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27.9.12

Summer "falls", um trocadilho que só funciona em inglês.


Cada vez gosto mais do Outono, cada vez gosto mais da mudança das estações e das suas diferenças, ainda que essas sejam cada vez menos evidentes. Mas há mudanças que não mudam, passo a redundância, e para esta refeição queria fazer era algo como estes dias: com resquícios de um Verão acabado de passar e indícios de um Outono que apetece.

São as águas de Março em Setembro. Promessas de vida, esperanças latentes, cheiros a terra molhada das primeiras chuvas imprevistas. O mundo é feito para os que não se governam com estados permanentes, como eu. É feito de ciclos que prometem o equilíbrio saudável da Espécie. Agora corre-se para aproveitar os restos até à próxima vez: absorvemos com urgência os últimos raios de Sol quente, dá-se os últimos longos passeios sem cachecol pela cidade, aproveita-se as últimas refeições frescas ao ar livre, os últimos eventos a céu aberto disseminados por todo o lado. E eu, enquanto apanho nas costas e no rabo o quente do Sol das primeiras horas da manhã a contrastar com o frio que já se faz sentir, deito a mão às últimas framboesas da época para me vingar das tartes que não fiz e às boas laranjas que começam a aparecer, combinando-as com aromas que evocam tempos frios em casa quente.
E assim foi. Um pequeno festim que por curtas horas apaziguou, ou simplesmente mascarou, pequenos conflitos e acalmou corações revisitando fotografias antigas, memórias de um passado agressivamente presente, de tempos diferentes, para nunca mais repetir, e nós sem saber
o que pensar. Pelo que mais vale assim: comemos, rimos, choramos e voltamos a viver.




Chamem-lhe restos: pão integral com sementes, a perna de pato que sobrou, os agriões que sobraram, os coentros que sobraram e rebentos de soja (que sobraram, mas de outro almoço)
Este pertence À lista.

Aqui deixo um pato, dois acompanhamentos e um remate. Não sei se prefiro a sofisticação do pato com a batata num almoço de familia ou a simplicidade de uma bruta e maravilhosa sandes de pão de cereais, agrião, rebentos de soja e a carne desfiada da perna que sobrou a servir de aconchego numa pausa do trabalho. Para dizer a verdade até sei, mas nao quero influenciar ninguém.
Procurei, procurei e não encontrei qualquer tarte funda com framboesas e chocolate. Ainda assim arrisquei e o resultado está aqui.



Pernas de pato na frigideira com citrinos e especiarias

Devido à complexidade de sabores no pato, a batata doce não leva mais nada a não ser isso mesmo: batata e uma pequena pitada de sal. Na altura de servir basta regar as batatas com uma colher do molho do pato e polvilhar com uma dose de coentros bem picados. O travo amargo agrião faz na minha opinião um balanço perfeito com a doçura da batata e das especiarias, da gordura e intensidade do pato e da subtil acidez do limão. Cuidado com o sal no fim porque o limão em conserva também já acrescenta bastante ao molho.

6 pernas de pato
1 c.sopa cheia de canela
1/2 c.sopa de noz-moscada
sumo de 1 laranja
1 c.sopa de sal, mais a gosto
pimenta preta, q.b

3 batatas doces grandes
3 batatas médias
1 molho de coentros
1 grande molho de agrião

Para preparar a batata, cozê-las todas inteiras e com pele até ficarem totalmente moles, dando quase para retirar a pele posteriormente só com as mãos.
Depois da pele retirada, devolver à panela partida aos pedaços, temperar com um pouco de sal e esmagar grosseiramente com um garfo, para que mantenha ainda alguma textura ao ser mastigada.

Fazer incisões cruzadas (assim: #) na pele do pato e esfregá-la por todo com a canela, noz-moscada e sal. Colocar num saco ou recipiente fundo com metade do sumo da laranja, cerca de 4 colheres de sopa, mais 3 de água e deixar a marinar durante pelo menos 2 horas.
Colocar as pernas do pato com a pele virada para baixo numa frigideira anti-aderente bastante larga já quente, deixar ganhar uma crosta doirada, virar e cozinhar do outro lado, selando a carne na gordura que se vai soltando. Retirar o excesso da gordura para fora, deixando na frigideira um pouco para fazer o molho.
Juntar o resto dos sucos da marinada à panela com o restante sumo da laranja e a polpa do limão em conserva e ajustar o tempero com a pimenta. Misturar e ajustar o lume para que ferva gentilmente durante 20 minutos, ou até o molho obter um aroma forte e consistente e a carne estar bem cozida, mas ainda húmida por dentro de forma a que não fique demasiado seca.
No fim, provar os temperos e servir de imediato com a batata esmagada regada com o molho da frigideira acompanhada de uma mão cheia de agrião.


