, a do Poial - sempre das primeiras a ser montada e, convenientemente das que me dá maior prazer deixar uns trocos, tomando a liberdade de levar de lá sempre algo diferente, imprevisível. Decido deixar de parte os tomates-cereja que tinha em mente para umas tartines de requeijão e tomates assados que planeei fazer para uma festa cheia de frango assado e paradoxalmente cheia de gente que não deita o dente a animais e pego em dois saquinhos de papel kraft cheios de tomatillos, mais conhecidos por physalis (e. philadelphica) por estas bandas, com a espectativa de fazer o melhor dos petiscos para o melhor dos amigos.



Uma pasta de tomates, coentros, cebola e pimento empilhada lâminas crocantes de tortillas caseiras faz magia. Findas as tortillas - as doze que fiz foram-se depressa - "limpou-se" a tigela com pão.



Salsa verde mexicana
Não coloco aqui a receita das tortillas porque não é tem mesmo nada que saber nem nada que adaptar. A única coisa útil é saber que quanto mais finas forem desenroladas mais crocantes ficam quando foram cozidas e como tal, muito mais agradáveis de trincar. 
Os tomatillos são um fruto bastante peculiar, e o seu formato e sabor crú lembram claramente um cruzamento entre o tomate e o pimento (que é também da familia do tomate). Guardei uns poucos para brincar com eles e ver no que dá. 
Quando preparei todos os ingredientes utilizei cerca de 2/3 para esta receita e juntei um pouco de abacate ao restante, piquei muito bem à semelhança deste tipo de salada para um almoço rápido, enrolado num wrap ou servido com arroz e gambas.

14 tomatillos
3 dentes de alho
1 pimento verde pequeno
1 cebola média
1/2 c.chá de malagueta em pó
sumo de 1/2 lima
10g (cerca de 1 chávena) de coentros, picados
sal e pimenta q.b

Retirar a casca dos tomatillos e lavá-los muito bem. Cortá-los ao pedaços e colocar numa liquidificadora.
Descascar os dentes de alho e juntar ao tomatillos. Abrir o pimento, retirar as sementes, cortar aos pedaços e adicionar à liquidificadora.
Descascar a cebola, cortar grosseiramente e juntar ao restantes ingredientes.
Adicionar os restantes ingredientes, tendo cuidado com a quantidade de sal e processar tudo até adquirir a consistência desejada (gosto do meu ainda com alguma consistência, mas bem passado). Provar, corrigir os temperos e os coentros se for necessário e processar novamente.
Colocar no frigorífico pelo menos uma hora para se servir bem fresco e dar tempos aos sabores para se fundirem.





































a ouvir: Will You Be Ready - Deep Forest

16.7.12

Afirmações, confirmações, uma questão e outras constatações





















- Tudo sabe melhor quando é partilhado, ainda que seja apenas o registo de uma experiência a só.
- Usamos a palavra saturação para para descrever precisamente aquilo que perde cor aos
ossos olhos.
- Os dois males do mundo que garantem o equilibrio como utopia são a ganância e a tolerância.
- Tenho o terrível hábito de sobrecarregar com a minha "bagagem" todos os lugares frescos e novos que encontro. Deixo-lhes a minha marca como fazem os cães e depois, como já fazem parte de mim, a não ser que a eles recorra com muita parcimónia, farto-me deles. Em boa verdade, estou destinada ao nomadismo.
- A natureza humana não é intrinsecamente boa ou má, por isso é natureza. É o que é.
- Interesse é quando a paixão por algo prevalece sobre as ansiedades, aflições e descontrolos de natureza física ou emocional que o objecto em questão possa trazer. É quando nasce algo antes de se tornar moda e que se mantém depois da moda passar.














