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1.9.14

Voltei

Tenho aqui três rascunhos guardados, de três vezes de quando eu quase retomei isto. Três inícios completamente diferentes, três histórias e três receitas que entretanto ficaram por contar. Três nós de uma linha cheia deles. Uma linha de treze meses de comprimento.
Parei porque o coração sente, e quando se ama alguém, palavras para quê? Outras vezes não avancei por falta de coragem, por não conseguir voltar de repente sem mencionar todos os pequenos amuses que ficaram para trás, quando esse hiato virtual em nada se assemelha à quantidade de Vida que entretanto vivi. Parei também por praticabilidade. Porque o tempo não dá para tudo. Dá para as prioridades. Este lugar era uma quando dele fazia um Muro das Felicitações quando precisava de as contar para me manter em cima. Depois? Depois foi como se tivesse nos dois pratos da balança dois pesos que foram ficando progressivamente mais e mais opostos, e quanto mais tinha para deixar aqui, menos necessidade senti de o fazer.

Entretanto fui iniciada no chá preto à moda inglesa e gosto. Já o Marmite, tentei, mas não suporto.
Fiz aquela que considero a melhor tarte da minha vida e tenho plena noção do quão subjectiva esta afirmação é, mas não faz mal, porque é a minha vida.
Frequentemente os pequenos almoços-passaram a ser tomados a dois.
Tive experiências gastronómicas memoráveis (1 + 2 + 3 + 4 + 5 ... ). Outras, mais do que gostaria de admitir, nem tanto (1 + 23 (a sobremesa de gelado de mirtilo com carpaccio de ananás, no entanto, é fantástica).
Comi uma Francesinha.
Descobri que iogurte caseiros são 1000 vezes melhores do que qualquer um de compra, mesmo os biológicos.
Descobri onde comer comida de la mamma no centro de Lisboa. E estou completamente agarrada.
Voltei à escola. Uma escola diferente.
Fiz isto, que merece uma categoria só sua. E esta maravilha, tão simples e tão boa. E tudo aquilo que, se tiverem mesmo muita curiosidade, podem encontrar aqui.
Mudei de emprego. Duas vezes.
Fiz o meu primeiro trabalho como food photographer. O resultado foi este.
Descobri uma nova padaria.
Fui Snob.
Finalmente comi um autêntico phoo. Em Berlim, mas um pho.
Tal como aconteceu com a francesinha e o chá inglês, contra todas as expectativas e alguns princípios, transformei-me numa seguidora do gin tónico. E rendi-me a esta mousse.
Organizei uma festa para 30 pessoas para celebrar os 50 anos da mulher da minha vida.
Apanhámos figos directamente da árvore e comemos, comemos e comemos...
Celebrei os 23 em Terras de Sua Majestade e o Natal à grande, à alcoólica e à inglesa.
Andei por aqui. E aqui, duas vezes.
Fiz novos amigos de todas as cores e feitios (os outros todos guardo só para mim).
E tenho uma nova vista da cozinha.

E tudo isto é pouco, muito pouco.

Hoje trago bochechas. Algo que nunca teria provado por iniciativa própria porque é porco, e carne de porco não é algo que me atraia especialmente. Mediante isto, acontece que vivo com alguém que, posso dizer com alguma confiança, é seguramente o embaixador do porco preto e das ditas bochechas. Alguém que, se ler Bochechas na Carta não precisa saber mais nada. Eu, atacada pelo bicho da curiosidade inato do meu paladar (e da minha gula), provei, comi e adorei. É o tipo de carne que, se for bem feita, é autêntica comida para a alma. Acompanhada de um bom molho, saborosa, tenra, carnuda e sem gorduras perceptíveis, acompanhado com o que for, desde que em cima da mesa haja o pão para fare la scarpetta (temos de inventar um termo semelhante asap).

Há quem prefira as bochechas marinadas durante longas horas em vinho, tempero e especiarias, para depois poder cozê-las mais rapidamente e obtendo uma carne de textura toda muito uniforme, onde não se distingue as fibras, dos nervos e das gorduras, acabando com um resultado aparentemente processado, com pouca resistência e textura mas muito sabor. O embaixador é doido por estas, e até hoje só encontrámos quem as faça assim num único sítio em Lisboa.