serve 6




Tarte de framboesas e chocolate negro

A tarte, e isto tenho que assumir, bateu um bocadinho ao lado, pecado de quem não quer abusar no açúcar e ainda assim comete o erro de achar que o chocolate negro compensaria o doce-nada-doce das framboesas. E para cúmulo achar que o ricotta iria igualmente cortar essa doçura e contrabalançar o quente da tarte com uma frescura. Só acertei na frescura. Failed big time. Para a próxima aqui fica: o dobro do açúcar, o dobro do açúcar e nenhum chocolate ou um chocolate mais doce. De qualquer maneira deixo aqui a receita com as doses de açúcar que utilizarei da próxima vez.


250g de farinha de trigo, mais para polvilhar
20g de açúcar em pó
pitada de sal grosso
125g manteiga sem sal, fria e cortada em cubos
1 ovo grande
1 pequeno gole de leite

100-150g de açúcar
375g de framboesas
60g de chocolate negro, partido aos pedaços
18g de farinha

200g de ricotta
2 c.sopa de mel de laranjeira

Para fazer a massa, peneirar a farinha, o açúcar e o sal numa grande tigela. Com a ponta dos dedos, envolver gentilmente os pedaços de manteiga na farinha e açúcar até a mistura ganhar uma textura de migalhas de pão. Adicionar os ovos e o leite à mistura principal e gentilmente envolver tudo, até obter uma bola homogénea. Não trabalhar muito a massa nesta fase – quere-se desfeita e pequena. Polvilhar a massa com um pouco de farinha e embrulhar em película aderente. Reservar no frigorífico durante 1h.
Entretanto envolver num recipiente médio a as framboesas, o açúcar e a farinha.
Envolver por completo o ricotta com o mel, acrecentando mais a gosto, e reservar no frio.
Pré-aquecer o forno a 180ºC. Retirar a massa do frio e Polvilhar a bancada com farinha, cortar a massa ao meio e, com um rolo de massa enfarinhado, espalmar uma das metades até obter 1cm de grossura. Engordurar com manteiga uma base pequena para tartes (metade das normais) e cobrir com a massa. Aparar os excessos com uma faca afiada.
Adicionar a fruta e espalhar por cima os pedaços de chocolate. Cobrir com a segunda metade da massa espalmada, ou em tiras cruzadas ou por completo, fazendo reentrâncias
com uma faca no topo.
Levar a tarte ao forno durante 45-50 minutos ou até obter uma crosta bem dourada e o recheio estar a borbulhar.
Deixar arrefecer uma meia-hora antes de servir, acompanhada com uma colherada da mistura de ricotta com mel.


serve 5


a ouvir: Águas de Março - Elis Regina

4.8.12

"Almôndegas" é um termo bastante depreciativo do que se passa neste prato.

Vai-se andando a bom andar. Não é num arrastar de pés, que não aquece nem arrefece, de quem não está bem nem deixa de estar, de quem sente um desconforto constante como quando temos o cinto ou os sapatos demasiado apertados. Vai-se andando muito bem, como quando temos calçados os sapatos ideais (a tentação de fazer publicidade é grande mas vou-me abster) ou quando andamos leves e sem computador, carregador do computador, livros, comida e garrafa de água - tudo ao mesmo tempo - às costas.
Vai-se comendo muito bem, também. Perguntam-me se tenho cozinhado. Páro para pensar no que sentido dessa pergunta. Eu simplesmente cozinho todos os dias, quer por vontade, vício ou necessidade... Mas sim, há dias em que faço algo mais, provavelmente o cozinhar a que se referem na dita questão.