- Adoro grandes reuniões de familia, o Alentejo e as duas coisas juntas, apesar de saber que em grande parte é por raramente acontecerem.
- Os músculos contraídos tornam tudo mais difícil, até pensar.
- Esta é a melhor revista que já li nos últimos tempos. E a Revista do Expresso é uma Lux disfarçada.
- Não suporto radicalismos.
- Correr sabe bem ao som deles.
- By believing passionately in something that still does not exist, we create it. The nonexistent is whatever we have not sufficiently desired. Kafka. Esta e muitas outras aqui.
- Um dia gostava de traduzir um livro ou mais. Há qualquer coisa de relaxante no acto de traduzir e de desafiante, como um quebra-cabeças ou palavras-cruzadas: a busca da palavra que faz o encaixe perfeito na frase, na língua, no contexto da estória e da história do seu autor.
- Agora percebo bem. Cozinhar para mim não tem a ver com prestígio, com novidade ou invenção ou com o belo. Tem a ver com sabor, prazer e partilha. Quando a comida funciona é porque serve. É porque satisfaz o gosto, sustenta o corpo, reconforta o espirito e alegra os demais presentes. Não vivo para comer, mas certamente odeio a noção contrária. É o mesmo que dizer que que durmo para viver ou faço desporto para viver ou trabalho para viver! Se não se tira prazer daquilo que é fundamental à nossa condição, what's the point? Vive-se para viver. Viver é também dormir, trabalhar e comer, tudo nas doses que nos dão prazer. Desequilíbrios, amigos, vão existir sempre mas para isso temos a nossa consciência. Por isso escolham os vossos e sejam felizes.
- As provas físicas que cartografam os lugares da nossa memória poderiam muito bem ser nossas como de outros. Poderiam mesmo anteceder à memória em si. As palavras que escrevo sobre um lugar tem a capacidade de se encaixar na boca de outros. Muito interessante este trabalho da Inês.
- Por entre todas as novidades e pseudo-novidades que nascem como cogumelos em Lisboa (é prestar um bocadinho de atenção e ver que muitos deles já fecharam ou estam a fechar), este eu aconselho vivamente.

- Não tenho fotografia para esta receita, e a bom ver, preciso (precisamos) mesmo dela? Não revelaria nada que a imaginação não consegue construir, nem sequer daria uma fotografia especialmente bonita - é um prato tosco que provavelmente só iria perder valor e gerar desinteresse a quem a visse. Digo-vos o que precisam de saber: que é bom, simples, fácil e diferente da massada de peixe para despachar que fazemos num dia de semana.


Penne com pescada em creme de cenoura e coentros
Esta é daquelas receitas de massa que não tem mal nenhum a massa ficar demasiado cozida. Na minha opinião até prefiro assim, porque dá a sensação que absorveu melhor os sabores. O louro pode ser também triturado com os legumes porque não se vai sentir. Só não adicionar camarão porque não tinha, porque de certeza que iria dar um gostinho especial. E lulas ou chocos no lugar do peixe também não é mal pensado. 

4 postas de pescada
3 cenouras médias, às rodelas
1 cebola grande, picada
2 dentes de alho, picados
2 folhas de louro
1 fio de azeite
150ml de vinho branco 
sal e pimenta, q.b
280g de penne, macarrão ou orzo
1 molho de coentros, picados

Cozer as postas de pescada numa panela e reservar.
Colocar a cenoura, a cebola, o alho, o louro e o azeite numa panela e aloirar. Adicionar o vinho para refrescar durante 5 minutos, e acrescentar água da cozedura da pescada, pelo menos 200ml. Acrescentar mais se entretanto a água tiver evaporado. Quando os legumes tiverem cozidos, passar tudo, mantendo alguma consistência para que não fique um creme totalmente liso se preferirem. Temperar com sal e pimenta, envolver bem, provar e corrigir o tempero se for preciso.
Enquanto os legumes cozem. Cozer a massa no resto da água da cozedura da pescada com bastante sal.
Entretanto despedaçar as postas de pescada, separar da espinha e adicionar ao creme da cenoura. Reservar.
Quando a massa estiver quase al dente, adicionar ao creme de cenoura e à pescada com um pouco de água para liquidificar o creme ao vosso gosto e para acabar de cozer a massa. Envolver tudo e deixar os sabores apurar.
Adicionar os coentros picados e servir bem quente.


serve 4



a ouvir: Summertime - Miles Davis

3.7.12

lord help me 'cause the beach is a beach.