No entanto, cozinheiro que é cozinheiro tem o seu quê de mistura de ego, confiança, orgulho e teimosia e eu decidi fazê-las à minha maneira. As bochechas foram douradas primeiro e depois lentamente estufadas durante 3 horas a lume muito brando. O resultado final foi umas bochechas a desfazerem-se na boca, absolutamente saborosas e húmidas, sentindo a cada garfada a fibra e a textura suculenta da carne. O molho é rico, espesso, intenso, com um equilíbrio entre a doçura do vermute e a acidez do vinho e das especiarias, juntamente com as notas fumadas do colorau e do aroma do alecrim. Servido com a salada morna de batata doce e figos verdes com o toque ácido do cebolinho, é na minha opinião quase O prato ideal - para amar, para conquistar e para celebrar.

P.S. Eu sei, é lamentável a qualidade miserável das fotografias. Foram tiradas de noite, com uma câmara do iphone e com a fome a apertar. Depois de muitos levels, filters and color balances, é o que se arranja.


Bochechas de porco preto estufadas em vermute

É importante que a panela utilizada seja pequena o suficiente para que não haja grande espaço entre as bochechas. Dessa maneira, ao adicionar os líquidos todos elas ficam completamente submersas, o que facilita muito o processo de cozedura.
De hora a hora é melhor verificar o estado do molho e ir provando, uma vez que pode ser necessário adicionar um pouco de água caso se esteja a evaporar depressa demais.

4 bochechas de porco preto (cerca de 600g)

azeite
sal e pimenta
125ml (1/2 cháv.) farinha

1 cebola pequena, bem picada
2 dentes de alho esmagados
2 folhas de louro
2 hastes de alecrim 8cm aprox.
8 grãos de pimenta preta
3 cravos da índia
1 pitada de pimenta da jamaica
2 c.chá paprika
350ml vermute
200ml de caldo vegetal
250ml de vinho tinto
1 c.sopa de manteiga

Misturar a farinha com sal e pimenta e envolver as bochechas com a mistura, sacudindo depois o excesso.
Fazer um fundo de azeite numa panela pequena e dourar bem as bochechas a lume médio-alto, por todos os lados. Retirar e reservar, mantendo o azeite na panela.
Mantendo o lume a médio-alto, adicionar a manteiga, as ervas e as especiarias durante alguns segundos. Juntar a cebola e o alho, baixar o lume um pouco e deixar a refogar até a cebola ganhar alguma cor e ficar completamente translúcida.
Devolver as bochechas à panela, adicionar os vinhos e o caldo levantar o lume para ferver e depois baixar para lume brando.
Deixar a cozer durante três horas, ou até as bochechas começarem a desfazer-se ao pressionar. Se o molho estiver muito líquido no final, destapar a panela e levantar o lume para que o molho espesse um pouco.



Batatas doces e figos verdes
Como acompanhamento quis apenas criar um bom complemento ao sabor já complexo, adocicado e intenso das bochechas, criando a ligação com o azeite aromatizado. Acho que o cebolinho vai especialmente bem e diria que quase essencial para dar o corte e proporcionar uma certa frescura ao resto do prato. Sem as bochechas, uns pedaços de queijo de cabra desfeito, ou até mesmo um belo queijo da ilha fariam deste simples acompanhamento um killer e prato principal.

3 batatas-doces pequenas
6 figos verdes, cortados ao meio longitudinalmente
3 c. sopa de azeite
1 haste de alecrim
flor de sal
pimenta preta fresca, moída
cebolinho

Cozer as batatas doces inteiras e com pele. Deixar arrefecer um pouco até dar para tocar nelas. Cortá-las ao meio longitudinalmente e reservar.
Numa frigideira, colocar o azeite e o alecrim em lume muito brando até o azeite ficar bem aromatizado.
Retirar o alecrim, aumentar o lume e quando o azeite tiver bem quente adicionar as batatas e os figos. Deixar dourar bem em todos os lados, especialmente na face cortada, virando de vez em quando para dourar e para que não colem no fundo da frigideira.
Retirar, temperar com flor de sal e pimenta, cebolinho picado a gosto e servir quente com as bochechas.


serve 2


a ouvir: La verdad - Juana Molina

21.6.13

Um festim - levar tudo o que puder, dar tudo o que tiver


É certo que se vão repetir mais Domingos de Sol. E a Primavera também é coisa que há todos os anos. E o mais provável é que daqui a um ano encontrarei no Principe Real a mesma "salada" de coisas boas pré-estivais que encontrei no Sábado. Mas tenho sede de experimentar, uma certa "ganância" de frutas e vegetais que origina a germinação espontânea de ideias, que por sua vez foge do meu controlo, tendo eu nenhuma outra alternativa senão ceder à vontade. Quero fazer agora tudo o que quiser e puder.
Ter à minha disposição coisas tão boas, ricas e honestas é, na verdade, um privilégio bastante barato, mais que justo, tendo em conta o valor do processo, das mãos de quem os leva até mim e dos 
bons momentos que nos ajudam a construir à mesa, lá fora, num destes escassos dias quentes 
difíceis de agarrar. 