A vontade do especial pode vir de qualquer lugar: de comida a roçar o limite da validade ou uma quantidade abusiva de fruta a entrar no limbo entre a maturidade e a podridão, de fortes desejos por um alimento sazonal, da minha incapacidade de não me aborrecer a comer sempre a mesma coisa, da vontade de exercitar a criatividade fora do ecrã do computador, por os ossos do ofício assim o obrigarem ou, como é o caso destas "almôndegas", por uma receita que é simplesmente atraente e sedutora (ou o seu autor que o é!).




















Os ossos do ofício a que me refiro acima: receita original do Gomes Sá, com direito a bacalhau comprado seco no Ramalho - O Rei do Bacalhau.

Nos entretantos vai-se trabalhando, com alguns ataques de ansiedade pelo meio, ideias brilhantes que rapidamente tendo a refutar por uma certa falta de confiança, gerando mais ansiedade, sonho com cailles en sarchophage (avançar minuto 8:10), aprendo o Código, derreto-me com este vídeo, vejo a melhor série desde há já largos tempos e outra para adormecer os neurónios mas que sabe bem, vou-me assando lentamente até ficar "no ponto, ter um tom dourado e crocante" e como diariamente ao pequeno-almoço o que o Sagmeister aprendeu até agora. Gosto especialmente desta. Complaining is silly, either act or forget.

Sempre que faço algo do Ottolenghi mesmerizo-me (adoro esta palavra) com o sabor final. Nunca sei o que esperar da mistura de ingredientes e método de confecção a não ser a certeza de que o resultado será no mínimo fantástico e surpreendente. Esta é a terceira da sua autoria (se bem que uma delas é uma ligeira versão de um clássico da cozinha do Médio Oriente) e cada uma é melhor que a outra.





































Almôndegas de vaca com aipo e limão
ligeiramente adaptado de Yottam Ottolenghi, Beef meatballs with lemon and celeriac

O melhor a fazer nesta receita, na opinião de alguém que tem alguma dificuldade em cozinhar sobre pressão, é ter a maior parte dos ingredientes preparados, medidos e prontos a utilizar, nomeadamente as especiarias. Depois é só juntar na altura respectiva.
A única alteração alteração que fiz foi substituir a raíz de aipo pelos talos, porque era o que tinha. O sabor fresco final do limão dá um toque vibrante e a erva-doce é para mim o elemento mais surpreendente, que vem a baralhar completamente os sentidos. Aconselho vivamente o iogurte no fim. De resto, nada mais a acrescentar, a não ser precisamente que eu não alteraria uma única coisa na receita. No dia seguinte, recheando uma pita ou enroladas numa tortilha, estas almôndegas sabem ainda melhor.

400g carne de vaca picada
1 cebola média, descascada e picada finamente
120g de pão ralado
20g de folhas de salsa, mais 1 c.sopa extra para o final
1 ovo, batido
1/2 c.chá de pimenta da jamaica moída
sal e pimenta preta
2 c.sopa de azeite
6 talos de aipo, fatiados
3 dentes de alho, descascados e esmagados
1/2 c.chá de açafrão
1/2 c.chá de cominhos moídos
1/2 c.chá de canela
1 1/2 c.chá de sementes de erva-doce, tostadas e ligeiramente moídas
3/4 c.chá de pimentão-doce moído
500ml de caldo de galinha, ou um cubo e a mesma quantidade de água
3 1/2 c.chá de sumo de limão (dá cerca de 1 1/2 limões)
60g de iogurte natural

Numa grande tigela, misturar os primeiros seis ingredientes, meia colher de chá de sal e um pouco de pimenta. Criar pequenas bolas em formato kebab (tipo bolas de rugby) com cerca de 3x5cm.
Aquecer o azeite numa frigideira grande que tenha tampa e selar as almôndegas por todo cerca de 5 minutos no total. Retirá-las e adicionar o aipo, o alho e as restantes especiarias. Saltear em lume alto, mexendo por dois minutos.
De seguida adicionar as almôndegas novamente com o caldo, o sumo de limão e mais meia colher de chá de sal e pimenta preta. Levantar fervura, baixar o lume, tapar e deixar a cozer cerca de 30 minutos. De seguida destapar e deixar a borbulhar a lume brando mais 10 minutos, até o molho ter engrossado substancialmente.
Retirar a frigideira do lume e deixar assentar uns minutos, para incorporar os sabores. Provar, ajustar o tempero se for necessário e servir com uma colherada de iogurte e salsa fresca picada.