Gosto de praia com conta peso e medida. Isto é, adoro apanhar Sol sem fazer absolutamente nada, adoro dar mergulhos e nadar mesmo que nos breves segundos iniciais o gelo da água me faça perder a respiração, gosto de jogar raquetes, gosto de ouvir conversas das toalhas vizinhas ("holla como estas? Pois jo estoy bien, mejor que tu no?heheh" ou "Mãe castiga a Zezinha que ela perdeu 1,10€ do troco na areia!", ou "oi soi doisa liv ericksen...") correr e dar caminhadas, pensar no que vou fazer no próximo grande jantar, eventualmente em projectos (isto porque quem corre por gosto não cansa (espero)), na morte da bezerra ou não pensar em absolutamente nada - mas quanto baste. Regra geral, a não ser que circunstâncias extraordinárias o exijam, três horas chegam-me bem e olhem lá. Prefiro ir de manhã porque o dia está fresco como roupa branca lavada.
Na minha jornada de duas horas de transporte de regresso a casa planeio confiante (e esfomeada) o que fazer para almoçar e a ordem de trabalhos para o resto do dia. Pois entre o deve e o haver vai uma grande diferença, e a preguiça é de longe o pior dos meus pecados. Para preparar o almoço ainda se encontra envergonhada, mas de barriga satisfeita e banho tomado revela-se em todo o seu esplendor.

Para não variar continuo a sentir que de alguma forma tenho de me desculpar por aquilo que por vezes aqui coloco roçar a simplicidade extrema e de original tem pouco ou nada. Mas para não variar e por mais foleiro que soe, este manifesto não é sobre comida, é sobre mim. Em boa verdade, todos os blogues pessoais são incontornavelmente sobre quem o escreve e ninguém que se expõe declaradamente se vai desculpar daquilo que é.

Hoje era isto que queria e que me soube bem comó caraças. (Uso muito esta expressão, mas vê-la escrita fica feio...)




































Tortilla de queijo de cabra, fiambre, vegetais e manjericão
O queijo que usei é da marca Santiago e adorei ainda mais que o chévre, que apesar do sabor semelhante é mais suave e tem uma textura igual ao nosso requeijão, que prefiro pela sua frescura à cremosidade do queijo francês.

1 tortilha média
130g de queijo de cabra fresco (usei 1 embalagem)
1 fatia fina de fiambre da pá
1/4 de pimento verde
1 tomate chucha pequeno (ou outro que tiverem à mão desde que esteja maduro)
1 ramo de manjericão, apenas as folhas
vinagre balsâmico q.b
azeite q.b
sal  e pimenta q.b

Cortar o pimento em tiras muito finas, temperar um umas pedrinhas de sal e grelhar a lume alto até ficarem chamuscadas e moles. Remover e reservar.
Cortar o fiambre em tiras finas (cerca de 2cm), o tomate às rodelas finas (0,5cm) e reservar.
Retirar o queijo da embalagem e escorrer bem o soro para não ensopar a tortilha e reservar também.
Na mesma grelha colocar a tortilha durante 1 minuto, ou o suficiente até ficar tostada. Virar do outro lado e cobrir com o queijo desfeito, seguido das tiras de fiambre, tomate, pimento e por último as folhas de manjericão. Regar com um fio de azeite e vinagre balsâmico, temperar com pimenta e um bocadinho de sal e servir de imediato.

serve 1


a ouvir: Motion Sickness - Hot Chip

4.6.12

Uma carrada de coisas boas

Carrada é uma palavra feia, mas para o efeito prefiro-a a molho ou punhado. Não é um punhado porque não cabe num punho nem um molho porque é palavra demasiado suave para o que aqui vos mostro hoje. Serei breve, nem sempre tenho muita coisa a dizer.
A receita é do Sprouted Kitchen, um dos meus blogs de referência. Nunca tive a oportunidade de colocar aqui nenhuma receita deste blog porque os ingredientes que a Sara (a autora) utiliza nem sempre fazem parte das minhas mercearias habituais, mas as poucas que fiz, nomeadamente o meu pistou preferidíssimo superam as expectativas. Os sabores das receitas deste blog são fortes, originalmente combinados e satisfazem os desejos dos mais requintados, ainda que a maioria dos ingredientes sejam singelos e com uma enorme ligação à terra. Não será por acaso o nome do blog nem a sua headline (a tastier take on whole foods.)

A minha luta para fazer entrar na cabeça do mais casmurro membro da família (que por acaso é também o mais sedento dos carnívoros, achando que toda a refeição tem de ter um belo (isto é, desnecessariamente grande) naco de carne ou de peixe) que uma refeição vegetariana pode ser completa e saciante persiste e a batalha de hoje foi travada com sucesso. Após o meu simples "Não" à pergunta "Isto leva carne?" calou, comeu e consentiu.