Gastronomicamente falando, sinto-me cada vez mais confiante na cozinha, com a "minha cozinha". 
Apesar de cozinhar menos do que há um ano atrás, agora quase sempre que o faço de forma planeada é para todos. É como se a energia que distribuia em todas as pequenas coisas 
que fazia muitas vezes apenas para mim se encontre agora canalizada para estes momentos semanais pontuais em que liberto na cozinha (e no mercado) toda a minha vontade, inspiração, 
animae manifestum, da alma pela alma, daquela pessoa que está cá dentro, imperturbável pelas coisas de fora. 
Tenho uma vontade enorme de dar mais de mim, do meu instinto e inspiração, para não falar de que no fim, não conto apenas com o meu juízo ou validação que valem até certo ponto, mas sim reacções de fora e onomatopeias que valem milhões. Isso é cada vez mais o meu leitmotiv (apesar de sentir que não estou a dizer novidade nenhuma no que diz respeito a mim ou ao chefs em geral, não que me esteja a comparar a eles...).



Cada vez mais, quando sinto que já escolhi a receita certa, sendo que receita implica algo com medidas e dados concretos e o que faço muitas vezes limita-se a um q.b de inspiração meets intuição e mesmo que não saiba ao certo dados, tempos e outras informações de cariz, digamos, científico, práticos para um resultado final perfeito, a minha confiança fica apurada e os erros são muito menos.

Eu não sei se no futuro vou fazer da cozinha o meu local de trabalho ou algo remotamente parecido. Não sei o que é o futuro, quando vai ser ou como. Não assustam estas questões, simplesmente não fazem sentido. O que sei é que o que aqui estou a construir tem um preço enorme e dá-me uma sensação de preenchimento plena, porque é conhecimento e sabedoria conjugados com inspiração e paixão de uma forma que nunca senti, e que nada os pode anular.

As perguntas que mais tenho ouvido ultimamente são "O que é que significa?" (a minha tatoo) e "Então  e que tipo de coisas gostas mais de fazer? (na cozinha)" ou algo dentro da mesma linha. Perguntas difíceis. A resposta à primeira, apesar de bastante simples, ocuparia aqui demasiado espaço e não seria oportuna, pelo que não me apetece responder. A segunda é difícil porque não é uma resposta estanque. Flutua pelos dias, pela minha vontade e pelas circunstâncias.

No entanto, perguntem-me isso hoje e eu responde que hoje, o que maior prazer me dá fazer e comer é isto: produtos frescos sazonais, no expoente da sua qualidade, inspirando receitas - combinações / fórmulas são melhores palavras - simples e frescas, incrivelmente fáceis para a complexidade de sabores e incrivelmente saborosas para simplicidade da sua confecção. Combinações onde o processamento dos alimentos é mínimo porque a sua combinação no seu estado, na maior parte deles, natural, é o suficiente.



Flores de courgette recheadas e panadas

Tive uma sorte desgraçada. As flores eram a única coisa que eu tinha planeado comprar e apoderei-me das últimas flores que a Maria José tinha na sua banca.
Foi a primeira vez que comi flor de courgette. Tem um sabor bastante suave mas são muito agradáveis de comer, principalmente no que toca à textura e à maneira como se conjugam com o recheio e com a "capa" de pão crocante, agri-doce que as envolve. Para uma primeira vez preferi manter as coisas simples: o limão e a salsa são combinações óbvias, requeijão é sempre uma boa alternativa ao ricotta, menos cremoso até, o que me agrada, e o gruyère era o que tinha à mão para dar um bocadinho mais de força aos sabores. No entanto há três coisas que definitivamente não dispensava aqui: o pão ralado, que lhe dá um acabamento panado que nunca seria possível de obter com a farinha (digo eu), e a combinação da flor de sal e xarope de agave no fim: são um touch of heaven que eleva esta receita a um outro patamar. É uma festa de texturas e sabores que exige apenas um bocadinho de cuidado e muita vontade de fazer (e comer).