serve 4


a ouvir: Little Black Submarines - Black Keys

24.7.12

A beleza não está nos olhos de quem vê




Os olhos abertos devem fazer-nos sentir mais seguros. É lógico, é essa uma das suas principais funções. Apesar disso é quando os fecho que a segurança verdadeiramente aparece e o medo se desvanece. Fecho-os muito para ver melhor também. De olhos fechados sou só eu e o que ouço e sinto sem a bengala enganadora do olhar que tantas vezes ilude, reclamando o estatuto do menos falível dos sentidos. Os olhos enganam pois. Olhares cruzados podem ser mal interpretados, uma flor menos bonita pode esbater o interesse em sentir o seu perfume, um mau design pode destruir um bom livro, um bolo de ar tosco e pouco atractivo pode não estar á altura da beleza do seu sabor (porque a beleza encontra-se em todos os sentidos).


Não fosse esta receita ser de quem é e eu confesso que muito provavelmente este bolo me passaria ao lado ou ficaria perdido no meio de tantos outros por onde passo os olhos ocasionalmente. No entanto, não só admiro o seu autor como o fui encontrar aqui, o que é logo à partida um bom presságio. Não me saiu da cabeça desde então, esperando pacientemente a enchente anual de ameixas da minha avó para dar asas ao meu desejo.

Os ingleses tem uma palavra para descrever a característica essencial e imediata deste bolo que até agora não encontrei o seu equivalente no nosso vocabulário: gooey.

goo·ey/ˈgo͞oē/

Não é só a palavra em si, é a maneira como soa. É como se a palavra fosse ao mesmo tempo significado e a sua própria interjeição. Mole, peganhento ou viscoso não chegam para definir a textura deste bolo, que é um pouco disso tudo mas também guloso, húmido e absolutamente saboroso. Sem dúvida no meu top de preferência.


Bolo de ameixas
retirado de Orangette, adaptado de Nigel Slatter, Tender, Volume II

O facto de ter três tipos de açúcares (sem contar com as ameixas) e dois deles líquidos é sem dúvida fundamental para a sua textura final e para o seu sabor intenso. Apesar de ser apologista das adaptações dos ingredientes sempre que necessário, neste bolo acho fundamental manter a receita fiel à original, principalmente no que diz respeito ao Golden Syrup (à venda por 3€ e tal no El Corte Inglés), que alteraria substancialmente não só o sabor mas também a sua textura.

250g de farinha 
1 c.chá ligeiramente mal medida de fermento em pó
1 c.chá de bicarbonato de sódio
1 c.chá ligeiramente mal medida de canela em pó
200g de golden syrup
2 c.sopa de mel
125g de manteiga
125g de açúcar de cana integral ou açúcar amarelo
2 ovos grandes
240ml de leite
350g de ameixas maduras, descaroçadas e cortadas ao meio ou em quartos (depende do seu tamanho)

Engordurar um uma forma para bolos de 24cm e forrar a base com papel vegetal. Eu deixo um bocado do papel de fora para ser mais fácil passar o bolo da forma para uma base depois de feito.
Numa grande tigela, combinar a farinha, o fermento, o bicarbonato e a canela. Misturar tudo muito bem (costumo misturar os ingredientes secos num tupperware, colocar a tampa e agitar).
Pré-aquecer o forno a 180ºC.
Colocar o golden syrup, o mel, e a manteiga numa panela a lume médio, mexendo ocasionalmente. Quando a manteiga estiver derretida acrescentar o açúcar. Retirar a panela do lume e deixar arrefecer um pouco durante 1-2 minutos.
Bater os ovos e o leite numa tigela média.
Verter a mistura do golden syrup na mistura da farinha e envolver com uma colher firme (a colher de pau é perfeita) até ficarem combinados. Verter a mistura dos ovos e do leite e continuar a envolver - inicialmente vai ser difícil e demorado misturar as duas partes, mas no fim a massa vai adquirir uma consistência bastante solta e líquida, quase sem nenhum vestígio da farinha, como se fosse massa para panquecas.
Colocar a massa na forma e colocar as ameixas por cima, que se irão afundar. Levar ao forno por 45-50 minutos (na receita original diz para levar durante 35 minutos, colocar um pedaço de folha de alumínio por cima e deixar no forno mais 10-15 minutos, mas eu preferi deixá-lo escurecer.) Desligar o forno e deixar lá o bolo mais uns 15-20 minutos.
Transferir para uma grelha para arrefecer durante uns 20 minutos. Depois retirar o bolo da forma e transferi-lo para cima da grelha para deixar arrefecer completamente antes de ser servido.