Razões para fazer isto a.s.a.p: tem batata doce, tem feijão, tem picante, todos os ingredientes são super acessíveis, é quente e fresca (feijão e batata + iogurte e ervas), é super saudável, tem salsa. É chili, que mais há para dizer?

Apesar de ter copiado a receita integral, deixo aqui traduzida e com as conversões das odiosas onças (oz), que ora são fluídas ora são pesadas e são uma dor de cabeça para nós, portugueses e outros estados-nações, que simplificamos a coisa com os gramas, sem chávenas ou onças que nos valham!
Além do mais convenhamos que é muito mais prático e económico utilizar feijão de lata e dar uma pré-cozedura na batata antes de a levar ao forno, pelo que deixo aqui também as indicações para efectuarem essas alterações.




































Batata doce assada com chili de feijão
receita de Sprouted Kitchen

4 batatas assadas pequenas
2 c.chá de azeite
1 cebola
2 dentes de alho grandes, picados
1 c.sopa de piri-piri
1 c.chá de cominhos, tostados e moídos de fresco num almofariz
1/2 c.chá de pimentão doce em pó

1 lata grande (780g) de tomate pelado inteiro 
1 lata (420g) de feijão manteiga
1 lata (420g) de feijão preto
1 c.chá de sal grosso

1 pequeno molho de coentros, picados
1 pequeno molho de cebolos, picados
1/2 abacate, cortado em fatias finas
125g de iogurte grego natural

Pré-aquecer o forno a 200ºC com a prateleira no meio. Furar as batatas doces com um garfo em todos os lados e levar a ferver durante 10 minutos. Retirar da panela e enxugar muito bem com um pano. Envolver cada batata levemente com papel de alumínio e assar durante 45-55 minutos, ou até que dê para espetar um garfo na parte mais grossa sem dificuldade.
Entretanto fazer o chilli. Fatiar finamente a cebola e o alho e levar ao lume com o azeite numa panela de ferro fundido. Quando a cebola e o alho amolecerem, adicionar as especiarias, deixar libertar o aroma durante uns segundos e adicionar os tomates, esmagando-os de seguida com uma colher de pau até que se desfaçam. Levantar fervura e cozinhar durante cerca de 20 minutos para reduzir, mexendo ocasionalmente. De seguida adicionar o feijão e cozinhar mais 10-15 minutos para combinar todos os sabores e o feijão amolecer um pouco. Temperar com sal e corrigir o tempero, se necessário.
Retirar as batatas doces do papel de alumínio, fazer um corte longitudinal em cada uma e abrir uma concavidade, sem retirar o polme. Rechear com o chilli e guarnecer com uma colherada de iogurte grego, um bom molho de coentros e cebolo picados e umas fatias de abacate ao lado.

serve 4



a ouvir: Fix you - Coldplay

24.5.12

Estes dias, algumas manhãs, uma árvore, memórias e uma viagem.


Os dias parecem exactamente aquilo que são, nem curtos nem longos. Começam cedo, pouco antes ou depois do Sol nascer, e eu de cabeça, alma e olhos frescos. Como se o almoço se avizinhasse longe nas horas, o pequeno-almoço é bem composto. Pão alemão e ovo são os maiores aliados ao gosto da boca e ao conforto do estômago. A seguir, agora que o chá não combina com mangas curtas, o café segue sempre. O tempo passa bem porque não o vejo passar, apesar de sentir a sua presença pela textura ondulada que o meu rabo adquire da cadeira de vime. Pela manhã alta abro a varanda e deixo entrar o cheiro inebriante do ligustro-chinês, para manter o espírito elevado.*

(É nesta parte que no meu caderno encontrariam uma divagação de uma página inteira sobre a memória e a indagações sobre a origem da necessidade em recuperar e preservar as nossas memórias mais profundas, não memórias de momentos mas de pensamentos. Para vos abster de possível enfado, passo para aquela parte que toda a gente gosta, sobre comida).