9 flores de courgette

150g de requeijão
12g de queijo gruyére
uma pitada de sal fino
1/2 c.chá de pimenta preta moída, fresca
1 c.sopa de raspa de limão
1 c.sopa de salsa, finamente picada

2 ovos, batidos
100g de farinha
50g de pão ralado
azeite, q.b

flor de sal
xarope de agave

Misturar os queijos com o sal e a pimenta, a raspa de limão e a salsa.
Cuidadosamente, rechear as flores de courgette com a mistura. Pegar nas pontas das pétalas e cruzá-las cuidadosamente para fechar a flor. Se preferirem, para controlar melhor as quantidades, façam previamente 9 montinhos da mistura antes de rechear.
Arranjar três tigelas e dividir por elas farinha, os ovos e o pão ralado em cada uma. 
Passar as flores pela farinha, sacudir cuidadosamente o excesso, depois passar pelo ovo batido e por último pelo pão, colocando-as numa travessa enquanto fazem o mesmo às restantes.
Colocar azeite numa frigideira larga até fazer 1cm de profundidade a lume alto.
Após 2 minutos, baixar o lume para médio e quando começar a borbulhar colocar as flores, adaptando a temperatura se for necessário, para que fiquem bem douradas após 1 minuto em cada lado.
Retirar com uma escoadeira para papel absorvente e polvilhar com flor de sal.
Antes de servir, retirar as flores do papel, passar com um fio de xarope de agave e servir de imediato.


faz 9 flores, serve 4/5 como parte de uma refeição de vários pratos, ou 9 como entrada




Cenouras baby e cebolas novas estufadas em azeite

Sem querer pensar muito, esta foi a maneira que arranjei para servir estas cenouras inteiras e deixar brilhar todo o seu sabor. Adoro a maneira como os sabores se fundem com o azeite, sendo que este também tem um papel super interessante na maneira como balança a doçura dos vegetais, uma vez que a cebola também tem uma doçura natural que ainda se salienta mais depois de cozida.
Uma vez mais, como foi a primeira vez que fiz algo do género quis manter a lista de ingredientes o mais simples possível, com apenas o necessário para dar um bom equilíbrio de sabores. O limão dá um toque fresco a tudo e a rama da cenoura é bastante aromática, na minha opinião um cruzamento entre cenoura e salsa, o que faz com que seja suficiente para sustentar o resto do prato.

360g de cenouras baby com rama
5 cebolas novas
2 c.sopa de azeite
1 c.sopa de manteiga
sal e pimenta q.b
4 c.sopa da rama da cenoura, picada
cerca de 1 c.sopa de sumo de limão

Combinar todos os ingredientes menos a rama da cenoura e o sumo de limão numa panela larga, numa só camada. Adicionar cerca de 200ml de água. 
Levantar fervura, tapar e deixar cozer lentamente, indo controlando com alguma regularidade após passarem 20 minutos, até que o liquido se tenha evaporado e os vegetais estarem tenros, mas não moles.
Provar e ajustar o tempero se for necessário.
Passar tudo para uma travessa, regar com um fio generoso de azeite, o sumo de limão e finalizar com a rama da cenoura picada.

serve 4/5 como parte de uma refeição de vários pratos ou acompanhamento




Salada de rabanetes, feijão branco, pepino e azeitonas

Frescura ao rubro aqui, não há muito que saber.

260g de rabanetes, cortados em diversos tamanhos e espessuras 
as suas folhas dos rabanetes, ou rúcula, folha de mostarda, mizuna ou outra folha ácida
270g de feijão branco
cerca de 12-15 azeitonas galegas descaroçadas
1 pepino grande, cortado em diversos tamanhos, formas e espessuras
2 c. sopa de sumo de limão
1,5 c. chá de sumac em pó
1 c.sopa de sementes de sésamo, tostadas
sal
2 c.sopa de hortelã, picada

Misturar todos os vegetais numa grande tigela. Envolver com as mãos no azeite, um pouco de sal, a maior parte do sumac, a maior parte da hortelã e o sumo de limão. Provar e ajustar os temperos, se for necessário.
Colocar tudo num prato grande, largo e pouco fundo. Finalizar com as azeitonas, as sementes de sésamo, o resto do sumac e da hortelã, mais um pequeno fio de azeite e uma espremidela do limão (Jamie Oliver's influence, sorry).