Este bolo conserva-se perfeitamente à temperatura ambiente, e por ser tão incrivelmente húmido, é preferível não o tapar de maneira muito apertada, porque pode ficar com uma textura elástica. Desde que se coma dentro de 2 ou 3 dias, um pedaço de papel vegetal pressionado contra as superdícies cortadas é o suficiente.

serve 8-10.


a ouvir: Need You Now - Cut Copy

10.6.12

Pão, peixe e pimento, por favor



Uma boa comunicação de um produto tem a capacidade de levar o público a que se destina a adquirir o produto em questão, sem que existisse algum interesse inicial ou houvesse sequer conhecimento dele. E todos caímos na teia da areia, é inevitável. Pode ser com shampôs, carros, CDs, revistas, produtos de limpeza, pacotes de TV, telemóveis, escovas de cabelo, máquinas de barbear, etc. Vale tudo. Comigo são livros e comida. E foi assim que surgiu esta salada. Passando pelos corredores do supermercado onde suspeito que quem lá trabalha já conhece a minha cara de ginjeira, deparo-me com uma lata impecavelmente embrulhada num papel de tom azulado que corresponde à minha gama cromática de azuis de eleição, com um desenho e nome apelativos, arrematados com a descrição que coloca qualquer produto a outro nível, mesmo que por vezes não o seja: gourmet. Leio "Filetes de cavala em azeite" pego em dois exemplares e boto no cesto.

Será necessário explicar que desde o meu pequeno almoço à base de degustações de produtos em conserva no Boquería que tenho vindo a desenvolver um especial interesse por este tipo de produtos, sendo essa a principal razão que me levou a fazer esta escolha. Conservas à parte, ainda hei-de escrever aqui a minha crónica gastronómica em Barcelona, mas é preciso tempo, porque a tarefa implica dedicação e concentração. A outra razão para a escolha foi o meu total desconhecimento do sabor do peixe em questão, sabendo apenas que se trata de um peixe gordo, apesar de ser da familia do carapau, que é um peixe magro. Por isso pensei nele como se fosse uma sardinha e procurei fazer algo fresco, juntando sabores fortes mas leves, que equilibrassem a gordura do peixe e da conserva sem anular o sabor. Inicialmente pensei numas tapas, servido em bruschetta, mas para um almoço uma panzanella pareceu-me muito melhor.

P.S: Introduzi uma nova categoria às receitas: A lista. Que é para onde a minha mãe diz que têm de ir pratos como este.




Panzanella de cavala em conserva e pimento assado

2 latas de filetes de cavala em azeite (2x120g)
1 pimento vermelho grande
60g de agrião (ou um pequeno molho)
60g de rúcula (o mesmo)
80-100g pão de véspera, cortado em cubos de 1,5-2cm
azeite

sumo de 1/2 laranja
60g de iogurte natural
1 dente de alho, finamente picado (opcional)
4 ramos de coentros, grosseiramente picados
4 cebolos, grosseiramente picados
sal e pimenta q.b

Assar o pimento inteiro no forno a 200ºC durante 1 hora, ou até ficar totalmente assado, murcho e com a pele chamuscada. Se preferirem temperem com um pouco de sal e azeite antes.
Quando o pimento estiver frio, cortar às tiras e colocar num prato de servir raso. 
Abrir as conservas e retirar os filetes da cavala e parti-los aos pedaços, juntando ao pimento. Reservar o óleo.
Para fazer o molho, misturar o iogurte com o sumo da laranja, sal e pimenta, o alho e metade dos coentros e do cebolo. Misturar tudo bem, provar e corrigir o tempero. Adicionar um pouco do azeite da conserva, se acharem necessário.
Numa frigideira colocar o pão, regá-lo com um bom fio de azeite e envolver tudo com as mãos. Ligar o lume e deixar o pão tostar lentamente até adquirir um tom forte dourado e estar totalmente estaladiço.
Adicionar ao prato do pimento e da cavala o agrião e a rúcula e os croutons. Temperar com o molho de iogurte e polvilhar com as ervas restantes. Envolver tudo ou deixar como está e servir de imediato, para que os croutons não amoleçam o agrião e a rúcula não fiquem empapados.