(Mas porque falava delas,) as memórias encontram-se na boca também. São essas as que mais gosto de desafiar. Hoje como tomate como quem come uma maçã, as iscas tornaram-se minhas amigas, a textura do agrião já não me obriga a deixá-lo à beira do prato e por vezes um bom gelado de chocolate pode me proporcionar o maior dos deleites. Por seu turno, a baba de camelo, que tanto me deliciava na minha infância, com pena minha, que é pecado cometeria com maior prazer, já ultrapassa a tolerância glicémica do meu paladar. Maionese e delicias do mar encontram-se de fora, e aí se manterão, bem como o diospíro e os néctares de pêra, manga e pêssego, não pelo sabor mas pela textura. Para quê beber uma substância espessa sem piada nenhuma quando posso comer, trincar, mastigar a coisa autêntica?















Hoje viajei à hora de almoço. Viajei para o Verão e viajei para as Arábias, seduzida por um israelita enraízado em Londres que, ainda que não o saiba, sabe bem do que gosto. Tabbouleh - um prato que me faz esquecer a fome provocada pelas horas perdidas em frente ao computador, para dedicar esmero, tempo e perfeccionismo ao corte do tomate, da cebola e da dose industrial de salsa e hortelã. Duplico a dose dos hidratos de carbono e faço deste acompanhamento original um generoso almoço que refresca e reinicia o corpo para as próximas horas de olhos no ecrã e rabo ondulado.

* Ligustrum sinense: passei duas horas à procura do nome deste arbusto só para o pôr aqui.



Tabbouleh
adaptado de Yotam Ottolenghi

Se verificarem a receita original que serve 4 pessoas, a quantidade de bulgur é mínima, provavelmente por este ser um prato de entrada ou acompanhamento. Deve ir óptimo com borrego ou mesmo um peixe grelhado. Como o fiz para refeição principal, senti a necessidade de aumentar bastante a dose do bulgur, acentuar o sabor da chalota e arrisquei "ornamentar" um pouco mais com um cheirinho a canela e noz-moscada. Pensando que canela e limão são melhores amigos, acabei por obter uma ligação final muito interessante.

60g de bulgur (usei médio)
1 tomate médio, maduro mas firme (150g)
1 chalota média (30g)
40g de salsa
8g de hortelã
1/4 c.chá de pimenta da jamaica
1 pitada de noz-moscada
1 pitada de canela
1 c.sopa de sumo de limão
30ml de azeite virgem-extra
sal e pimenta preta

Cozer o bulgur em água a ferver durante 7 minutos, apagar o lume e reservar tapado para que cresça.
De seguida, passar por um escoador fino sobre água fria corrente até que saia todo o amido e a água corra clara. Transferir para uma tigela média.
Cortar os tomate em pedaços de 0,5cm (uma faca de serra pequena é o ideal) e adicionar à tigela juntamente com todos os sucos do tomate. Picar a chalota o mais finamente possível e adicionar igualmente à tigela.
Unir os talos da salsa e apertá-los firmemente. Com uma faca grande e bem afiada, aparar o fim dos talos e picar as ervas o mais finamente possível, com uma grossura não superior a 1mm (se não conseguirem à primeira, piquem novamente com a ponta da lâmina). Adicionar à tigela.
Arrancar as folhas de hortelã dos talos, apertá-las firmemente e picar tal como a salsa.
Adicionar á tigela com o sumo de limão, o azeite, as especiarias, sal e pimenta. Provar, acertar o tempero e servir à temperatura ambiente.
Muito importante: não esquecer de levar uma colher para apanhar os maravilhosos no fundo da tigela.


serve 1



a ouvir: Traz d'Horizonte - Cesária Évora



11.5.12

Ode à Primavera da mãe e o princípio de uma revolução

revolução
(latim revolutio, -onis)
s. f.
1. [Astronomia] Marcha circular dos corpos celestes no espaço.
2. Período de tempo que eles empregam em percorrer a sua órbita.
3. [Física] Movimento de um móbil que percorre uma curva fechada.
4. [Geometria] Movimento suposto de um plano em volta de um dos seus lados, para gerar um sólido.
5. [Mecânica] Giro completo do eixo de um motor ou de qualquer peça em movimento giratório.
6. [Figurado] Revolta, sublevação.
7. Mudança brusca e violenta na estrutura económica, social ou política de um Estado: A Revolução Francesa.
8. Reforma, transformação, mudança completa.
9. Perturbação moral, indignação, agitação.
10. Náusea, repulsa, nojo.
11. Modificação em qualquer ramo do pensamento humano: Revolução literária.