serve 6 como acompanhamento, 3 como prato principal





Tarte de mirtilos aromatizada com lúcia-lima e limão
adaptada de Heidi Swanson, Blueberry Lemon Verbena Pie

Estava com umas ganas enormes de fazer esta tarte. Comer mirtilos de qualidade na época é toda uma experiência que não tem nem remotamente a ver com comprá-los... bem, num supermercado convencional em pleno Inverno, por exemplo. O sabor é intenso, são sumarentos e quanto mais maduros mais doces. Não é barato, pois não, mas vale a pena. Quando abri a tarte assustei-me um pouco com a quantidade de líquido que havia no interior porque, na verdade, nunca tinha comido uma tarte de mirtilos antes e não sabia bem o que esperar do resultado final. Mas funcionou para todos. Ficou praticamente uma compota fresca de mirtilos coberta por uma massa ligeramente doce, leve e crocante. Pessoalmente gosto mais de uma massa mais "biscuit-like", como esta do JO por exemplo, mas se preferirem uma coisa mais do género folhada e não tão proeminente, esta serve bem o propósito.

2 receitas desta massa folhada para tartes
100g açúcar de cana natural
20 folhas secas de lúcia lima, picadas
45 g farinha
1/4 c.chá sal fino
1kg / 1,2kg de mirtilos frescos
2 c.sopa de sumo de limão
raspa de 1 limão
1 c.sopa de manteiga
1 ovo, batido
açúcar mascavado, para finalizar por cima


gelado de nata, para servir

Para fazer a massa, ao fazer a última dobra, estender a massa de maneira que o comprimento seja duas vezes a largura do rectângulo e ao dividir resultem dois quadrados. Formar dois círculos com cada quadrado, um ligeiramente maior que o outro, embrulhar cada um com película aderente e refrigerar no mínimo 30 minutos antes de desenrolar para a tarte.

Para o recheio, moer num almofariz a lúcia-lima, a raspa de limão e o açúcar até ficar uma mistura fragrante e húmida, resultante da mistura do óleo das folhas e da humidade do açúcar. Transferir para uma tigela grande e com a farinha e o sal. Juntar os mirtilos e envolver tudo cudiadosamente. Reservar.


Engordurar uma base para tartes de 23-26cm. Estender os dois círculos da massa até que fiquem cerca de 8-10cm maiores que o diâmetro da base de tarte. Cobrir a base com um dos círculos, ajustando-o à forma sem esticar, de forma a que fique cerca de 2,5cm de massa a passar da borda da forma.
Rechear com os mirtilos, regar com o sumo de limão e adicionar a manteiga partida em pequenos pedacinhos. Cobrir com a outra metade da massa e pressionar com um garfo as bordas para selar o interior. Com uma faca afiada, aparar a massa excedente deixando a massa ligeiramente para fora da margem (ver foto). Se amassarem demasiado e sobrar bastante, podem sempre envolver em película aderente e congelar.
Pincelar a massa com o ovo, picar com um garfo ou abrir pequenas fendas com a faca e levar ao forno cerca de 45-50 minutos, ou até a crosta estar bem dourada. Após 25 minutos, polvilhar a crosta com açúcar mascavado grosso e verificar a tarte regularmente para controlar a cozedura da crosta. Se começar a dourar demasiado depressa, cobrir com uma folha de alumínio.
Retirar do forno, deixar arrefecer um pouco e servir, quente ou fria, com a incontornável bola de gelado de nata.

serve 6-8, dependendo da gulodice.




a ouvir: Chão de Esmeraldas - Chico Buarque



23.10.12

Mimos do Poial - o feijão

O cabaz que recebi da terra do Poial é uma pequena grande aglomeração de potencial. Fiz um inventário na hora, claro. As ervas foram para um muito improvisada, muito feia e muito saborosa salada morna de batata doce, um dos minis pimentos e requeijão.

Um raminho de: alecrim, funcho, tomilho, manjerona e cebolinho, tudo bem picadinho e envolvido no requeijão. Depois o calor que emana da batata doce grelhada e o azeite fazem o resto, intensificando e misturando os sabores numa só garfada.





O topinambo, que não era mais que uma amostra, valeu-me para uma sopa pseudo-tailandesa de udon noodles, juntamente com uns pimentos.