serve 2


a ouvir: Tenere Taqhim Tossam - Tiariwen

11.5.12

Ode à Primavera da mãe e o princípio de uma revolução

revolução
(latim revolutio, -onis)
s. f.
1. [Astronomia] Marcha circular dos corpos celestes no espaço.
2. Período de tempo que eles empregam em percorrer a sua órbita.
3. [Física] Movimento de um móbil que percorre uma curva fechada.
4. [Geometria] Movimento suposto de um plano em volta de um dos seus lados, para gerar um sólido.
5. [Mecânica] Giro completo do eixo de um motor ou de qualquer peça em movimento giratório.
6. [Figurado] Revolta, sublevação.
7. Mudança brusca e violenta na estrutura económica, social ou política de um Estado: A Revolução Francesa.
8. Reforma, transformação, mudança completa.
9. Perturbação moral, indignação, agitação.
10. Náusea, repulsa, nojo.
11. Modificação em qualquer ramo do pensamento humano: Revolução literária.


Algo está errado quando não nos conseguimos distanciar de nós mesmos. Não é suposto esgotarmos os nossos prazeres. Por vezes são esses pequenos abrigos que parecem funcionar na vida, e colocamos neles tanta pressão na sua "função", que será a de fazer sentir bem para viver o resto do dia de forma suportável, que acabamos por assassiná-los. E fica-se com nada. Apenas com uma ilusão de que ainda obtemos algo que na verdade foi já substituído, abafado pela ansiedade de tudo o resto. E esse tudo o resto parece-me literalmente Tudo ultimamente, e quer o sentimento seja ou não partilhado por outros, como já me constou, para mim não é aceitável, não é suposto e incomoda-me.
Disse a um amigo no meu discurso repetidamente mono-centrado (de que mais posso falar senão da única realidade que conheço, que é a minha?) que já não quero mais isto. Quero outra coisa. Experimentei esta vida e não estou a gostar de me ver com ela. Posso mudar o espelho ou a vestimenta e estou tentada a mudar os dois. Estranha analogia. Não vale a pena ter o espelho se me sinto nua. O corpo precisa de se envolver em algo com que se sinta bem. Mas isso só acontece se gostar daquilo que vejo.
Vou abrir o casaco, tirar o soutien, soltar o cabelo, remover a maquilhagem, abrir um buraco no cinto, desabotoar o botão do colarinho, mudar a mala por uma bolsa. Ou então vou apenas dar um passo atrás, ou mil, ou ver-me de três quartos ou de perfil. Vou mudar o que agora puder até porque o calor está a vir. Eu adoro Sol, adoro. Mas não me quero queimar ou desidratar. E adoro comida, adoro. Atendam na analogia.

Por isso vou-me afastar um pouco antes que bata com a cabeça no vidro transparente. Apenas um pouco. Porque continuo aqui e quero continuar a partilhar coisas doces, amargas, salgadas, ácidas e comida pelo meio, como esta pequena refeição a exaltar os ares da Primavera que tarda a vir e um bolo podre, colaboração entre avó e neta, após compromisso assumido durante uma das exaltações recorrentes aos tempos idos da avó nas cozinhas de Reguengos. Tudo para celebrar a Mãe.























Pargo com batatas e espargos assados no forno
À medida que o tempo vai passando, o aroma frutado que se liberta do forno como bailarina que dança pela cozinha é absolutamente divinal. O modesto molho de iogurte equilibra sabores e gorduras, dando um toque final fresco e vibrante a todo o prato. Se não fosse a picuinhice do membro mais novo com todo o peixe que tenha mais espinhas que um douradinho tinha escolhido linguado ou solha, que já há muito que tenho vontade de experimentar cozinhar. Em alternativa decidi-me por filetes de espargos (pedi para arranjar na peixeira), com uma carne magra ideal para acompanhar as batatas e apenas precisa de poucos minutos para ficar perfeito - o essencial é pele para baixo na frigideira quente.