Algo está errado quando não nos conseguimos distanciar de nós mesmos. Não é suposto esgotarmos os nossos prazeres. Por vezes são esses pequenos abrigos que parecem funcionar na vida, e colocamos neles tanta pressão na sua "função", que será a de fazer sentir bem para viver o resto do dia de forma suportável, que acabamos por assassiná-los. E fica-se com nada. Apenas com uma ilusão de que ainda obtemos algo que na verdade foi já substituído, abafado pela ansiedade de tudo o resto. E esse tudo o resto parece-me literalmente Tudo ultimamente, e quer o sentimento seja ou não partilhado por outros, como já me constou, para mim não é aceitável, não é suposto e incomoda-me.
Disse a um amigo no meu discurso repetidamente mono-centrado (de que mais posso falar senão da única realidade que conheço, que é a minha?) que já não quero mais isto. Quero outra coisa. Experimentei esta vida e não estou a gostar de me ver com ela. Posso mudar o espelho ou a vestimenta e estou tentada a mudar os dois. Estranha analogia. Não vale a pena ter o espelho se me sinto nua. O corpo precisa de se envolver em algo com que se sinta bem. Mas isso só acontece se gostar daquilo que vejo.
Vou abrir o casaco, tirar o soutien, soltar o cabelo, remover a maquilhagem, abrir um buraco no cinto, desabotoar o botão do colarinho, mudar a mala por uma bolsa. Ou então vou apenas dar um passo atrás, ou mil, ou ver-me de três quartos ou de perfil. Vou mudar o que agora puder até porque o calor está a vir. Eu adoro Sol, adoro. Mas não me quero queimar ou desidratar. E adoro comida, adoro. Atendam na analogia.

Por isso vou-me afastar um pouco antes que bata com a cabeça no vidro transparente. Apenas um pouco. Porque continuo aqui e quero continuar a partilhar coisas doces, amargas, salgadas, ácidas e comida pelo meio, como esta pequena refeição a exaltar os ares da Primavera que tarda a vir e um bolo podre, colaboração entre avó e neta, após compromisso assumido durante uma das exaltações recorrentes aos tempos idos da avó nas cozinhas de Reguengos. Tudo para celebrar a Mãe.























Pargo com batatas e espargos assados no forno
À medida que o tempo vai passando, o aroma frutado que se liberta do forno como bailarina que dança pela cozinha é absolutamente divinal. O modesto molho de iogurte equilibra sabores e gorduras, dando um toque final fresco e vibrante a todo o prato. Se não fosse a picuinhice do membro mais novo com todo o peixe que tenha mais espinhas que um douradinho tinha escolhido linguado ou solha, que já há muito que tenho vontade de experimentar cozinhar. Em alternativa decidi-me por filetes de espargos (pedi para arranjar na peixeira), com uma carne magra ideal para acompanhar as batatas e apenas precisa de poucos minutos para ficar perfeito - o essencial é pele para baixo na frigideira quente.

500g de espargos, aparados na base e cortados em 3
700g batatas pequenas farinhentas
sal grosso e pimenta preta fresca moída
azeite q.b
1 bolbo de alho, partido em dentes
vinagre balsâmico
uns bons goles de azeite
35g de manteiga, cortada aos cubos
1 clementina
1 grande ramo de salsa, picada
1 pequeno molho de cebolinho
250g de iogurte grego

5 pargos, arranjados em filete (ou seja, 10 filetes)

Pré-aquecer o forno a 190ºC. Descascar as batatas e acertar o tamanho a alguma mais irregular - se não tiverem tamanhos aproximados não irão ficar cozinhadas por igual. Lavar as batatas em água fria e colocá-las numa grande panela, cobrir com água fria e temperar bem. Levantar fervura e cozer por 6-7 minutos, para que fiquem parcialmente cozidas.Escoar as batatas e reservar 3 minutos. Dar uma agitadela ao escoador com as batatas para que ajudar a que se enfarinhem para que mais tarde fiquem super estaladiças.
A esta altura, escolher a combinação de sabores desejada. Colocar as batatas num tabuleiro de forno, numa só camada, adicionar a manteiga, temperar bem com sal e pimenta e envolver.
Colocar as batatas no forno durante 30 minutos até estarem ligeiramente douradas e cerca de 2/3 assadas.
Passado esse tempo, esmagar cuidadosamente cada batata com um esmagador de batatas (uma espátula-escumadeira também serve!) para aumentar a área de superfície em contacto com o tabuleiro para que fiquem o mais estaladiças possíveis. Adicionar um gole de azeite numa pequena tigela, 2/3 da salsa, 2/3 do bolbo de alho, um gole de vinagre balsâmico e 2/3 da tangerina. Esfregar tudo e mexer um pouco.
Adicionar a mistura e os espargos sobre as batatas, envolver, dar uma boa agitadela ao tabuleiro e devolver ao forno quente durante 40-50 minutos até estarem perfeitas. Quer-se batatas bem douradas, crocantes e suaves por dentro, borbulhantes e os espargos crocantes e dourados.