Com as malaguetas tem sido mais complicado decidir o que delas fazer. Por muito atractiva que seja a ideia de fazer um chutney que encontrei no Culinário de 2008 ou um dos molhos de algum dos meus autores de referência, a verdade é que picante lá em casa, só com bastante moderação, ou pelo menos nada que se compare ao valente palato dos mexicanos ou dos tailandeses. Com elas fiz este molho até agora. É super versátil, tendo já servido uma colherada generosa sobre um peito de frango, refogado num arroz de pimento e dando um twist refrescante a uma posta de pescada cozida.


Depois há (havia!) o feijão longo e aquele poblano negro, de destino marcado desde que lhes pus os olhos em cima.

Por hoje fiquemo-nos pelo feijão. Lembrei-me logo do momento em que a Joana nos mostrou aqueles longos fios em que não dá para perceber onde acaba o ramo e onde começa o fruto, dizendo que, por serem tão tenros e finos, não é necessário cozê-los previamente antes de fritar nem retirar os fios. Inspirada pela tempura do Tomo, enchi-me de coragem e enfrentei os meus demónios da fritura. Fiz peixinhos da horta. Na verdade, foi mais tempura que os nossos conhecidos petiscos, porque a massa é feita apenas com cerveja e farinha.
Foi este o nosso jantar, com uma singela posta de bacalhau e um molho de tomate que com um ingrediente especial passa de modesto a magistral, dando gosto e sabor a estes tempos que não perdoam, cujas amarguras por vezes não conseguimos evitar de levar para a mesa.




Tempura de feijão longo e feijão-verde com molho de tomate e bacalhau

Esta tempura é apenas uma das mil variantes existentes, pelo que não é, de todo, a que mais aconselho a fazerem - até porque para isso teria de ter feito mais do que uma maneira para compreender bem as diferenças. Façam como acharem melhor para vocês.
A avaliar pela fotografia, escusado será dizer que ficou longe de perfeita, mas apesar de tudo sentia-se o crocante do polme e do próprio feijão, que não quis cozer completamente e sentia-se aquele sabor típico a frito mas com a leveza da tempura. O mais importante é que mais que os três elementos como um todo funcionam mesmo muito bem e esta é de facto a razão mais importante que me levou a colocar aqui esta receita.
O molho de tomate é incrivelmente versátil, de maneira que não se preocupem se sobrar porque certamente encontrarão outras oportunidades para o utilizar: sobre um torricado, juntar grão para fazer uma sopa com um ovo escalfado ou envolvido com atum desfeito e massa, o hidrato de carbono todo-poderoso que salva qualquer crise de inspiração. Eu passei-o no final para ficar homogéneo e para envolver melhor o bacalhau e o feijão, mas podem sempre deixá-lo inteiro.

 350g de feijão verde, feijão longo ou uma mistura
900ml de óleo (que faça 5cm de profundidade numa frigideira de 3 litros)
1 cháv. de farinha
1 cháv. (240 ml) de cerveja

2 1/2 c.sopa de azeite
1 1/2 c.chá de cominhos
1/2 c.chá de pimentão doce
2 c.chá de canela
1 cebola média, picada
125ml de vinho branco
400g de tomate em lata
1 malagueta sem sementes, finamente picada
1 dente de alho, esmagado
sal e pimenta q.b
salsa, picada

4 postas de bacalhau


Escaldar apenas o feijão verde durante 4-5 minutos, ou totalmente cozidos, conforme preferirem.
Aquecer o óleo na frigideira.
Bater a farinha e a cerveja numa tigela. e mergulhar cerca de 10 feijões de cada vez na massa.
Testar o óleo pingando um pouco da massa na frigideira. Se começar a fritar instantaneamente e a borbulhar é porque está pronto para fritar. Nessa altura, adicionar os 10 feijões de cada vez e fritar cerca de 1,5-2 minutos, até a massa estar bem frita e estaladiça.
Retirar o feijão da frigideira, colocar sobre papel absorvente e polvilhar com sal.

Para fazer o molho, aquecer o azeite numa frigideira larga.
Adicionar as especiarias e a cebola e cozinhar por 8-10 minutos a lume brando, até a cebola ficar completamente mole.
Adicionar o vinho e levantar fervura durante 3 minutos. Juntar os tomates esmagados, a malagueta e o alho. Cozinhar 15 minutos a lume brando até engrossar bastante.
Ajustar o tempero e passar tudo até que fique um molho uniforme mas não totalmente liquido. Reservar tapado. Na altura de servir, polvilhar com salsa.

serve 4


a ouvir: Warsaw - Sharon Van Etten