500g de espargos, aparados na base e cortados em 3
700g batatas pequenas farinhentas
sal grosso e pimenta preta fresca moída
azeite q.b
1 bolbo de alho, partido em dentes
vinagre balsâmico
uns bons goles de azeite
35g de manteiga, cortada aos cubos
1 clementina
1 grande ramo de salsa, picada
1 pequeno molho de cebolinho
250g de iogurte grego

5 pargos, arranjados em filete (ou seja, 10 filetes)

Pré-aquecer o forno a 190ºC. Descascar as batatas e acertar o tamanho a alguma mais irregular - se não tiverem tamanhos aproximados não irão ficar cozinhadas por igual. Lavar as batatas em água fria e colocá-las numa grande panela, cobrir com água fria e temperar bem. Levantar fervura e cozer por 6-7 minutos, para que fiquem parcialmente cozidas.Escoar as batatas e reservar 3 minutos. Dar uma agitadela ao escoador com as batatas para que ajudar a que se enfarinhem para que mais tarde fiquem super estaladiças.
A esta altura, escolher a combinação de sabores desejada. Colocar as batatas num tabuleiro de forno, numa só camada, adicionar a manteiga, temperar bem com sal e pimenta e envolver.
Colocar as batatas no forno durante 30 minutos até estarem ligeiramente douradas e cerca de 2/3 assadas.
Passado esse tempo, esmagar cuidadosamente cada batata com um esmagador de batatas (uma espátula-escumadeira também serve!) para aumentar a área de superfície em contacto com o tabuleiro para que fiquem o mais estaladiças possíveis. Adicionar um gole de azeite numa pequena tigela, 2/3 da salsa, 2/3 do bolbo de alho, um gole de vinagre balsâmico e 2/3 da tangerina. Esfregar tudo e mexer um pouco.
Adicionar a mistura e os espargos sobre as batatas, envolver, dar uma boa agitadela ao tabuleiro e devolver ao forno quente durante 40-50 minutos até estarem perfeitas. Quer-se batatas bem douradas, crocantes e suaves por dentro, borbulhantes e os espargos crocantes e dourados.

Numa taça, envolver o cebolinho, o iogurte, o resto da salsa, do alho e o sumo da restante clementina. Adicionar um fio de azeite, sal e pimenta a gosto. Provar e ajustar o tempero.

Temperar a pele dos pargos com sal e fazer uns cortes para que não enrole ao fritar.
Numa frigideira larga, adicionar azeite apenas para cobrir o fundo. Quando estiver bem quente, adicionar os filetes com a pele virada para baixo e deixar apenas durante 2-3 minutos, até estar dourada e estaladiça. Virar o filete e selar. Retirar da frigideira para um prato com papel absorvente e cozinhar os restantes filetes.

Servir tudo bem quente com uma colherada do molho por cima do peixe e um copo fresco de vinho verde!

serve 5-6


























Bolo podre

Se as claras não ficarem totalmente em castelo o resultado será um bolo ligeiramente mais denso (o que na minha opinião não é necessariamente uma coisa má, apesar de já fugir do que se espera de um autêntico bolo podre). O bolo torna-se ainda melhor no dia a seguir a ser feito, quando os sabores estão mais intensos, e conserva-se muito bem durante pelo menos 5 dias.

250ml de mel (usámos de rosmaninho)
250ml de azeite virgem-extra
250g de açúcar
1 c. de sobremesa de canela
1 limão
6 ovos
350g de farinha de trigo
1 c. de chá de fermento em pó

Pré-aquecer o forno a 180ºC com a prateleira no meio (não façam como eu que me esqueci e deixei em baixo, outra vez...).
Juntar o mel com o açúcar, o azeite e a raspa do limão. Bater tudo muito bem até obter um creme fofo e esbranquiçado. Juntar as gemas, uma a uma, batendo bem entre cada adição. Aromatizar com a canela. Bater as claras em castelo bem firme e envolver com o preparado anterior, alternando com a farinha, previamente peneirada com o fermento.Untar com azeite uma forma (utilizei com 24 cm) e deitar o preparado. Tapar com papel vegetal e levar ao forno cerca de 20 minutos. Retirar o papel e deixar cozer mais 40-45 minutos ou até estar cozido e bem dourado. Façam o teste do palito mas tenham cuidado para o bolo não ficar demasiado seco.
Retirar da forma e deixar arrefecer totalmente antes de servir, só ou acompanhado de uns morangos, um Porto (sim...) ou um chá de lúcia-lima ao pequeno-almoço.

serve 12


a ouvir: Beleza Pura - Caetano Veloso