Numa taça, envolver o cebolinho, o iogurte, o resto da salsa, do alho e o sumo da restante clementina. Adicionar um fio de azeite, sal e pimenta a gosto. Provar e ajustar o tempero.

Temperar a pele dos pargos com sal e fazer uns cortes para que não enrole ao fritar.
Numa frigideira larga, adicionar azeite apenas para cobrir o fundo. Quando estiver bem quente, adicionar os filetes com a pele virada para baixo e deixar apenas durante 2-3 minutos, até estar dourada e estaladiça. Virar o filete e selar. Retirar da frigideira para um prato com papel absorvente e cozinhar os restantes filetes.

Servir tudo bem quente com uma colherada do molho por cima do peixe e um copo fresco de vinho verde!

serve 5-6


























Bolo podre

Se as claras não ficarem totalmente em castelo o resultado será um bolo ligeiramente mais denso (o que na minha opinião não é necessariamente uma coisa má, apesar de já fugir do que se espera de um autêntico bolo podre). O bolo torna-se ainda melhor no dia a seguir a ser feito, quando os sabores estão mais intensos, e conserva-se muito bem durante pelo menos 5 dias.

250ml de mel (usámos de rosmaninho)
250ml de azeite virgem-extra
250g de açúcar
1 c. de sobremesa de canela
1 limão
6 ovos
350g de farinha de trigo
1 c. de chá de fermento em pó

Pré-aquecer o forno a 180ºC com a prateleira no meio (não façam como eu que me esqueci e deixei em baixo, outra vez...).
Juntar o mel com o açúcar, o azeite e a raspa do limão. Bater tudo muito bem até obter um creme fofo e esbranquiçado. Juntar as gemas, uma a uma, batendo bem entre cada adição. Aromatizar com a canela. Bater as claras em castelo bem firme e envolver com o preparado anterior, alternando com a farinha, previamente peneirada com o fermento.Untar com azeite uma forma (utilizei com 24 cm) e deitar o preparado. Tapar com papel vegetal e levar ao forno cerca de 20 minutos. Retirar o papel e deixar cozer mais 40-45 minutos ou até estar cozido e bem dourado. Façam o teste do palito mas tenham cuidado para o bolo não ficar demasiado seco.
Retirar da forma e deixar arrefecer totalmente antes de servir, só ou acompanhado de uns morangos, um Porto (sim...) ou um chá de lúcia-lima ao pequeno-almoço.

serve 12


a ouvir: Beleza Pura - Caetano Veloso

3.5.12

cinzento-vento-tento-lento-tempo-alimento

Bird by bird, repito para mim. Enquanto lentamente ultrapasso a indignação, elimino a vontade de berrar e a auto-vitimização, até conseguir relaxar o corrugador do supercílio e confrontar a desmotivação crónica que me afecta os maiores prazeres, liberto-me da rotina através da rotina, na cozinha. Sempre diferente, fácil, rápido, sem pensar. Apenas para aproveitar.




spaghetti aglio e oglio, como quem diz esparguete salteada com azeite, alho, salsa e malagueta.


risotto super fácil (sem caldo de legumes, com este molho na base do refogado e vinho tinto a substituir o vinho branco) com tomate e oregãos. No cheese needed. 
(incrível como se apanha rapidamente o jeito a um prato destes. E quando se cozinha para um é menos de metade do tempo)


pseudo-queijadas com restos de massa filo, queijo creme, ovo e doce de abóbora da Lídia que precisava de ser acabado. Quente, estaladiço, leve, cremoso e doce q.b.


p.s. agora que reparo: salsa da avó, oregãos do tio e doce do avô.



a ouvir: Fast Car  - Tracy Chapman